Merda de incongruências 

Significado: ausência de congruência (olhe, obrigadinha Sr. Dicionário pela grande ajuda), de conformidade, concordância, harmonia, adequação, correspondência, identidade, e de mais uma série de merdas. Ora pois, se eu conseguir não me espalhar para outros assuntos, vejamos as incongruências de merda, desta merda de quarentena. Os médicos da Suíça dizem A, os médicos de Portugal dizem B, C, D, e há quem diga só merda. Desde o dia 12 de Março que me cerrei ou encerrei em casa sozinha, por livre e espontânea vontade, isto porque prezo muito a minha consciência limpa, seja em tempos de corona ou não, e porque principalmente em tempos de merda como estes, quero continuar a dormir descansada sem pensar que poderia estar contaminada e ao ser assintomática poderia passar sem saber o vírus ao João, que sem saber passaria à sua mulher Joana, que passaria à Joaninha que passaria por sua vez ao avô João que acabaria num caixão. Hoje é o meu 42.º dia em quarentena portanto preparem-se para mais uma merda de texto. No meu último dia como cidadã livre antes de ter iniciado a minha prisão domiciliária, fui às compras para me abastecer porque não tinha comida nenhuma em casa. Aviso já que não, não trouxe merda de rolo de papel higiénico nenhum. Primeiro, porque I’m a lady e não vou à casa de banho, segundo, porque não sou açambarcadora, e em quarto porque sei por A mais B que só os outros é que fazem merda. Não escrevi o em terceiro só para ver se estavas com atenção. Bem, fui de máscara, quando ainda não estávamos em estado de emergência e todos olhavam para mim como se eu fosse paranóica. Não sou, nem nunca fui paranóica. Só que sempre consegui ver para além do meu nariz, e era lógico que isto chegaria onde chegou. Para todos os que me chamaram paranóica, deixo aqui a bela merda da frase que não gosto de dizer mas que hoje vou abrir a excepção: eu avisei. Ah, soube-me a pato feito na Bimby. Pois é, uma coisa básica e lógica na minha opinião, que sempre foi a de todos devemos usar máscaras sempre, só agora é que vai passar a ser mandatório. Só agora, é que o Serviço Nacional de Saúde e a sua representante Marta Temido finalmente perceberam que pode haver pessoas a transmitir o vírus sendo assintomáticas. Ou não quiseram dizer que sabiam. Não sou cientista, não sou médica, não sou profissional de saúde, mas a massa cinzenta que tenho na cabeça não serve para construir muros cor-de-rosa. Usem máscara, não usem máscara, a máscara dá uma sensação falsa de segurança, afinal a máscara protege, não protege totalmente; a distância social deve ser de um metro, a distância social deve ser de dois metros, já que não sabemos ao certo vamos dizer metro e meio; o período de incubação é de no máximo 5 dias, afinal é de 14 dias, mas há um caso confirmado de 28 dias de encubação, vamos então concordar que o período de incubação é de 2 a 14 dias, não podemos tomar ibuprofeno nem outros anti-inflamatórios, afinal podemos tomar ibuprofeno e outros anti-inflamatórios, afinal não há provas conclusivas se podemos ou não tomar ibuprofeno e outros anti-inflamatórios. Ora, decidam-se. Uns dizem que vamos todos morrer mas o Bolsonaro que, para quem não sabe, é o presidente barra assassino-mor do Brasil, diz que é um resfriado. Incita aos cultos, e diz que a vida não pode parar, que muitos vão morrer mas que a vida é mesmo assim e que a ele o vírus não afectará porque é um atleta. E os outros que não o são, que vão à merda. Aliás, isto vem mesmo a calhar para o Bolsonaro, que deve andar ansioso por ver o vírus espalhar-se pelas favelas ou multiplicar-se pelos idosos que para ele igualam a um grandessíssimo peso na sociedade, que ele gostaria que fosse morto. Quanto à China, foi só a sexta vez que fez mudanças na forma de contar infetados, o que obviamente preocupou os especialistas, por não podermos fazer um levantamento rigoroso. Bem, eu deixei de vos ouvir a todos há muito tempo. E é tudo uma merda, sim, é uma merda estar em quarentena, mas bem pior é estar todos os dias nos hospitais a correr riscos para salvar pessoas, e depois voltar para dormir numa caravana alugada porque o Dr. João não pode ir dormir a casa. Graças a Deus, o meu Dr. Pai está reformado. A única coisa que peço aos meus Pais e à minha Avó é que fiquem em casa, resguardados, e eles estão. Mas o que se tem visto em todo o mundo, é que os mesmos pais e os mesmos avós que quando éramos pequenos nos diziam vezes sem conta para pormos o casaco para não ficarmos doentes, são os que mais insistem por sair e ir dar uma volta. Faço questão de sublinhar que os meus pais e a minha avó se estão a portar muito bem; e que esta merda de texto não é um queixume por estar em casa. Até porque para mim estar sozinha não é um problema, é um prazer na realidade, e estou com um bocado de receio de quando tudo isto acabar, eu queira permanecer em quarentena. Não preciso de falar com estranhos nem de usar sapatos de salto alto. São só dois benefícios assim na ponta da língua. Com a quarentena eu até lido muito bem; já não posso dizer o mesmo em relação às pessoas que adoram ir para a varanda às 8 da noite bater palmas em agradecimento aos profissionais de saúde, mas depois essas mesmas pessoas são as que saem de casa sem razão válida; e é preciso inundarmos Portugal com polícias em cada curva e levantar outras medidas restritivas para que as pessoas percebam que devem ficar em casa. Eu não tenho batido palmas à janela mas tenho mostrado o meu respeito, admiração e a minha gratidão ficando simplesmente em casa, em absoluto isolamento. Palmas levam-nas o vento. As acções contam mais. E aquelas pessoas que vão a correr para os supermercados e em vez de comprarem vitaminas como suplemento para aumentar a imunidade, compram todos os rolos de papel higiénico? Tentam não estar próximo de outras pessoas mas depois lutam fisicamente pelo último rolo. Esgotam as máscaras e o gel desinfetante mas depois continuam a tossir e a espirrar para as mãos. Passam a vida a queixar-se que passam mais tempo com colegas de trabalho do que com a família, mas depois quando podem passar tempo com a família, passam a mesma vida a queixar-se dos filhos e dos parceiros e já querem é ir ter com os colegas. A taxa de pedidos de divórcios já cresceu mais de 70%. Isto provavelmente é mais uma merda que eu inventei, e não estará suportada por nenhuma tabela científica. Pois é, como se a vida não tivesse já a sua dose de incongruências, a quarentena trouxe mais umas quantas para a nossa vida. Mas há umas poucas boas. Normalmente sinto-me na merda quando estou desempregada. Neste momento a quarentena alivia-me essa sensação de insucesso. Agora posso simplesmente atirar todas as culpas para a merda do vírus e lavar as minhas mãos de qualquer responsabilidade, literalmente. E tenho lavado obsessivamente. Aposto em como a taxa de pessoas contaminadas com o Covid-19 que sofrem do transtorno obsessivo compulsivo por limpeza é zero. Eles é que sabem; eles, as mulheres que usam burcas e o Pilatos também o sabia. Mas sim, estou desempregada porque o curso de formação que estava a fazer na que seria a minha futura companhia de aviação ficou suspenso, quando Portugal ficou suspenso. Quando o mundo parou e os aviões ficaram no chão. Sou assistente de bordo e digo-vos que esta situação toda tem semelhanças incríveis com as merdas dos standbys, em que a nossa companhia aérea nos paga para estarmos em casa de assistência de pijama no sofá a ver Netflix. Estamos de malas preparadas, o uniforme limpo, passado a ferro e preparado para ser vestido a correr porque às vezes pode tratar-se de uma emergência irmos substituir alguém que ficou doente para irmos passar 8 dias na Jamaica com tudo incluído naqueles resorts 5 estrelas. Por isso, se eu me quiser alhear a todo o sofrimento que vai pelo mundo, e acreditem que tive de o fazer porque estava a afetar-me demasiado, e pensar que estou em standby, acaba por ser parecido. Com a diferença que desta vez eu tenho a certeza de que não me vão chamar para ir trabalhar e quem me está a pagar para ver Netflix é a segurança social. Quando paga, porque é outra merda de instituição cheia de incongruências. São muito eficientes na hora de cortar os subsídios, aí não precisam de qualquer tipo de documento para servir de prova, mas para pagar o que nos é de direito precisam de um documento que foi enterrado no vale dos Reis no Egipto. E quando eu consigo desenterrá-lo, pedem-me que o traduza, e quando o traduzo, pedem-me que vá autenticar a merda do documento que sempre foi totalmente desnecessário e quando o apresento finalmente como prova, perguntam-me onde está a múmia do Tutancamon. Toda esta conversa de merda, entre e-mails trocados ao longo de meses. Quando aceitarem o meu pedido do subsídio de desemprego já estarei a trabalhar. A próxima vez que eu quiser mandar alguém à merda digo-lhes para irem à Segurança Social. Ou melhor, em tempo de quarentena: Segurança Social Directa; que também variadas vezes se encontra em manutenção para nosso benefício. E se tiverem dúvidas se estão ou não contaminadas digo-lhes para ligarem para o SNS 24 e se tiverem dúvidas se devem ou não usar máscara, perguntem à Marta. Não à da Ok! Tele-seguros; perguntem à Ministra da Saúde, apesar de temer que fiquem na mesma ou ainda mais confusos. Ora, eu digo que ninguém sabe é merda de nada, e isso é a única coisa em que todos concordamos. Fiquem em casa, comam bem, durmam bem, façam exercício, cuidem dos vossos e leiam coisas mais interessantes que estas. Sim, porque eu já vos tinha avisado que os meus textos são uma merda, portanto a responsabilidade de estarem a perder tempo é toda vossa. E em relação a isto não dá para lavarem as mãos.

Merda de mentiras

 

Atenção que saiu um artigo científico há uns dias que diz que mentir engorda. Era bom que esta merda fosse verdade, podia ser então que as pessoas mentissem menos nem que fosse para manter a boa forma física. No dicionário está escrito que mentir é enganar, uma impostura, uma fraude, falsidade, um engano dos sentidos ou do espírito, um erro, ilusão, fábula, uma ficção. Falta dizer que mentir é uma merda e ser-se mentido é uma merda ainda maior. Olha que não sei, está renhida a competição. Infelizmente, toda a gente faz merda e toda a gente mente e apesar de eu não gostar de mentir também eu já menti. Se eu não confessasse isto, não seria mais que uma hipócrita de merda. Quando alguém mente uma das pessoas acaba por estar a roubar o direito da outra à verdade, e ninguém gosta de ser roubado mas toda a gente rouba. Existem tantos cursos de merda de representação para televisão e para cinema, tantos cursos de merda de escrita criativa que não entendo esta nossa necessidade de contar mentiras. Pelo menos, que tivéssemos a simpatia de pré-avisar que vou dizer agora uma grande mentira que te vai fazer muito feliz ou que esta estória que te vou contar não se passou mas eu gostava que se tivesse passado porque ia transformar-me numa pessoa mais interessante. E pronto, depois dessa merda de introdução tinham a minha bênção para mentir com todos os dentes que Deus ou Alá lhes deu. Um bocadinho de sinceridade não iria ferir ninguém; aliás avisar antes de disparar uma mentira seria sempre melhor do que andarmos todos com coletes à prova de sentimentos. Assim ninguém entrava enganado por uma porta dourada que afinal dá para as cavalariças. Ou se calhar devíamos simplesmente criar uma placa ou um sinal de proibição e inundar a cidade com eles. E a partir desse dia seria pelo menos em alguns lugares Proibido mentir. Parece-me uma boa ideia dado que as outras placas parecem resultar, veja-se a do Proibido pisar na relva por exemplo. Há muito poucas pessoas que depois de avisadas, pisam a relva. Teríamos apenas de nos preocupar com os mentirosos iliteratos de merda. Mas nada que a cara do Pinóquio com um traço diagonal vermelho em cima não resolvesse essa falha de comunicação. Existem já tantas plaquinhas dessas: Proibido fumar, Proibido nadar no rio, como se eu fosse tentar nadar em terra, ou umas mais incomuns, como Proibido mascar pastilha elástica, que vi uma vez em Singapura, ou Proibido cuspir para o chão, o que acho absolutamente justo, dado que também não vemos o chão a cuspir para as pessoas. À porta de todos os centros comerciais em Abu Dhabi, nos UAE, quando lá vivia via constantemente Proibidas as manifestações de afecto; curiosamente nunca vi um que dissesse Proibido agredir mas juro que vi placas que diziam Proibido urinar no elevador. Esta confesso que me fez parar e ler aquilo duas vezes. Mas que sinal de proibição mais estranho, e claro, lido e feito: apeteceu-me fazer xixi. Seria uma coisa que aconteceria assim tantas vezes dentro de um elevador para que tivessem de a proibir? Seria comum ouvir-se um vou só ali ao elevador fazer xixi e volto já? Como hoje bebi muita água vou com certeza até ao décimo sétimo-andar. Num dia meu normal, iria só até ao terceiro andar. E será que essas pessoas que fazem xixi nos elevadores são as mesmas que vão falar ao telefone para as casa-de-banho públicas ou para as salas do cinema? Proibido arrancar flores do jardim, também vi essa em Abu Dhabi. São pessoas românticas, estas que vivem nos Emirados Árabes. Não dão a mão em público mas estão constantemente a oferecer flores. É certo que algumas dessas placas, por mais estranhas que sejam, devem ser indispensáveis em alguns locais ou para certas pessoas. E daí eu pensar que um Proibido mentir se calhar traria resultados positivos. Imagine, uma placa destas em cafés, em bares, em restaurantes. Proibido mentir nos parques de estacionamento, nos jardins, nas escolas, no Parlamento (meu Deus, no Parlamento!), nas esquadras de Polícia, até nas Igrejas. Principalmente nas Igrejas, e logo à porta. Ou conselhos de segurança do género: Se conduzir não minta. Deste modo, reduzíamos também os acidentes de viação, dado que o uso do telemóvel enquanto se conduz é provavelmente, ao lado da embriaguez, uma das maiores causas de morte na estrada. Sei lá, pelo menos teríamos lugares no mundo em que podíamos estar protegidos das merdas das mentiras, já que confiar uns nos outros está um bocadinho ultrapassado e parece-me só essa ideia ela própria já uma ilusão. E uma placa de Proibido mentir nos dates? Ou seria muito bom ou seria muito mau. Às vezes quase que percebo porque é que todos nós mentimos. É que uma mentira pode parecer em alguns casos quase uma obra de caridade, quase um ato de boa vontade, de bom coração. Mas não é, a mentira é uma merda e devia ser proibida. Seja qual for a motivação, todos ganhamos com a verdade, ainda que por vezes apenas a longo prazo. Dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade é simples, requer menos logística, menos capacidade de memória, ninguém se magoa e não estraga o karma de ninguém. E tenho boas notícias para todos os mentirosos. Se dissermos a verdade, o mundo não vai acabar, não nascem gémeos siameses, os tomates da quinta da D. Alice não vão de repente apodrecer, a gravidade da Terra não desaparece, não teremos 7 anos de azar, não ficamos desprotegidos contra vírus ou bactérias, e neste momento parece-me relevante acrescentar isto; e as estrelas do céu (e as celebridades da terra) não morrem mais depressa. Dizer a verdade não faz crescer borbulhas na cara de ninguém, nem pelos nos mamilos, não causa cancro no pulmão, não provoca acidentes de viação e não engravida ninguém. Também não foi a causa da mono-sobrancelha da Frida Kahlo. Dizer a verdade também não envelhece nem engorda; pelo contrário liberta e rejuvenesce. Vamos levar esta merda a sério e colocar em prática a verdade; tirá-la dos livros, sacudir-lhe o mofo e se for complicado ao início por causa dos maus hábitos, exercitamo-la durante apenas dez minutos por dia: não podemos dizer uma única mentira, seja ela branca, ou preta, seja ela amarela às bolinhas. Em período de quarentena é mais fácil dado o isolamento social, mas tudo bem, há que se começar em algum lado. Na semana seguinte passamos para os quinze minutos sem mentiras e vamos por aí afora, de forma corajosa e determinada, impulsionados pelas verdadeiras boas intenções até chegar a todas as horas do dia em que passamos acordado. Parece-me mais interessante para todos nós um sinal que proíba as pessoas de mentir, do que um que proíba de mascar chiclete. Eu diria mesmo que o Proibido mentir é tão necessário e urgente quanto o sinal de Proibido fumar. É que as duas coisas são uma grande merda e fazem igualmente mal ao coração.

Merda de sonhos

Todos nós sonhamos. Uns parecem literatura fantástica, quando outros assemelham-se mais com a realidade. Mas nem todos são lembrados. Já eu lembro-me de todas as merdas de sonhos que tenho todas as noites, ou todos os dias. Sim, porque também costumo dormir uma boa noite de sono durante o dia. Ossos do ofício de uma assistente de bordo. Mas vamos por partes, porque há muitos tipos de sonhos. Tenho muitas vezes sonhos lúcidos, que são os meus preferidos, porque tenho a total noção dos acontecimentos e consigo até controlá-los. Hoje sonhei que estava a andar de bicicleta, comecei a pedalar e como não costumo andar de bicicleta percebi que estava a sonhar. Já que isto é um sonho, pensei, vou pedalar tão depressa que vou levantar voo. E voei tipo o miúdo do E.T. O curioso foi que a meio do voo, tive medo de mais tarde não conseguir aterrar bem e nesse momento deixei de conseguir voar e entrei em queda livre, e soube aí que tinha de acreditar que conseguia voar para voar, e voltei a ganhar sustentação. Acho que todos nós devemos tirar alguns significados deste sonho, lições até, ou até merda nenhuma. Depois há os sonhos pesadelos, que normalmente são as fobias, receios, inseguranças da vida real trazidas pelo subconsciente para o sonho. Há também os sonhos premonitórios. Sonhei que a minha amiga estava grávida e não é que acertei? Sonhei com o nascimento do meu sobrinho, que o meu irmão insistia que seria menina e foi rapaz. Só não sonho com a merda dos números do Totoloto. Depois há os sonhos repetitivos, que normalmente acontece a pessoas que sofreram algum trauma. Melhor não dizer merda nenhuma sobre isto. Já os sonhos criativos são comuns entre artistas e funcionam como inspiração. Os sonhos do Dali seriam certamente surrealistas, ou não fosse ele o grande pintor de sonhos. E depois há os sonhos sensuais, mas essa merda a mim não acontece. Eu sonho com crianças com caras envelhecidas, e paredes a convergirem até me esmagarem, elevadores que caem comigo lá dentro, sonho com desastres aéreos, náuticos, labirintos, perseguições, os dentes todos da minha boca a cair, afogamentos, perdas de membros, ataques de tubarões-buldogue, o cabelo a cair, enfim. Sonhos sensuais? Não. Eu só tenho sonhos de merda.

Merda de pessoas

Caixa de Kleenex. A minha amiga que merecia bem melhor é uma bonita ultra suave folha que serve para assoar ou limpar ranho, enxugar lágrimas, or worse. Eu, e tu que me estás a ler também és. Ou somos, ou já fomos, ou seremos algum dia uma folha de Kleenex de alguém. Uma das muitas ultra suaves folhas com extrato de algodão ideais para uso diário da caixinha de Kleenex que está na mesa de cabeceira do gajo de quem se gosta. Ou gaja. Suave e resistente para o momento em questão. Perecível. Substituível. Igual para eles a tantas outras folhas. E quando essa caixa acaba, também a caixa é deitada fora e substituída por outra, com mais folhas. Somos tal e qual as folhas ideais para manter a higiene do seu animal de estimação ou perfeitas para limpar o seu teclado do computador que depois de usadas são deitadas fora. Folhas com qualidade e com garantia da marca de lenços Kleenex. Vá lá. Podíamos ser folhas de uma caixa de uma marca qualquer que ninguém conhece e que não tem a mesma qualidade. Há sempre uma merda pior. Na altura em que eu frequentava a Universidade, há quase 15 anos atrás quando ainda não havia smart phones e pagavas caro por cada mensagem de texto, as relações eram bem mais simples e as pessoas que usavam outras pessoas e as deitavam levianamente fora eram primeiro que tudo a minoria, e depois olhados de lado pelo resto de nós que actually namorava com alguém, respeitava essa pessoa e investia o tempo em conhece-la na realidade sem jogos, sem merdas. Conhecíamos alguém na rua, num bar, através de amigos, no metro, na universidade e se gostássemos de sair com essa pessoa, saíamos mais vezes, dávamos um beijinho ou dois e voilá estávamos a namorar. Não havia dúvidas. E depois de dormirmos com a pessoa, para o espanto de todos nós de agora, dormíamos de novo com essa pessoa, e de novo, e de novo, e um dia piscávamos os olhos e já namorávamos há 2 anos. Se queríamos ver a pessoa, dizíamos. Se quiséssemos ligar à pessoa, ligávamos. Não havia jogos, nem as regras dos 3 dias, nem workshops no youtube em como conseguir transformar o sexo casual com alguém num relacionamento, nem vídeos no youtube com psicólogos ou conselheiros or relationship coaches a guiar as pessoas no início de uma relação, ou em como estar disponível mas não estar demasiado disponível, rejeitar uns quantos convites sem rejeitar demasiados convites, para manter o interesse dele em ti, nem vídeos que ensinam como saber se o gajo é um player ou se é boyfriend material. Os relacionamentos entravam em crise com o tempo, depois de estarem juntos há 5 ou 7 anos, ou ao fim de 15 anos de casados. Os relacionamentos hoje em dia estão em permanente crise ainda antes de o serem. Agora com o Tinder, a vitrine de folhas de papel Kleenex é inesgotável, e a próxima folha parece mais suave que a última que foi usada só uma vez, e usar uma folha de cada vez também já não é suficiente. A folha ainda não foi para o caixote de lixo oficialmente e já outra foi puxada para ser testada. Não digo que sejam só os homens a fazerem isto, as mulheres também. A igualdade do sexo chegou à cidade, para o bem e para o mal. E como uma boa avó que diz frequentemente que No meu tempo as coisas não eram assim, digo-vos eu também que no meu tempo o homem ou a mulher que traía a mulher ou o marido se não tinha vergonha do que fazia, também não o publicitava. Hoje em dia há o orgulho da vergonha. A minha amiga Joana fez match com um gajo e depois foi ler a descrição dele lá naquela vitrine que em vez de Tinder devia ser chamado de Kleenex. Dizia: Casado à procura de novas aventuras. Mas que merda é esta? Eu disse-lhe Diz-lhe que és a mulher dele para o assustares. Ela assim fez e ele respondeu Eu sei que a minha mulher tem Tinder também e que se safa bem melhor que eu. Sim, ele disse safa-se. Pronto, não estragam dois casamentos. Esta é a merda de relacionamentos que existe hoje em dia. Está bem, temos de respeitar e tal, aceitar e outros blá, blá, blá, mas continuo a ter a minha opinião e a minha opinião é de que relacionamentos desses são de merda. Antigamente as pessoas depois de saírem umas quantas vezes e acharem que a relação não tinha futuro, enfrentavam a situação, e diziam à outra parte Não está a resultar para mim, ou pelo menos um Acho que devíamos acabar. Depois há uns anos veio a moda do Dar um tempo. E a moda pegou, porque as pessoas cada vez sentem menos respeito pela outra, a palavra de cada um vale cada vez menos, e porque tirava um pouco da responsabilidade de quem terminava a relação, deixava um fio de esperança que a coisa podia não terminar para sempre, e era assim mais fácil para quem terminava. Ainda que mais terrível para quem ficava a espera que voltassem. E agora já nem isto acontece. Agora a moda é as pessoas desaparecerem. Morrerem. É o tempo do respeito zero. Foram comprar cigarros lá à mercearia da esquina e nunca mais voltaram. Vão ao ginásio e ficaram lá presos eternamente agarrados à máquina de musculação ou debaixo de algum peso de 5 kg. Dizem que te ligam no dia seguinte e cortaram-lhes as mãos e então nunca mais te puderam ligar. Tu preocupada mandas uma mensagem Então está tudo bem? Tínhamos ficado de ir à praia? Já voltaste do Porto? Nada. A pessoa foi ao Porto e nunca mais voltará. O Porto, essa cidade tão perigosa que o teu date dos últimos 4 meses foi lá passar dois dias e foi raptado, e atenção sem teres recebido qualquer pedido de resgate. E a tua resposta é silêncio. E há silêncios que te gritam aos ouvidos. A pessoa que entretanto está desaparecida leu a tua mensagem, leu as tuas últimas mensagens, viu que ligaste umas duas ou três vezes, e continua fechada na cave só com possibilidade de ler as tuas mensagens mas sem coitadinho poder responder. A pessoa que saiu contigo nos últimos meses e que já dizia ter saudades, onde já passavas noites em casa, onde já tinhas a tua escova de dentes junto à dele, morreu subitamente. Mais uma vida ceifada. Mas ainda morto como por milagre ele lê as tuas mensagens, até que o defunto te bloqueia de repente. Foste bloqueada por um fantasma, e daí talvez o termo para esta nova moda de término de namoros: Ghosting. E surgiu um novo verbo também. I ghost, you ghost, she and he ghosts, we ghost, you ghost, we all fucking ghost. Não, eu não faço isso. Recuso-me a tratar as pessoas como merdas de folhas ultra suaves de papel Kleenex. Não sou religiosa mas tento seguir a regra de ouro comum a todas as religiões: tratar o outro como gostaria de ser tratado. Eu não desapareço, não morro, não fico eternamente no ginásio, ninguém me cortou a merda das mãos. Se não estou interessada em continuar alguma relação, enfrento a pessoa e exponho os meus sentimentos ou a falta deles. Não é difícil. É só não sermos uma merda de pessoa. Quando um relacionamento termina é doloroso mas invariavelmente aprendemos a lidar com isso quando chegamos a uma conclusão. Porque temos a oportunidade de falar e ouvir a outra pessoa nem que seja a dizer que já não quer estar connosco. Um final claro foi marcado e podemos iniciar o processo da dor, e o processo da recuperação. No ghosting, que vem da palavra em inglês ghost ou fantasma, ficas pendurada naquele fio que seca a roupa, com umas poucas molas, ao frio e à chuva, sem saber porque é que te penduraram ali, e se algum dia te vão resgatar. Mentalmente também presa nessa dúvida: mas que merda aconteceu? Ficas presa ou preso na incerteza e nem mereceste da outra pessoa o respeito de uma explicação final. É a merda de um fim aberto que deve provocar uma grande dor psicológica de auto-dúvida e de impotência. No início ficas preocupada ou preocupado, porque algo sério pode ter acontecido à outra pessoa. E o chamado sistema de monitoramento social inicia-se: Fazes o teu scan incessante mental sobre que merda poderia ter acontecido sem que encontres qualquer aparente motivo, sim, porque até à data da sua morte, e descanse esse merdas em paz, estava tudo perfeito até essa pessoa ter desaparecido sem deixar vestígios nem migalhas de pão ou explicação. O que foi que disseste ou fizeste que fez com que a outra pessoa se afastasse desta maneira? Ou que não disseste ou que não fizeste? Ou que disseste e fizeste e pudesse ter sido interpretado errado? Há uma infinitude de merdas possíveis. Podias ter evitado? Surgem as dúvidas e a tua auto-estima cai mais um pouco. You find no closure. Sem uma explicação é difícil seguir em frente. O teu cérebro procura incansavelmente por possíveis causas que não encontrarás jamais, porque a única razão para que tal tenha acontecido essa nunca te ocorre: esse gajo é um merdas, that’s all. Uma coisa posso dizer a todas as pessoas que foram ghosted por alguém que parecia apaixonado por elas, se é que serve de consolo: Essas pessoas que se transformam em fantasmas não são as pessoas certas para se ter um relacionamento próximo e honesto, por isso na verdade fizeram-te um favor. Um favor de merda sim, mas não obstante, um favor. Agora pára de ler esta merda, pára de pensar naquele merdas, e vai tratar de ti, porque tu sim mereces muitas coisas boas. E eu, com este texto e depois de ter atacado veementemente as muitas pessoas que praticam ghosting, acabei de muito provavelmente perder uns quantos leitores. Bem, seriam leitores de merda. 

Merda de teorias da conspiração

Segundo uma teoria popular, a aterragem da Apollo 11 na Lua em 1969 teria sido filmada pelo Stanley Kubrik num deserto dos EUA. Uns quantos dizem que se tal viagem tivesse realmente acontecido, teríamos la voltado. Também acredita nesta merda? Os EUA não vão mais a Lua porque não há necessidade: a Guerra Fria acabou, nada lá pode ser explorado comercialmente e as missões espaciais são caras como a merda. Mas há muitas outras teorias como esta. Uns pensam que o cantor Michael Jackson estará vivo, moon walking pelo Nepal ou pelo Quénia, outros dizem que a sua morte foi encomendada por figuras poderosas dos media mundial. Ora, de acordo com a autópsia, foram encontradas no corpo do Miguel altas quantidades de substâncias como propofol, lorazepam, idazolam, diazepam, efedrina e lidocaína. Aceitemos, foi a merda da droga. Por falar nisso, sabem aquelas linhas brancas de nuvem que aviões deixam no céu? Para alguns conspirólogos, elas podem deixar-nos estéreis ou doentes ao espalharem produtos químicos capazes de nos dopar ou de diminuir a nossa capacidade de gerar espermatozoides e óvulos eficientes e que por sua vez nos impediriam de procriar futuros conspiróloguinhos; uma espécie de castração química, com estudos de merda anexados que suportam esta teoria ao mostrar que a queda do índice de fecundidade tem sido proporcional ao crescimento do tráfego aéreo. What? Esta relação entre a queda da fecundidade e o aumento do tráfego aéreo não existe: são frutos distintos de diferentes avanços como novos métodos anticoncepcionais ou o barateamento da tecnologia de aviação. Não há menos bebés porque há mais aviões. Terá bem mais a ver com o facto de hoje em dia não haver um emprego para a vida ou das relações de hoje em dia serem muito parecidas com uma caixa de Kleenex em que usamos uma pessoa e logo depois a deitamos fora; ou até poderá ter a ver com a homosexualidade, já que há menos probabilidades do João fazer um bebé ao Miguel e da Ana engravidar a Sónia, do que o Rui engravidar a Joana; é óbvio que aquele é um processo mais demorado ou complicado do que o processo de procriação do Paulo e da Rita que copulam tão rapidamente como os animais do canal da Discovery. Este texto, se ainda não era, agora é oficialmente um texto de merda. Para o piorar, só escrevendo que o actor Keanu Reeves é imortal e desde 1994 que o gajo não envelhece. Mas o Keanu não é imortal, ele tem é uma avó chinesa. Assim como há quem acredite que o Paul McCartney terá morrido num acidente de carro em 1967 e desde então que é substituído por um sósia. Umas teorias mais estranhas que outras mas todas teorias de merda. Brace for impact: os rastros de fumaça surgem quando as turbinas dos aviões liberam vapor de água gerado na queima do combustível e em contato com a atmosfera fria, o vapor condensa-se nos cristais de gelo e formam-se riscos brancos. Não são ataques químicos orquestrados pelo governo. Sou assistente de bordo e não sou controladora de voo nem meteorologista ou piloto de avião, mas entre servir o chá, café e a laranjada, acho que posso arriscar dizer que sei o que esses riscos no céu são. Aceitemos então todos a realidade aborrecida tal como ela é, e deixemo-nos de merdas. 

Merda de contos de fada

Crescemos a ouvir estórias de princesas que são salvas pelos príncipes encantados, de princesas que são envenenadas por uma bruxa feia e má e que só voltam à vida se uma merda de um príncipe decidir sair da sua vidinha para ir ter onde a princesa adormecida está deitada numa espécie de coma alcoólico à espera da visita de uma merda de um príncipe so called encantado que para além de não ter sido convidado entra no seu quarto e depois lhe dá um beijo não consensual. Imagine que acontecia isto consigo? E se depois para além de tudo tivesse de casar com essa pessoa? O beijo não consensual é o destino comum de muitas princesas como a Branca de Neve e a Bela Adormecida, e ironicamente é essa violação o final feliz. Sou só eu que vejo isto como perturbador? As duas são supostamente salvas por príncipes que não as conhecem e que eles resolvem beijá-las. São estas merdas de contos de fadas que existem desde sempre no nosso imaginário, e depois quando na vida real não somos encontradas por esse tal príncipe ficamos na merda e depois lá nos faz comichão no pé aquele síndrome da gata borralheira que não pode ir ao baile e que gradualmente nos vai comendo o tornozelo e depois a perna e os joelho até que não sobra nada. Em vez de princesa, sentimo-nos uma eterna gata borralheira com os olhos inchados já vazios de lágrimas, manchados de lápis de olhos e para sempre calçada com só um sapatinho de cristal ou more likely comprado na feira da ladra ou numa loja chinesa ou comprada na Tailândia e mandada vir por correio, e lá estou eu só com um sapatinho de salto alto para que eu viva eternamente coxa, descompensada e desnivelada, ansiosamente à espera da merda do príncipe. Merdas de contos de fada. Mas estes não tiveram sempre um final feliz, e na minha opinião eram então muito mais úteis e relevantes para as crianças ou para as jovens, porque alertavam para os perigos da vida em vez de as encher de ilusões e mensagens desatualizadas. Tanto os contos da Bela Adormecida como a Bela e a Fera por exemplo eram contos que tinham de início um cenário sombrio marcado por mortes, medo, traição e até mesmo violações mas para se contornar essa realidade sombria, com o tempo, novos finais foram acrescentados. Numa das versões iniciais da Bela Adormecida a princesa era manipulada e enganada pelo príncipe que a engravidava e depois abandonava. Em algumas versões da Bela e a Fera, a Fera tentava violar a Bela, noutras ela chegava a casar-se com a Fera que voltava a transformar-se num homem gentil durante os tempos da conquista, óbvio, óbvio, mas depois os dois vivem um péssimo casamento porque o príncipe era na verdade um homem violento e tóxico. Nos dois casos a moral da história era o de alertar as mulheres quanto às falsas promessas que os homens faziam para conquistá-las. Hoje em dia não pensamos nisso porque metade dos casamentos resulta em divórcio, e grande parte das pessoas casa não uma mas duas ou até três vezes, mas ser-se obrigada a passar o resto da vida com uma fera monstruosa era um risco real na Europa dos séculos passados. Assim como Bela, muitas Anas se viam forçadas a casar com maridos arranjados organizados por conveniência. Meninas da nobreza eram cedidas a partir dos 12 anos de idade em troca de alianças políticas entre reinos vizinhos, por exemplo. Hoje chamar-se-ia a isto de pedofilia, prostituição forçada e tráfico de mulheres. Mas na altura para os reis era muito mais prático oferecer ao inimigo uma filha em vez de entrar em guerra com ele. Grandes pais. Se o meu pai me fizesse isto agora eu mesma entrava em guerra com ele. Mas as mulheres mais pobres também não escapavam dos casamentos forçados e eram trocadas como mercadoria porque vinham acompanhadas do dote. Na idade média a transferência do dote correspondia à maior entrada de dinheiro que um homem recebia na sua vida e isso tornava as mulheres reféns dos interesses dos outros. E a missão da esposa era servir e obedecer. Um ditado inglês do século 16 traduzido para português fica qualquer coisa como Um cão, uma nogueira e uma mulher: quanto mais se bate, melhores elas ficam. Bater na mulher não era crime e até ao século 9 os maridos tinham o direito de matar as esposas. Claro que nem todos os maridos eram uma merda mas o casamento na altura era tal e qual igual a uma roleta russa, um jogo de sorte ou azar, e o medo de se casar com feras estava presente na vida de todas nós. Uma das versões mais antigas da Bela Adormecida, no século 17, a princesa espetava o dedo numa farpa de linho e ficava aparentemente morta deitada num caixão. É quando aparece então um príncipe que se encanta com sua beleza e sem hesitar o príncipe resolve violar a princesa que está neste espécie de coma ou morte aparente e voltar para casa em seguida. A princesa continua em coma mas agora grávida de gémeos. Quando os bebés nascem, são eles que ao procurarem o peito da mãe para se alimentarem acabam por mamar no seu dedo sem querer, o que tira a farpa do lugar e faz com que a Bela Adormecida finalmente desperte. A princesa acorda confusa, como seria de esperar se eu adormecesse virgem e acordasse com dois putos parecidos comigo, e para procurar o pai dos miúdos vai até o reino vizinho. Acontece que o príncipe violador já era casado, esta parte pelos vistos nunca passa de moda, e quando a sua mulher descobre que ele teve filhos com outra, resolve matar as pobres das crianças que não pediram para nascer e servi-las para o príncipe comer. Felizmente, o cozinheiro encarregado do infanticídio esconde-os em casa e provavelmente serve um prato de porco, não sei, isto não dizem no conto. Então a rainha traída resolve vingar-se da pobre da princesa e manda montar uma enorme fogueira para a queimar viva. A princesa está quase a ser atirada para a fogueira quando o príncipe que, mesmo tendo interrompido a vingança não deixa de ser uma merda de um príncipe, para além de de estuprador acrescenta homicida ao seu registo criminal: atira a esposa para o fogo e finalmente se casa com a Bela ex-Adormecida. Até à parte do casamento, este conto poderia ser útil para descrever e alertar as jovens sobre os perigos do mundo e contra a maldade de algumas pessoas. Isso sim era uma mensagem digna de ser passada às crianças que são puras e desconhecem a merda do mundo em que vivemos, mas estragou-se tudo quando se transformou a estória num final dito feliz em que o casamento resolve todos os males e em que a nossa felicidade não parece estar em nós mas sim num príncipe qualquer desconhecido, seja ele uma pessoa de merda ou não. On a side note, mas que raio foi essa vontade da Bela de sair para procurar e querer conhecer o seu próprio violador e levar aos filhos a conhecer uma pessoa assim e acabar por casar com ele? Síndrome de Estocolmo? Já há muito tempo que os contos de fada foram alterados para terem um final aparentemente feliz. A pobre da maltratada da Cinderela não pode ir ao baile porque a madrasta a impediu, mas magicamente recebe o vestido e os sapatos e vá lá mostra um bocadinho de iniciativa quando mesmo tendo sido proibida vai até ao palácio, e depois antes que se transforme numa abóbora, coisa que acontece frequentemente a nós mulheres a partir da meia-noite, acaba por fugir perdendo a merda do sapato que depois consegue a pedido do príncipe calçar e finalmente casa com o príncipe e é raptada para um reino distante e vivem felizes para sempre. E digo raptada porque ela não vai de lua-de-mel, vai só com a roupa do corpo em cima do cavalo do príncipe que a escolheu sem lhe ter perguntado se ela também queria esse destino e que a leva para um reino distante, o dele claro, que ela não sabe onde fica e quando chegar não tem nem um telefone para dizer que chegou, nem tem facebook para poder fazer check-in ou instagram para poder fazer uma hashtag da cidade. Soa a rapto. Eu cresci a ouvir estas merdas destes contos e a sonhar com bailes, e príncipes encantados e sapatinhos de cristal, mas agora do alto dos meus 37 anos, que até ontem erradamente pensava que eram 36, eu não sei se quero mais ser a princesa resgatada pelo príncipe encantado. Então a merda do príncipe pensa que pode chegar, a qualquer hora, sem avisar, sem ser convidado, salvar a princesa que na realidade não estava metida em nenhum problema e sentir-se no direito de a levar para longe para eternamente ser aprisionada noutra torre igual mas diferente em que a única coisa que muda vai ser o corpo dela ao dar à luz à nova geração de princesinhas falsas, infelizes e confusas e à nova geração de príncipes arrogantes que por sua vez irão sequestrar, porque não há outra palavra, outras princesas e levá-las para reinos distantes? Eu não quero ser princesa, quero ser dona da minha própria vida e aventurar-me pelos bosques sozinha, morder as maçãs que eu quiser morder porque se não me matar vai me tornar mais forte, e conhecer o mundo, ir de sandálias ou ténis para estar confortável, ir descalça se assim me apetecer, vestir umas jeans que são bem mais práticas do que merdas de vestidos de baile que se sujasse teria de ler demasiadas instruções em como o vestido não se pode lavar a seco mas não se pode lavar na máquina ou se for na máquina tem de ser lavado a menos de 30 graus, não pode ser seco com luz directa do sol nem na máquina a de secar, ou seja se quisermos lavar a merda do vestido vai dar trabalho. Levo jeans está decidido e sempre que me sentir em perigo serei eu própria a salvar-me, em vez de colocar a minha vida ou felicidade ou capacidade de resolução de problemas nas mãos de uma merda de príncipe que provavelmente não saberá o que fazer assim que o cavalo desaparecer da página e depois de se ler a palavra Fim com ponto final no fim dessa merda de livro. Convenientemente não nos contam como vai ser a merda da vida da princesa com esse príncipe. Os contos de fadas hoje em dia transmitem uma ideia de sociedade desatualizada, superficial e passiva em que eu mulher não resolvo problema nenhum. Mas há que ter uma coisa em consideração antes de tirar merdas de conclusões também. É que estas histórias são muito antigas e a sociedade mudou muito de lá para cá e como tal devíamos mudar de contos. Os contos clássicos dos irmãos Grimm que serviram de base para muitos filmes da Disney por exemplo foram escritos entre 1812 e 1857. Desde então, é normal que as mensagens e papéis representados pelas várias personagens não se apliquem mais à sociedade moderna, e principalmente absurda para nós agora era o papel da mulher na sociedade de então: indefesa, guardada por um dragão que seriam os pais ou um vilão talvez a madrasta, à espera de ser salva por um príncipe e com isso ser feliz para sempre, já que o divórcio era uma coisa mal vista e com um forte estigma social. Mas contos de fada com esta visão obtusa e obsoleta da sociedade podem vir a prejudicar as crianças mais tarde. A mim prejudicaram e não tenciono perpetuar este ciclo vicioso com filhos que poderei ou não vir a ter. Um estudo da Universidade de Purdue nos Estados Unidos da América analisou mais de 160 contos dos irmãos Grimm e concluiu que a noção de beleza é abordada em mais de 90 por cento deles, em que a imagem convencional das princesas é a de uma mulher bonita e magra e pela qual os príncipes lutam, e em que as vilãs são descritas como feias. Só isto já é prejudicial o suficiente. E o príncipe encantado, aquele homem perfeito que um dia surge para nos resgatar do tormento e servir a felicidade eterna? No mundo real ninguém é perfeito e a felicidade deve estar dentro de nós e não dependente de um desconhecido qualquer. A ideia de que o nosso parceiro tem de ser perfeito é uma irrealidade que nos vai trazer desilusões. Então mas que merda de mensagem é esta a dos contos de fada? É inútil, ultrapassada e perigosa. Quem é que ao ser raptada por uma merda de um estranho num cavalo e levada para longe seria feliz para todo o sempre? Eu vivia era feliz para sempre sem estes contos de fadas de merda. A vida é minha, não acredito em príncipes encantados, não preciso de nenhum e prefiro ser eu a escrever a minha estória: Era uma vez uma princesa que se salvou sozinha. Fim.

Merda de dúvida

Ando há coisa de 3 meses com uma dúvida de merda. Será que eu seria mais feliz com um par de sapatos ou com um homem? Uma daquelas sondagens de merda concluiu que na realidade há muita mulher que não vê grande benefício em manter uma relação com um homem. Eu tenho sido advogada dos homens a minha vida toda, até porque nunca tive obsessão nenhuma por sapatos e os meus 53 pares de sapatos não me deixam mentir; mas ultimamente tenho andado com esta dúvida. É que os meus sapatos nunca me deixaram ficar mal e os homens já. De acordo com a mesma pesquisa, 60 por cento das mulheres afirmaram que para elas os homens são muito úteis a matar aranhas. Só por isto já dá para ver que esta era uma pesquisa de merda, mas adiante; também eu já matei muitas aranhas com um sapato, sem recorrer a homem nenhum. Em Londres, durante os 3 anos em que lá vivi quando estava baseada no aeroporto de Gatwick, não havia uma única noite em que eu não espreitasse para dentro da cama antes de fechar a luz para ver se ia passar ou não a noite com uma aranha. Pode parecer paranoia mas não era. Só no outono passado calculou-se que cerca de 150 milhões de aranhas invadiram as casas do Reino Unido. E não eram daquelas queridinhas quase transparentes, eram daquelas que quando eu fechava os olhos para dormir conseguia ouvi-la a andar no quarto. Ora ter-me-ia dado jeito ter lá um homem para me proteger, mas tinha os meus sapatos que me foram ainda mais úteis nessa época de acasalamento das aranhas gigantes domésticas. Elas a acasalar e eu a dormir agarrada a um sapato. Metade das mulheres que responderam merda nesta pesquisa, apontaram as altas habilidades dos homens para fazer churrasco e 70 por cento disse que os homens são vantajosos quando se trata de mudar um pneu. Entendo: se alguém sabe como grelhar são os homens e um sapato sozinho ou até mesmo um par de sapatos, não conseguiria grelhar o meu bife mal passado ou consertar o meu computador ou pendurar um quadro pesado direitinho na parede ou ir tão longe como conseguir trocar a merda de um pneu de um carro. Ou um pneu de uma merda de carro, em alguns casos. Os homens ganham pontos aqui, mas por exemplo quanto às bebidas alcoólicas, um sapato não fica bêbado nem coloca a culpa toda nas bebidas extra para justificar estupidamente aquele caso ocasional com aquela rapariga do grande-par-de-mamas cujo nome ele não se lembra porque não significou nada, diz ele. A verdade é que eu nunca vi um sapato bêbado. Às vezes, tentar explicar algo a um homem, bêbado ou não, pode ser tão frustrante como falar com um par de sapatos; mas um sapato nunca vai insultar uma mulher nem agredi-la fisicamente, nem ignorá-la. O sapato é o novo cavalheiro. Ele protege os meus pés contra as pedras da calçada e contra a sujeira mesmo que ele ande na lama, e sabe quando me aquecer os pés. Já alguns homens gostam de empurrar as mulheres para baixo, para parecerem mais altos. Claro que os homens não são todos assim: o meu pai não é assim, os meus irmãos não são assim, o meu namorado não é assim, os meus amigos não são sempre assim, e tu que me estás a ler não és assim com certeza; mas há muitos homens assim; já os sapatos fazem invariavelmente a mulher parecer mais alta. É verdade que o sapato não vai ajudar em algumas coisas que os homens poderiam, como com mapas ou a matemática. Um homem pode facilmente adicionar e subtrair, dividir e multiplicar; e um sapato não. Mas isso não é suficiente, homens. Step up. É que a concorrência é forte: todos os dias os sapatos estão a ficar melhores e mais fortes. Hoje em dia os sapatos não querem apenas ter uma boa aparência. Eles querem ser reforçados, imbatíveis, insubstituíveis. Há o sapato tonificante para melhorar a força muscular e tónus, o equilíbrio, melhorar a postura, queimar mais calorias, aliviar o stress nas articulações e até mesmo eliminar as dores nas costas, no pé ou na perna. Também há os ténis de desporto ou de corrida que não só fornecem substancial amortecimento na sola como também oferecem suporte para o arco, ajudam na prevenção de lesões e podem promover a melhoria do desempenho atlético. Escolher os sapatos certos é muito importante para o corpo e para a saúde em geral. Não deve ser apenas um sapato bonito. É necessário muito mais do que só a beleza para terem a potencialidade de vir a ser o nosso par perfeito: sejam eles homens ou sapatos. Todos os anos, a população feminina perde 44 milhões de dias de trabalho devido à dor causada pelos sapatos errados. E quanto tempo é perdido por causa de homens errados? Não sei, mas uma merda de uma pesquisa sobre isso é que eu gostava de ver. A relação das mulheres com os sapatos tem tudo para ser longa e não corremos sequer o risco seremos traídas ou deixadas. Um bom par pode durar longos anos e pode até acompanhar-me ao meu último endereço na terra, se forem os meus preferidos. Homens: os sapatos são realmente os vossos rivais mais fortes. A cada dia que passa precisamos menos dos homens. Eu li no outro dia num jornal de merda que especialistas em fertilidade do Instituto de Medicina Reprodutiva e Genética em Los Angeles encontraram já uma maneira das mulheres terem bebés sem a parte genética do homem. Pode ser um rumor de merda, vindo de onde vem não me surpreenderia, mas se for verdade, isso significa que todas as crianças nascidas a partir deste processo seriam meninas e geneticamente idênticas à sua mãe. Assustador ou não, e levado ao extremo, isso poderia levar a uma sociedade dominada pelas mulheres, onde os homens têm pouca ou nenhuma importância. O homem até poderá vir a ser extinto e a humanidade vir a consistir apenas de mulheres e meninas e avós e sapatos. A Cinderela é a prova relativamente viva de como um par de sapatos pode mudar a vida de uma mulher. O príncipe foi só um meio para ela poder comprar mais sapatos e mais caros. Mas mesmo o par perfeito pode doer muito às vezes, independentemente se é de um homem ou de um sapato que estamos a falar. Outro estudo de merda mostra que mais de 80 por cento das pessoas que trabalham 50 horas por semana são homens. Mas nem temos como saber ao certo se eles estão realmente lá a trabalhar. Temos de confiar, e depois apanhar DSTs. Mas sabemos exatamente o que o nosso sapato está a fazer e com quem está: ou está connosco ou está no armário. No meu caso também pode estar na bagageira do carro. Mas lá está, sabemos. E um sapato nunca nos vai deixar adormecer sozinhas. Um sapato nunca nos vai enganar. Nunca vai usar a desculpa do ginásio como álibi para o seu caso sórdido, ou sair para uma noite nos copos com os amigos que afinal era uma noite com outra mulher. O sapato nunca aquecerá outro par de pés, se nós não os emprestarmos. Não pretendo que este texto seja uma lista exaustiva de prós e contras sobre homens e sapatos, até porque já estou também um pouco farta desta merda de conversa. De qualquer modo, penso que cada cada mulher é uma mulher, cada homem é um estudo de caso e cada sapato está na sua própria caixa de sapatos. Cabe à mulher em questão decidir o que se encaixa melhor na sua vida. É, acho que já não tenho mais merda nenhuma de dúvida. E não estou a dizer que seja certo ou justo ou correto ou normal mas acho que funciona melhor para mim estar numa relação com um par de sapatos. Então vou assumir. São perfeitos para mim. Além disso, eu tenho certeza de que os meus sapatos nunca me iriam deixar por outro par de pés mais novo, mesmo se fossem de um par maior do que o meu.

Merda de ser inteligente

Pensa que é inteligente? Então tenho más notícias para si: os inteligentes envelhecem mais depressa, vivem mais angustiados, sofrem de mais doenças, e morrem muito mais cedo ou acabam por matar alguém. Grande merda, não é? Os inteligentes passam também mais tempo a olhar para computadores ou para iPads e a ver e a rever material digital do que os burros, essas pessoas abençoadas. Diga-me: quando morrer espera que alguém se lembre de si, com lágrimas nos olhos enquanto assoam o nariz pingado, só porque conseguiu manter a merda caixa de emails organizada, o último antivírus atualizado, ou porque foi campeão desse jogo de tabuleiro online que ninguém conhece a não ser os seus amigos de quatro-olhos; ou será que está à espera de ser recordado porque dominou a língua Jedi, ou porque arrasou naquele site de internet que andou a criar durante meses? Irá alguém elogiá-lo por ter sido um adicto no trabalho? Não me parece, por isso deixemo-nos de merdas. Comecemos a viver como os burros vivem. Eles são mais felizes. Saia de casa sem medo e faça uma merda qualquer para que mais tarde possa contar uma estória de merda aos seus netos, mas que os vai fazer lembrarem-se de ti com carinho. É que não é inteligente ser-se inteligente. Vejamos os japoneses, por exemplo: são considerados o terceiro povo mais inteligente do mundo e estão em primeiro lugar dos workaholics. São felizes? Não, muito pelo contrário: o suicídio no Japão é um grande problema social nacional por causa da cultura; os Japoneses consideram o suicídio uma resposta moral e responsável e imprescindível em alguns casos, eu diria, em demasiado casos. Os burros vivem a vida da mesma maneira que ela flui, naturalmente, como acontece e não questionam coisas que não podem mudar, não são perfeccionistas, não se auto-analisam e são os que vivem felizes para sempre. Os inteligentes vivem em agonia. É tudo o que fazem: sofrem. Li em algum lado que as pessoas mais inteligentes são as que têm maior tendência a vir abusar do álcool, do cigarro e das drogas duras; estudos mostram mesmo uma correlação entre um QI elevado e a psicopatia. Fantástico, não? Um estudo feito pela Universidade de Londres em 2009 revelou também uma relação entre um QI elevado e ficar acordado pela noite adentro e dormir até tarde; eu devo ser muito inteligente então. Por isso, enquanto que os chamados burros, que parecem de certo modo ser mais espertos que os inteligentes, vão para a cama ou saem com os amigos; para os inteligentes as horas noturnas são as mais rentáveis e a altura mais esperada do dia. Assusta-me também o facto de mais de 30 estudos ligaram a elevada inteligência às doenças mentais, e incluídas nelas estão o distúrbio de personalidade bipolar e a esquizofrenia. Só notícias de merda, eu sei. O pintor Vincent Van Gogh, o compositor Robert Schumann, o poeta Emily Dickinson e o escritor Ernest Hemingway, só para mencionar alguns, enquadram-se na perfeição na fotografia de grandes cérebros que lutaram contra episódios de psicopatia documentada e que quebraram face a adições que culminaram na morte pelas próprias mãos. Ser inteligente é uma merda. Não quero mais. Quero ser burra e feliz e ter uma vida normal. Devia ser possível acrescentar à lista dos direitos humanos o nosso direito de ser burro. Ignorância é felicidade; é paz de espírito. Pensar demais deprime: o quão desprezíveis as pessoas na realidade são, o quão terríveis nós próprios podemos ser, o quão imperfeito é o amor, o quão perturbado será sempre o mundo, o quão insubstancial a nossa existência é, o quão impotentes em relação à nossa própria vida estamos, o quão rapidamente estamos a morrer; às vezes penso até consigo ouvir as minhas células a morrer, ou a minha pele a abrir brechas e a quebrar-se em rugas tal e qual como a Terra quando se desidrata; a cada ano os meus ossos encolhem em tamanho e densidade. É doloroso o quão rapidamente todos nós voltamos ao pó. É este estúpido envelhecimento precoce que acontece aos inteligentes. É este estúpido stress crónico que acelera o envelhecimento biológico. A ciência confirma os efeitos negativos do stress no nosso sistema imunológico, assim como na forma como respondemos às inflamações. Dê cá menos cinco, fellow ser inteligente e infeliz, porque aparentemente nada de bom vem do facto de se ser inteligente. Vamos ser burros. Faz bem à alma, à mente e à pele. A minha mãe diz-me muitas vezes que o segredo da vida na realidade está na capacidade de nos conseguirmos “fingir de burra”. Passou-me agora pelo pensamento que provavelmente muita gente me iria odiar por tê-los chamado de burros, mas depois ocorreu-me esta merda: Todos nós, eu incluída, pensamos ser pessoas inteligentes; se somos ou não, essa é uma outra questão. Eu posso ser uma grande burra por pensar que sou inteligente mas a verdade é que ninguém se acha burro. Ontem num café ouvi uma conversa entre 4 burros que não sabem que são. Um deles falava de uma entrevista de emprego à qual ele tinha ido e o entrevistador lhe tinha perguntado então qual ele o burro achava que seria um defeito seu. E o burro que não sabe que é burro respondeu: “Então, mas eu não lhe vou estar aqui a contar os meus defeitos senão não me contrata” e os outros burros concordaram com ele, acharam que ele tinha razão e que o entrevistador seria um grande burro por lhe ter feito uma pergunta daquelas numa entrevista de emprego. I rest my case: Os inteligentes têm um cérebro capaz de perceber que são inteligentes e o cérebro limitado dos burros não os deixa perceber que não são. Assim não terei ofendido quaisquer susceptibilidades e não terei qualquer problema com quem me estiver a ler: não há pessoas burras no mundo; ou se as há são outras quaisquer que não nós mesmas; e este texto é só mais uma texto de merda que fica assim sem efeito.

Merda de ser mulher

Desde quando ser mulher é uma coisa má? Não sei, mas é. Se reparar nos rapazes que jogam à bola na rua, uma coisa que costumava acontecer antes dos smart phones e do jogos online surgirem, vai ouvir frases como “Atiras a bola como uma menina”. Mas que merda é esta? Okay, é verdade que estudos feitos pela Universidade do Texas confirmam que a maioria dos rapazes são melhores a atirar bolas do que as raparigas, mas isso não é razão para dizermos merda o tempo todo sobre as mulheres. E quando ouvimos isso da boca de uma mulher? Merda ainda maior. É que rodamos as ancas e os ombros ao mesmo tempo, o que faz com que a bola não vá tão longe, mas e daí? Somos melhores noutras coisas e não andamos por aí a insultar os homens. Ainda que muitos homens, mais homens que mulheres, não saibam cozinhar não dizemos a uma mulher que cozinha mal que ela “cozinha como um homem.” E qual é o pior insulto para as mulheres? Puta, cabra, fácil. E a pior coisa que pode chamar a um homem? Maricas, puta ou menina. Pense nisto enquanto eu vou lavar a boca com sabão porque ultimamente tenho dito muita merda, desculpa avó. But my point is, sabão à parte, insultamos mulheres e homens da mesma maneira e ser Mulher é o insulto final. Mas será possível que ninguém tenha mães aqui? É provável que se elogie uma mulher que conduza bem dizendo que “ela conduz como um homem”, mas ainda mais provável será o homem que “conduz como uma mulher” sentir-se ofendido por isso. Porque é que ser homem é uma coisa boa e ser mulher uma coisa má? Merda de sociedade. Se um homem tem muitas parceiras sexuais, é um gajo experiente; se a mulher os tem é puta. Até algumas das mulheres pensam isso e cospem esses preconceitos cá para fora. Homens insultam as mulheres e as mulheres insultam as mulheres. Ninguém escolhe o seu género à nascença, mas se pudéssemos optar, eu escolheria ser homem. E isso está errado. A esta altura do campeonato com os números de violência contra as mulheres a aumentar, a loucura do controle da natalidade, e a disparidade salarial entre homens e mulheres que ocupam o mesmo cargo, obviamente ganhando as mulheres muito menos só porque não fazem xixi de pé, eu pergunto-me se precisamos mesmo dessa cereja em cima do bolo que é o de vermos o nosso género a ser usado como insulto? Se é mãe e está em casa com os filhos, então é um ser inútil e está a viver às custas do seu marido, sua cabra. Se é mãe e tem uma carreira, então obviamente não é uma boa mãe, sua cabra. Presa por ter cão e por não ter. E as pessoas estranham porque, em geral, os homens parecem mais confortáveis na sua pele, com o seu peso e sentem menos pressão para serem magros, do que as mulheres. Uma barriga proeminente num corpo masculino é sinal de sucesso, é a tal “barriguinha de sucesso”, enquanto que uma barriga no corpo de uma mulher é apenas gordura, não há cá sucesso nenhum para ela, gorda! Também é por isso que a anorexia nervosa é mais prevalente entre adolescentes do sexo feminino do que do sexo masculino. O mundo está infestado de modelos nas revistas e na TV, fotos nuas de mulheres com corpos perfeitos por todo o lado. Eu estou com excesso de um quilo, e tenho menos peito do que aquela loira do anúncio cujo peito foi aumentado pelo Pedro, o gajo do Photoshop. E por causa disto tudo, algumas mulheres maltratam-se a elas mesmas para ficarem finas e elegantes como as mulheres das publicidades. Mas nem toda a gente pode ser a Barbie, que by the way hoje já tem 60 anos e ainda é bela e fina. E porque? Porque não é real: é uma merda de uma boneca. Ser mulher é difícil e devia ser elogiado; não insultado. A próxima vez que ouvir uma amiga fazer um comentário pejorativo sobre as mulheres, direta ou indiretamente, diga-lhe por favor para ler este texto para eu lhe dar uma palavrinha. É que eu corro como uma mulher, choro como uma mulher, conduzo como uma mulher, trabalho como uma mulher, e luto como uma mulher. E isso deve significar apenas uma coisa: que eu sou uma mulher. 

Merda das modas

Para dizer a verdade, a merda das modas irritam-me. Parecemos todos carneirinhos a pastar em grandes grupos, ou rebanhos. A merda é que as modas nunca saem de moda. Em Novembro as ruas de Lisboa enchem-se de bigodes, alguns bigodes giros, uns surrealistas, uns louros, outros morenos, outros cheios de pedaços de comida, são bigodes por todo o lado e a maioria bigodes de merda. Entendo que seja uma iniciativa para aumentar a awareness para os problemas de saúde dos homens como os problemas com a próstata ou o cancro do testículo ou sobre o suicídio, e isso é de louvar. O problema é que em vez disso acontecer, o resultado é apenas mais bigodes em Lisboa, bigodes em todo o lado, e isso é uma poluição visual, sinto os meus olhos a serem violados uma, duas, constante vezes, porque para todo o lado que eu olhe entra-me um bigode ou dois pelo olho adentro. Não é Inês? Nós mulheres é que sofremos com isto. O problema surge quando a maioria dos homens que deixam crescer o bigode não sabe o que está a apoiar. Então o bigode passa a ser uma merda de bigode. Os famosos pelos entre a boca e o nariz da D. Joaquina de Benfica que o digam. Nasceram e tornaram-se exuberantes na altura da puberdade e agora aos 82 anos, um pouco mais fracos mas ainda compridos, já fazem tanto parte dela quanto o bigode do Salvador Dali fazia parte dele. Os dois bigodes parecem-me no entanto surreais. E lá está, eu sei que a D. Joaquina nem sabe que está ali a ostentar o seu bigode escuro e rarefeito numa campanha de conscientização sobre a próstata do Ben Stiller. By the way, Ben, I’m glad you are over that shit, mas não vou deixar crescer o bigode. Este símbolo de masculinidade dos anos 40 e 50, e também de descuido feminino, entrou em queda nos anos 70, mas parece que o glamour dos atores clássicos de Hollywood está de regresso todo o santo mês de Novembro para contentamento ou arrepio de muitos como eu. O meu primeiro pensamento de hoje foi sobre a utilidade dos bigodes. Sim, acordei a pensar nessa merda. Sei que os gatos usam os bigodes como instrumento sensorial para localizarem a presa. Ajuda a evitar predadores, a ver melhor no escuro, e até melhora a capacidade de ouvir. Agora, será que ser detentor de um potente bigode melhora também a capacidade desse homens de ouvir as mulheres, e daí o sucesso estrondoso que esta pilosidade acima dos lábios tem vindo a fazer entre elas? A mim até agora nunca me convenceu, mas se isto for verdade, embigodem-se homens do mundo por favor. Será o bigode nos homens o instrumento que tanto precisam para perceberem à primeira que quando nós respondemos Nada o que na realidade estamos a dizer é Foste para os copos com os teus amigos pela terceira vez consecutiva em vez de me fazeres companhia em casa quando eu estou grávida de 36 semanas e a merda das águas pode rebentar a qualquer momento? Nunca estive grávida mas se um dia ficar daqui a muitos anos, quero encomendar desde já um bigode para o meu marido. E será também o bigode nos homens o instrumento de localização que os socorra na altura de encontrar o ponto G ou outros pontos de interrogação da mulher? Aí não vão ser só as donas Joaquinas a carregar bigodes, vamos passar a ver também muitas outras de bigode por motivos que a D. Joaquina desconhece. Sim, que pensamento de merda para começar o dia, mas quem sabe se a nossa qualidade de vida não aumenta proporcionalmente aos pelos faciais? Os cuidados a ter com os bigodes até nem são muitos. Um pouco mais de sabonete ou champô na hora do banho e uma vez por semana condicionador (opcional) para tornar os bigodes um pouco mais macios. Antes das refeições é necessário alisar com os dedos os pelos para cima para evitar o contacto com resíduos alimentares, ou pentear a merda do bigode com um pente de dentes à antiga, se necessário. E há que tomar atenção quando beber cerveja por causa da espuma. Cultivar um bigode não é para qualquer um, mas só sabemos se experimentarmos. Muitos já o fizeram e deram-se bem. Na lista dos bigodudos de sucesso estão personalidades como Freddy Mercury, Friedrich Nietzsche, Che Guevara, Clark Gable, Frank Zappa, Albert Einstein, Charles Chaplin, e o meu pai (amo-te muito). A certa altura todos os Beatles também embigodaram, o Brad Pitt aderiu recentemente e a Frida Khalo sempre usou, se bem que no sítio errado. Quanto ao não-bigode do Justin Bieber: raspar ou não raspar, diria também Shakespeare ao alisar o seu. Nos anos 60, o Martin Luther King Júnior e o seu bigode também tiveram um sonho: o sonho de que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos dos merdosos dos proprietários de escravos pudessem ter todos eles a merda do seu próprio bigode imponente e se sentassem à mesma mesa para os alisar em conjunto. Pensemos então nisto com mais cuidado. Se calhar mais valia deixarmos crescer todos nós, homens e mulheres, um bigode de merda.