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Merda do Murphy

Ou da lei dele

Lei de Murphy é um adágio da cultura ocidental que normalmente é citada como: “Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível.” Foi com essa frase que Edward Murphy, um captain da Força Aérea Americana, “criou” a Lei universal que assombra até hoje nós os azarados. O Ed não era assim um gajo muito positivo, e por causa dele e da visão de Murphy, toneladas e toneladas de pessoas têm tido merdas a acontecer na vida delas quando menos precisam. Tipo eu. Depois de um processo de recrutamento demorado, eu tinha finalmente entrado no curso de tripulantes de cabine da que seria a minha próxima companhia aérea, quando a merda do Corona resolveu explodir, e suspender-me o curso. Não podia ter acontecido noutra altura? Obrigadinha Murphy. Menos grave mas tão irritante também, é o facto de que sempre que eu deixo cair o pão no chão, e isso acontece mais vezes do que podem pensar, o pão cai sempre com a merda da manteiga para baixo. E a culpa é de quem? Do Murphy. A visão tradicional diz que há uma chance de 50% para cada opção mas isso está errado, porque das 21 vezes que isto me aconteceu só duas vezes é que o pão caiu com a manteiga para cima. Com essa premissa do Murphy (e não minha) em mente, em 1995, quando eu ainda não tinha experimentado merda de pandemia de corona nenhuma, o físico britânico Robert Matthews publicou um tratado sobre o assunto que chamou de “A Torrada em Queda. A Lei de Murphy e as Constantes Fundamentais.” E amparado por complexos cálculos matemáticos e experimentos científicos, esse senhor demonstrou que a torrada tem de facto uma tendência inerente para cair com a manteiga para baixo. Ele verificou que em 9.821 quedas, 6.101 foram com a manteiga para baixo. E por causa da merda do Murphy, o Roberto desperdiçou horas e dias da vida dele a deixar torradas com manteiga cair da mesa e a apontar o resultado das quedas num caderno. Pelo menos que tenha ganho um prémio Nobel por isso. Mas então como posso eu continuar a ser a pessoa positiva, que me caracteriza, quando estas leis de Murphy existem e se verificam? Não são rumores, não são mitos nem lendas, nem conversas de galley, são teorias comprovadas de merdas que realmente acontecem. Quando estamos parados no trânsito, a fila do lado é sempre a que anda mais rápido, ou não é? Quem nunca mudou de fila, só para ficar parado de novo a ver a ex-fila a andar mais depressa? Isso acontece-me nas filas para mostrar o passaporte no aeroporto, nas filas das caixas dos supermercados, nas filas nos ATMs para levantar dinheiro. E sempre que decido fazer um atalho, esse atalho passa a ser a distância mais longa entre dois pontos. Quando estou a pintar um quadro e faço merda, qualquer tentativa de melhorá-lo só piora. Também é fatídico que todas as soluções que arranjo, acabam por me criar um novo problema. E sempre que vou comprar roupa e pego o tamanho S para provar, só me serve o M, mas se tivesse escolhido o M, o S é que teria sido o indicado. E se está escrito “Tamanho único” aposto convosco em como não me vai servir. As poucas vezes que tenho coragem para ir andar de bicicleta, não importa para onde vou, é sempre morro acima e contra o vento. Quando jogo poker e finalmente tenho dois Ases esses perdem sempre para uma merda de mão. Se houver 3 festas às quais eu quero muito ir, vão as três calhar no mesmo dia. Quando não tenho namorado, não há gajo nenhum interessante num raio de 100 km. Mas assim que arranjo um, aparecem outros 3 super interessantes. Enfim, qual lei qual quê. Juro que este Murphy lançou-nos foi a todos uma maldição. No outro dia andava à procura de um número de telefone e encontrei-o finalmente escrito num mapa, mas fiquei na mesma porque o número estava apontado na dobra do mapa, e com a dobra do mapa lá se foram alguns dígitos. Ora, culpa do Murphy. O mesmo acontece com muitas informações importantes nos mapas de uma rota ou destino que se perdem numa dobra ou na margem do mapa. É que a margem de um mapa de apenas um centímetro representa 28% da área total do mesmo. Grande merda, pois. Por esse motivo os bons guias rodoviários e mapas de cidades repetem pelo menos 30% da informação de cada página. Mas isto não interessa nada porque eu devo ser das poucas que ainda sabe o que são mapas de papel. A juventude agora só usa os GPS. Where’s the fun of it? Com os mapas descobríamos caminhos novos, e eu particularmente descobria realmente caminhos muito novos, alguns que não estariam sequer marcados nos mapas, porque me perdia constantemente, but not the point. Com os GPS levamos com ordens da voz irritante da gaja que nos manda 3 vezes virar à esquerda. Vire à esquerda a 300 metros. Vire à esquerda a 200 metros. Vire à esquerda agora. Deve ser divorciada essa gaja, ninguém aguenta isso. É certo que também uso às vezes, mas o meu é homem e só por segurança, é mudo. E as minhas meias, Sr. Murphy, as nossas meias? Tenho perdido dúzias de meias em máquinas de lavar e é um problema comum na minha vida nos 5 países onde já vivi. Por isso, não posso atribuir a culpa nem aos países nem às máquinas de lavar. Elas entram em pares, e saem soltas, livres, e solteiras. Acabam o namoro dentro das máquinas de lavar, e o outro par desaparece sem deixar rastro. Que sonho, se fosse assim tão fácil acabar o namoro com uma pessoa. Entrávamos na máquina como casal e num programa rápido de poucos minutos e frio, eu saia sozinha, e nunca mais ninguém via o gajo. Isso o Murphy não inventa. A título de curiosidade de merda, segundo o Victor Niederhoffer, que foi um senhor que curtia estudar estatísticas, se perdermos mais do que uma meia de uma vez só, o mais provável é que sejam de pares diferentes. E se houver duas ou mais maneiras de fazer algo e uma delas pode resultar numa catástrofe, alguém se decidirá por esta. E esse alguém normalmente sou eu. E tu, e todos nós, por causa da merda do Murphy. E este merdas também provou que levar um guarda-chuva quando há previsão de chuva torna menos provável que chova. Assim como regar as plantas, faz chover. Tinha acabado de regar o quintal inteiro a semana passada, e de enrolar a mangueira toda de volta e colocado no suporte, quando começou a chover. Mas também tenho outro truque para que chova: pendurar roupa. Seja a que horas que eu decida pendurar a roupa, quando estender a última toalha ou a última cueca, ou aquela meia agora solitária no estendal da roupa, é certo que vai começar a chover. Por causa de quem? Do Murphy. O São Pedro já não manda nada. E também é culpa do Murphy só encontrarmos as coisas nos últimos lugares que as procurarmos. Ou encontrarmos essa mesma merda dias depois quando não estamos já mais à procura dela. Basta. Portanto quando perdi no outro dia a chave do carro, o primeiro lugar em que fui procurá-la foi no frigorifico, e encontrei-a logo à primeira, por isso tecnicamente nunca perdi a chave. E agora quando tenho 4 chaves parecidas para um cadeado e não me lembro qual é a chave que o abre, experimento a última que normalmente experimentaria. E abro o cadeado à primeira. Agora quando quero regar as plantas, desenrolo a mangueira e digo para o ar, “Vou ter imenso trabalho agora a regar as plantas todinhas.” E chove. No trânsito digo em voz alta: “Era agora que eu mudava de faixa, estou a preparar-me para mudar de faixa, olha que vou mudar de faixa” e não mudo, mas a minha faixa passa indeed a andar mais depressa. Sim, é verdade que dou ares de maluca e ando a fazer as coisas de maneira diferente do que as faria, e que ando a falar sozinha e a dizer estas merdas para o ar, mas seja como for, creio ter descoberto uma maneira fantástica que contrariar o azar que a lei de Murphy nos impregna há décadas; e porque sou muito fixe, resolvi partilhar agora convosco o meu mais novo método para que tudo corra bem e o Murphy vá finalmente à merda.