Merda das modas

Para dizer a verdade, a merda das modas irritam-me. Parecemos todos carneirinhos a pastar em grandes grupos, ou rebanhos. A merda é que as modas nunca saem de moda. Em Novembro as ruas de Lisboa enchem-se de bigodes, alguns bigodes giros, uns surrealistas, uns louros, outros morenos, outros cheios de pedaços de comida, são bigodes por todo o lado e a maioria bigodes de merda. Entendo que seja uma iniciativa para aumentar a awareness para os problemas de saúde dos homens como os problemas com a próstata ou o cancro do testículo ou sobre o suicídio, e isso é de louvar. O problema é que em vez disso acontecer, o resultado é apenas mais bigodes em Lisboa, bigodes em todo o lado, e isso é uma poluição visual, sinto os meus olhos a serem violados uma, duas, constante vezes, porque para todo o lado que eu olhe entra-me um bigode ou dois pelo olho adentro. Não é Inês? Nós mulheres é que sofremos com isto. O problema surge quando a maioria dos homens que deixam crescer o bigode não sabe o que está a apoiar. Então o bigode passa a ser uma merda de bigode. Os famosos pelos entre a boca e o nariz da D. Joaquina de Benfica que o digam. Nasceram e tornaram-se exuberantes na altura da puberdade e agora aos 82 anos, um pouco mais fracos mas ainda compridos, já fazem tanto parte dela quanto o bigode do Salvador Dali fazia parte dele. Os dois bigodes parecem-me no entanto surreais. E lá está, eu sei que a D. Joaquina nem sabe que está ali a ostentar o seu bigode escuro e rarefeito numa campanha de conscientização sobre a próstata do Ben Stiller. By the way, Ben, I’m glad you are over that shit, mas não vou deixar crescer o bigode. Este símbolo de masculinidade dos anos 40 e 50, e também de descuido feminino, entrou em queda nos anos 70, mas parece que o glamour dos atores clássicos de Hollywood está de regresso todo o santo mês de Novembro para contentamento ou arrepio de muitos como eu. O meu primeiro pensamento de hoje foi sobre a utilidade dos bigodes. Sim, acordei a pensar nessa merda. Sei que os gatos usam os bigodes como instrumento sensorial para localizarem a presa. Ajuda a evitar predadores, a ver melhor no escuro, e até melhora a capacidade de ouvir. Agora, será que ser detentor de um potente bigode melhora também a capacidade desse homens de ouvir as mulheres, e daí o sucesso estrondoso que esta pilosidade acima dos lábios tem vindo a fazer entre elas? A mim até agora nunca me convenceu, mas se isto for verdade, embigodem-se homens do mundo por favor. Será o bigode nos homens o instrumento que tanto precisam para perceberem à primeira que quando nós respondemos Nada o que na realidade estamos a dizer é Foste para os copos com os teus amigos pela terceira vez consecutiva em vez de me fazeres companhia em casa quando eu estou grávida de 36 semanas e a merda das águas pode rebentar a qualquer momento? Nunca estive grávida mas se um dia ficar daqui a muitos anos, quero encomendar desde já um bigode para o meu marido. E será também o bigode nos homens o instrumento de localização que os socorra na altura de encontrar o ponto G ou outros pontos de interrogação da mulher? Aí não vão ser só as donas Joaquinas a carregar bigodes, vamos passar a ver também muitas outras de bigode por motivos que a D. Joaquina desconhece. Sim, que pensamento de merda para começar o dia, mas quem sabe se a nossa qualidade de vida não aumenta proporcionalmente aos pelos faciais? Os cuidados a ter com os bigodes até nem são muitos. Um pouco mais de sabonete ou champô na hora do banho e uma vez por semana condicionador (opcional) para tornar os bigodes um pouco mais macios. Antes das refeições é necessário alisar com os dedos os pelos para cima para evitar o contacto com resíduos alimentares, ou pentear a merda do bigode com um pente de dentes à antiga, se necessário. E há que tomar atenção quando beber cerveja por causa da espuma. Cultivar um bigode não é para qualquer um, mas só sabemos se experimentarmos. Muitos já o fizeram e deram-se bem. Na lista dos bigodudos de sucesso estão personalidades como Freddy Mercury, Friedrich Nietzsche, Che Guevara, Clark Gable, Frank Zappa, Albert Einstein, Charles Chaplin, e o meu pai (amo-te muito). A certa altura todos os Beatles também embigodaram, o Brad Pitt aderiu recentemente e a Frida Khalo sempre usou, se bem que no sítio errado. Quanto ao não-bigode do Justin Bieber: raspar ou não raspar, diria também Shakespeare ao alisar o seu. Nos anos 60, o Martin Luther King Júnior e o seu bigode também tiveram um sonho: o sonho de que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos dos merdosos dos proprietários de escravos pudessem ter todos eles a merda do seu próprio bigode imponente e se sentassem à mesma mesa para os alisar em conjunto. Pensemos então nisto com mais cuidado. Se calhar mais valia deixarmos crescer todos nós, homens e mulheres, um bigode de merda.

Merda de superstições

O facto de eu não acreditar nestas merdas das superstições tem estado a dar-me azar. Só pode ser isso. Tenho andado a dar tiros atrás de tiros nos pés já desfeitos porque sou sempre eu a sentar-me nas esquinas das mesas quando vou jantar com um grupo de amigos, ou a única a brindar com água, ou a única a abrir guarda-chuvas nas lojas para ver se não estão rotos antes de os comprar e quando não os abro por me assaltar à consciência a possibilidade dessa merda das superstições existir realmente, compro-o sem abrir e quando chego a casa faço a mesma merda e abro o guarda-chuva só que desta vez dentro da minha casa, and guess what está mesmo roto. E depois dizem que foi azar. Penso que não há outra coisa a fazer senão aceitar a inevitabilidade do meu azar. Se calhar a culpa é da minha avó: varreu-me várias vezes os pés quando eu era pequena e vá lá não ter saltado por cima de mim senão eu so they say não teria crescido, e não contente com isso só para ter a certeza de que o azar não me abandonaria, trouxe para casa um gatinho preto que estava praticamente a morrer desidratado debaixo daquele carro, e com quem eu obviamente me cruzei então outras milhares de vezes dentro de minha casa já que o gato era meu. A verdade é que a minha avó parecia estar ciente do que fazia as vezes sem conta em que me varreu os pés; terminava sempre por se rir e dizer, que já ninguém vai casar contigo, meu amor. Dizia-me que eu não perdia nada em não casar porque dos homens nem bons ventos nem bons casamentos. Soube mais tarde que ela substituiu a palavra espanhóis por homens, mas a minha avó sempre gostou de generalizar. “Os homens não prestam” ainda hoje me diz, e diz-me agora várias vezes ao dia porque já tem 90 anos. Mas não, a culpa deve ser obrigatoriamente minha. Acho que o nunca ter sido supersticiosa me tem dado azar: há uns anos quebrei um espelho e tudo o que fiz foi limpar os cacos de vidro e nem me passou pelo pensamento que poderia vir a ter 7 anos de azar. Ou serão 7 anos sem sexo? Seja como for, uma coisa vai dar à outra, e se tentarmos ver o copo cheio, um azar realmente não é um espelho partido, é um preservativo furado: não são 7 anos, é para a vida toda. A minha amiga Rita quase todos os meses me fala desse tal trevo de quatro folhas que eu devia arranjar ou da tal pata de coelho que insiste que dá sorte; bem, menos para o pobre do coelho, não foi a Rita de certeza que ficou sem a pata. Estas crendices não têm pés nem cabeça, mas a superstição é mesmo isso uma crença em situações com relações de causa e efeito que não se podem mostrar de forma racional ou empírica, coisas irracionais não fundamentadas, tradições populares e outras relacionadas com religião ou mágica. Mas como é que eu posso aceitar que conjuros, curas e outros rituais possam influenciar de maneira tão transcendental a minha vida? Gosto de acreditar que a nossa sorte somos nós que a fazemos. Eu é que não tenho jeito para a coisa. E desculpa-me por fazer o erro de colocar tudo no mesmo saco, mas se eu for acreditar na cartomancia, na quiromancia, na homeopatia, na tia Joaquina, no tarot e em feng shui não vou fazer mais nada na vida do que seguir instruções e até para fazer coisas simples como decorar a casa vai ser difícil. Não será porque os orientais usam símbolos para figurar bons presságios capazes de atrair sorte ou azar e isso funciona para eles, que também eu terei de passar uma semana ao computador a fazer um google de feng shui porque não tenho dinheiro para ir fazer um workshop, para poder decidir onde devo posicionar o sofá na sala. Já me é difícil conjugar cores porque sou daltónica. Ou teria eu, quando voltei da Índia, de me ter certificado que os elefantes de marfim que trouxe de Goa e que gostava de ter expostos na sala deveriam antes ter sido colocados no corredor da entrada com o rabo virado para a porta de entrada? Aliás para ser exata em vez de 2 elefantes devia ter trazido 3: o primeiro tem de ter a tromba virada para a entrada da porta principal, o segundo elefante o rabo virado e o terceiro deveria ser colocado num sitio onde nós não o possamos ver nem quando andamos a limpar o pó. Essas merdas dão trabalho e porque dão trabalho dá-me mais jeito colocar tudo no mesmo saco e recusar. Recuso-me a ceder a essas merdas das superstições, não sou supersticiosa e para mim um gato preto é um gato preto. Como é que posso acreditar que aquele gatinho preto querido que se debatia entre a vida e a morte é antes um espírito malévolo capaz de causar mal estar e até mesmo a morte? E que ao mesmo tempo que isso acontece, curiosamente ao fervermos a carne do tal gato estaremos também a curar a tuberculose pulmonar da tia Joaquina, a tia que rimou com homeopatia, e que mora algures na América do Sul? Eu nunca fui e nunca serei supersticiosa: para mim um gato preto é um gato dessa cor e mais nada. E essas vassouras a varrerem-me incessantemente os pés, os mais de 6 mil e setecentos brindes com água e os 7 espelhos partidos, todas as vezes que passei orgulhosamente por debaixo de escadotes e todas as vezes que me cruzei com o meu gatinho, tenho a certeza de que nada disso na verdade tem a ver com o facto de eu ter quase 40 anos e ser divorciada desde os 28, ou de estar a dormir no sofá de uma amiga porque chovia mais dentro de minha casa do que na rua, ou o meu carro está parado na oficina há coisa de duas semanas com problemas no motor e ter saído de lá com peças de outros carros e com outros problemas ou de minutos antes de eu ter deixado o carro no mecânico ter sem querer atropelado o meu gato que acabou por morrer, ou ter sempre mil obstáculos para conseguir as coisas tal e qual como jogos de computadores, sem que eu tenha aqui mais que uma vida, e não tem nada a ver também com o facto de ter perdido ainda hoje a minha mala com a carteira, os documentos e o meu telemóvel lá dentro e como dizem que um azar nunca vem só e chega em séries de sete, só me faltava agora ter o azar de ser despedida e perder o emprego. Não, não sou supersticiosa e não acredito nessas merdas das superstições; mas pelo sim pelo não, deixa-me cá bater 3 vezes na madeira e que o diabo seja cego, surdo e mudo. Ah, e só mais uma coisa antes de saltarmos para outro assunto de merda: cancelado, cancelado, cancelado.

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