Merda de teorias da conspiração

Segundo uma teoria popular, a aterragem da Apollo 11 na Lua em 1969 teria sido filmada pelo Stanley Kubrik num deserto dos EUA. Uns quantos dizem que se tal viagem tivesse realmente acontecido, teríamos la voltado. Também acredita nesta merda? Os EUA não vão mais a Lua porque não há necessidade: a Guerra Fria acabou, nada lá pode ser explorado comercialmente e as missões espaciais são caras como a merda. Mas há muitas outras teorias como esta. Uns pensam que o cantor Michael Jackson estará vivo, moon walking pelo Nepal ou pelo Quénia, outros dizem que a sua morte foi encomendada por figuras poderosas dos media mundial. Ora, de acordo com a autópsia, foram encontradas no corpo do Miguel altas quantidades de substâncias como propofol, lorazepam, idazolam, diazepam, efedrina e lidocaína. Aceitemos, foi a merda da droga. Por falar nisso, sabem aquelas linhas brancas de nuvem que aviões deixam no céu? Para alguns conspirólogos, elas podem deixar-nos estéreis ou doentes ao espalharem produtos químicos capazes de nos dopar ou de diminuir a nossa capacidade de gerar espermatozoides e óvulos eficientes e que por sua vez nos impediriam de procriar futuros conspiróloguinhos; uma espécie de castração química, com estudos de merda anexados que suportam esta teoria ao mostrar que a queda do índice de fecundidade tem sido proporcional ao crescimento do tráfego aéreo. What? Esta relação entre a queda da fecundidade e o aumento do tráfego aéreo não existe: são frutos distintos de diferentes avanços como novos métodos anticoncepcionais ou o barateamento da tecnologia de aviação. Não há menos bebés porque há mais aviões. Terá bem mais a ver com o facto de hoje em dia não haver um emprego para a vida ou das relações de hoje em dia serem muito parecidas com uma caixa de Kleenex em que usamos uma pessoa e logo depois a deitamos fora; ou até poderá ter a ver com a homosexualidade, já que há menos probabilidades do João fazer um bebé ao Miguel e da Ana engravidar a Sónia, do que o Rui engravidar a Joana; é óbvio que aquele é um processo mais demorado ou complicado do que o processo de procriação do Paulo e da Rita que copulam tão rapidamente como os animais do canal da Discovery. Este texto, se ainda não era, agora é oficialmente um texto de merda. Para o piorar, só escrevendo que o actor Keanu Reeves é imortal e desde 1994 que o gajo não envelhece. Mas o Keanu não é imortal, ele tem é uma avó chinesa. Assim como há quem acredite que o Paul McCartney terá morrido num acidente de carro em 1967 e desde então que é substituído por um sósia. Umas teorias mais estranhas que outras mas todas teorias de merda. Brace for impact: os rastros de fumaça surgem quando as turbinas dos aviões liberam vapor de água gerado na queima do combustível e em contato com a atmosfera fria, o vapor condensa-se nos cristais de gelo e formam-se riscos brancos. Não são ataques químicos orquestrados pelo governo. Sou assistente de bordo e não sou controladora de voo nem meteorologista ou piloto de avião, mas entre servir o chá, café e a laranjada, acho que posso arriscar dizer que sei o que esses riscos no céu são. Aceitemos então todos a realidade aborrecida tal como ela é, e deixemo-nos de merdas. 

Merda de contos de fada

Crescemos a ouvir estórias de princesas que são salvas pelos príncipes encantados, de princesas que são envenenadas por uma bruxa feia e má e que só voltam à vida se uma merda de um príncipe decidir sair da sua vidinha para ir ter onde a princesa adormecida está deitada numa espécie de coma alcoólico à espera da visita de uma merda de um príncipe so called encantado que para além de não ter sido convidado entra no seu quarto e depois lhe dá um beijo não consensual. Imagine que acontecia isto consigo? E se depois para além de tudo tivesse de casar com essa pessoa? O beijo não consensual é o destino comum de muitas princesas como a Branca de Neve e a Bela Adormecida, e ironicamente é essa violação o final feliz. Sou só eu que vejo isto como perturbador? As duas são supostamente salvas por príncipes que não as conhecem e que eles resolvem beijá-las. São estas merdas de contos de fadas que existem desde sempre no nosso imaginário, e depois quando na vida real não somos encontradas por esse tal príncipe ficamos na merda e depois lá nos faz comichão no pé aquele síndrome da gata borralheira que não pode ir ao baile e que gradualmente nos vai comendo o tornozelo e depois a perna e os joelho até que não sobra nada. Em vez de princesa, sentimo-nos uma eterna gata borralheira com os olhos inchados já vazios de lágrimas, manchados de lápis de olhos e para sempre calçada com só um sapatinho de cristal ou more likely comprado na feira da ladra ou numa loja chinesa ou comprada na Tailândia e mandada vir por correio, e lá estou eu só com um sapatinho de salto alto para que eu viva eternamente coxa, descompensada e desnivelada, ansiosamente à espera da merda do príncipe. Merdas de contos de fada. Mas estes não tiveram sempre um final feliz, e na minha opinião eram então muito mais úteis e relevantes para as crianças ou para as jovens, porque alertavam para os perigos da vida em vez de as encher de ilusões e mensagens desatualizadas. Tanto os contos da Bela Adormecida como a Bela e a Fera por exemplo eram contos que tinham de início um cenário sombrio marcado por mortes, medo, traição e até mesmo violações mas para se contornar essa realidade sombria, com o tempo, novos finais foram acrescentados. Numa das versões iniciais da Bela Adormecida a princesa era manipulada e enganada pelo príncipe que a engravidava e depois abandonava. Em algumas versões da Bela e a Fera, a Fera tentava violar a Bela, noutras ela chegava a casar-se com a Fera que voltava a transformar-se num homem gentil durante os tempos da conquista, óbvio, óbvio, mas depois os dois vivem um péssimo casamento porque o príncipe era na verdade um homem violento e tóxico. Nos dois casos a moral da história era o de alertar as mulheres quanto às falsas promessas que os homens faziam para conquistá-las. Hoje em dia não pensamos nisso porque metade dos casamentos resulta em divórcio, e grande parte das pessoas casa não uma mas duas ou até três vezes, mas ser-se obrigada a passar o resto da vida com uma fera monstruosa era um risco real na Europa dos séculos passados. Assim como Bela, muitas Anas se viam forçadas a casar com maridos arranjados organizados por conveniência. Meninas da nobreza eram cedidas a partir dos 12 anos de idade em troca de alianças políticas entre reinos vizinhos, por exemplo. Hoje chamar-se-ia a isto de pedofilia, prostituição forçada e tráfico de mulheres. Mas na altura para os reis era muito mais prático oferecer ao inimigo uma filha em vez de entrar em guerra com ele. Grandes pais. Se o meu pai me fizesse isto agora eu mesma entrava em guerra com ele. Mas as mulheres mais pobres também não escapavam dos casamentos forçados e eram trocadas como mercadoria porque vinham acompanhadas do dote. Na idade média a transferência do dote correspondia à maior entrada de dinheiro que um homem recebia na sua vida e isso tornava as mulheres reféns dos interesses dos outros. E a missão da esposa era servir e obedecer. Um ditado inglês do século 16 traduzido para português fica qualquer coisa como Um cão, uma nogueira e uma mulher: quanto mais se bate, melhores elas ficam. Bater na mulher não era crime e até ao século 9 os maridos tinham o direito de matar as esposas. Claro que nem todos os maridos eram uma merda mas o casamento na altura era tal e qual igual a uma roleta russa, um jogo de sorte ou azar, e o medo de se casar com feras estava presente na vida de todas nós. Uma das versões mais antigas da Bela Adormecida, no século 17, a princesa espetava o dedo numa farpa de linho e ficava aparentemente morta deitada num caixão. É quando aparece então um príncipe que se encanta com sua beleza e sem hesitar o príncipe resolve violar a princesa que está neste espécie de coma ou morte aparente e voltar para casa em seguida. A princesa continua em coma mas agora grávida de gémeos. Quando os bebés nascem, são eles que ao procurarem o peito da mãe para se alimentarem acabam por mamar no seu dedo sem querer, o que tira a farpa do lugar e faz com que a Bela Adormecida finalmente desperte. A princesa acorda confusa, como seria de esperar se eu adormecesse virgem e acordasse com dois putos parecidos comigo, e para procurar o pai dos miúdos vai até o reino vizinho. Acontece que o príncipe violador já era casado, esta parte pelos vistos nunca passa de moda, e quando a sua mulher descobre que ele teve filhos com outra, resolve matar as pobres das crianças que não pediram para nascer e servi-las para o príncipe comer. Felizmente, o cozinheiro encarregado do infanticídio esconde-os em casa e provavelmente serve um prato de porco, não sei, isto não dizem no conto. Então a rainha traída resolve vingar-se da pobre da princesa e manda montar uma enorme fogueira para a queimar viva. A princesa está quase a ser atirada para a fogueira quando o príncipe que, mesmo tendo interrompido a vingança não deixa de ser uma merda de um príncipe, para além de de estuprador acrescenta homicida ao seu registo criminal: atira a esposa para o fogo e finalmente se casa com a Bela ex-Adormecida. Até à parte do casamento, este conto poderia ser útil para descrever e alertar as jovens sobre os perigos do mundo e contra a maldade de algumas pessoas. Isso sim era uma mensagem digna de ser passada às crianças que são puras e desconhecem a merda do mundo em que vivemos, mas estragou-se tudo quando se transformou a estória num final dito feliz em que o casamento resolve todos os males e em que a nossa felicidade não parece estar em nós mas sim num príncipe qualquer desconhecido, seja ele uma pessoa de merda ou não. On a side note, mas que raio foi essa vontade da Bela de sair para procurar e querer conhecer o seu próprio violador e levar aos filhos a conhecer uma pessoa assim e acabar por casar com ele? Síndrome de Estocolmo? Já há muito tempo que os contos de fada foram alterados para terem um final aparentemente feliz. A pobre da maltratada da Cinderela não pode ir ao baile porque a madrasta a impediu, mas magicamente recebe o vestido e os sapatos e vá lá mostra um bocadinho de iniciativa quando mesmo tendo sido proibida vai até ao palácio, e depois antes que se transforme numa abóbora, coisa que acontece frequentemente a nós mulheres a partir da meia-noite, acaba por fugir perdendo a merda do sapato que depois consegue a pedido do príncipe calçar e finalmente casa com o príncipe e é raptada para um reino distante e vivem felizes para sempre. E digo raptada porque ela não vai de lua-de-mel, vai só com a roupa do corpo em cima do cavalo do príncipe que a escolheu sem lhe ter perguntado se ela também queria esse destino e que a leva para um reino distante, o dele claro, que ela não sabe onde fica e quando chegar não tem nem um telefone para dizer que chegou, nem tem facebook para poder fazer check-in ou instagram para poder fazer uma hashtag da cidade. Soa a rapto. Eu cresci a ouvir estas merdas destes contos e a sonhar com bailes, e príncipes encantados e sapatinhos de cristal, mas agora do alto dos meus 37 anos, que até ontem erradamente pensava que eram 36, eu não sei se quero mais ser a princesa resgatada pelo príncipe encantado. Então a merda do príncipe pensa que pode chegar, a qualquer hora, sem avisar, sem ser convidado, salvar a princesa que na realidade não estava metida em nenhum problema e sentir-se no direito de a levar para longe para eternamente ser aprisionada noutra torre igual mas diferente em que a única coisa que muda vai ser o corpo dela ao dar à luz à nova geração de princesinhas falsas, infelizes e confusas e à nova geração de príncipes arrogantes que por sua vez irão sequestrar, porque não há outra palavra, outras princesas e levá-las para reinos distantes? Eu não quero ser princesa, quero ser dona da minha própria vida e aventurar-me pelos bosques sozinha, morder as maçãs que eu quiser morder porque se não me matar vai me tornar mais forte, e conhecer o mundo, ir de sandálias ou ténis para estar confortável, ir descalça se assim me apetecer, vestir umas jeans que são bem mais práticas do que merdas de vestidos de baile que se sujasse teria de ler demasiadas instruções em como o vestido não se pode lavar a seco mas não se pode lavar na máquina ou se for na máquina tem de ser lavado a menos de 30 graus, não pode ser seco com luz directa do sol nem na máquina a de secar, ou seja se quisermos lavar a merda do vestido vai dar trabalho. Levo jeans está decidido e sempre que me sentir em perigo serei eu própria a salvar-me, em vez de colocar a minha vida ou felicidade ou capacidade de resolução de problemas nas mãos de uma merda de príncipe que provavelmente não saberá o que fazer assim que o cavalo desaparecer da página e depois de se ler a palavra Fim com ponto final no fim dessa merda de livro. Convenientemente não nos contam como vai ser a merda da vida da princesa com esse príncipe. Os contos de fadas hoje em dia transmitem uma ideia de sociedade desatualizada, superficial e passiva em que eu mulher não resolvo problema nenhum. Mas há que ter uma coisa em consideração antes de tirar merdas de conclusões também. É que estas histórias são muito antigas e a sociedade mudou muito de lá para cá e como tal devíamos mudar de contos. Os contos clássicos dos irmãos Grimm que serviram de base para muitos filmes da Disney por exemplo foram escritos entre 1812 e 1857. Desde então, é normal que as mensagens e papéis representados pelas várias personagens não se apliquem mais à sociedade moderna, e principalmente absurda para nós agora era o papel da mulher na sociedade de então: indefesa, guardada por um dragão que seriam os pais ou um vilão talvez a madrasta, à espera de ser salva por um príncipe e com isso ser feliz para sempre, já que o divórcio era uma coisa mal vista e com um forte estigma social. Mas contos de fada com esta visão obtusa e obsoleta da sociedade podem vir a prejudicar as crianças mais tarde. A mim prejudicaram e não tenciono perpetuar este ciclo vicioso com filhos que poderei ou não vir a ter. Um estudo da Universidade de Purdue nos Estados Unidos da América analisou mais de 160 contos dos irmãos Grimm e concluiu que a noção de beleza é abordada em mais de 90 por cento deles, em que a imagem convencional das princesas é a de uma mulher bonita e magra e pela qual os príncipes lutam, e em que as vilãs são descritas como feias. Só isto já é prejudicial o suficiente. E o príncipe encantado, aquele homem perfeito que um dia surge para nos resgatar do tormento e servir a felicidade eterna? No mundo real ninguém é perfeito e a felicidade deve estar dentro de nós e não dependente de um desconhecido qualquer. A ideia de que o nosso parceiro tem de ser perfeito é uma irrealidade que nos vai trazer desilusões. Então mas que merda de mensagem é esta a dos contos de fada? É inútil, ultrapassada e perigosa. Quem é que ao ser raptada por uma merda de um estranho num cavalo e levada para longe seria feliz para todo o sempre? Eu vivia era feliz para sempre sem estes contos de fadas de merda. A vida é minha, não acredito em príncipes encantados, não preciso de nenhum e prefiro ser eu a escrever a minha estória: Era uma vez uma princesa que se salvou sozinha. Fim.

Merda de dúvida

Ando há coisa de 3 meses com uma dúvida de merda. Será que eu seria mais feliz com um par de sapatos ou com um homem? Uma daquelas sondagens de merda concluiu que na realidade há muita mulher que não vê grande benefício em manter uma relação com um homem. Eu tenho sido advogada dos homens a minha vida toda, até porque nunca tive obsessão nenhuma por sapatos e os meus 53 pares de sapatos não me deixam mentir; mas ultimamente tenho andado com esta dúvida. É que os meus sapatos nunca me deixaram ficar mal e os homens já. De acordo com a mesma pesquisa, 60 por cento das mulheres afirmaram que para elas os homens são muito úteis a matar aranhas. Só por isto já dá para ver que esta era uma pesquisa de merda, mas adiante; também eu já matei muitas aranhas com um sapato, sem recorrer a homem nenhum. Em Londres, durante os 3 anos em que lá vivi quando estava baseada no aeroporto de Gatwick, não havia uma única noite em que eu não espreitasse para dentro da cama antes de fechar a luz para ver se ia passar ou não a noite com uma aranha. Pode parecer paranoia mas não era. Só no outono passado calculou-se que cerca de 150 milhões de aranhas invadiram as casas do Reino Unido. E não eram daquelas queridinhas quase transparentes, eram daquelas que quando eu fechava os olhos para dormir conseguia ouvi-la a andar no quarto. Ora ter-me-ia dado jeito ter lá um homem para me proteger, mas tinha os meus sapatos que me foram ainda mais úteis nessa época de acasalamento das aranhas gigantes domésticas. Elas a acasalar e eu a dormir agarrada a um sapato. Metade das mulheres que responderam merda nesta pesquisa, apontaram as altas habilidades dos homens para fazer churrasco e 70 por cento disse que os homens são vantajosos quando se trata de mudar um pneu. Entendo: se alguém sabe como grelhar são os homens e um sapato sozinho ou até mesmo um par de sapatos, não conseguiria grelhar o meu bife mal passado ou consertar o meu computador ou pendurar um quadro pesado direitinho na parede ou ir tão longe como conseguir trocar a merda de um pneu de um carro. Ou um pneu de uma merda de carro, em alguns casos. Os homens ganham pontos aqui, mas por exemplo quanto às bebidas alcoólicas, um sapato não fica bêbado nem coloca a culpa toda nas bebidas extra para justificar estupidamente aquele caso ocasional com aquela rapariga do grande-par-de-mamas cujo nome ele não se lembra porque não significou nada, diz ele. A verdade é que eu nunca vi um sapato bêbado. Às vezes, tentar explicar algo a um homem, bêbado ou não, pode ser tão frustrante como falar com um par de sapatos; mas um sapato nunca vai insultar uma mulher nem agredi-la fisicamente, nem ignorá-la. O sapato é o novo cavalheiro. Ele protege os meus pés contra as pedras da calçada e contra a sujeira mesmo que ele ande na lama, e sabe quando me aquecer os pés. Já alguns homens gostam de empurrar as mulheres para baixo, para parecerem mais altos. Claro que os homens não são todos assim: o meu pai não é assim, os meus irmãos não são assim, o meu namorado não é assim, os meus amigos não são sempre assim, e tu que me estás a ler não és assim com certeza; mas há muitos homens assim; já os sapatos fazem invariavelmente a mulher parecer mais alta. É verdade que o sapato não vai ajudar em algumas coisas que os homens poderiam, como com mapas ou a matemática. Um homem pode facilmente adicionar e subtrair, dividir e multiplicar; e um sapato não. Mas isso não é suficiente, homens. Step up. É que a concorrência é forte: todos os dias os sapatos estão a ficar melhores e mais fortes. Hoje em dia os sapatos não querem apenas ter uma boa aparência. Eles querem ser reforçados, imbatíveis, insubstituíveis. Há o sapato tonificante para melhorar a força muscular e tónus, o equilíbrio, melhorar a postura, queimar mais calorias, aliviar o stress nas articulações e até mesmo eliminar as dores nas costas, no pé ou na perna. Também há os ténis de desporto ou de corrida que não só fornecem substancial amortecimento na sola como também oferecem suporte para o arco, ajudam na prevenção de lesões e podem promover a melhoria do desempenho atlético. Escolher os sapatos certos é muito importante para o corpo e para a saúde em geral. Não deve ser apenas um sapato bonito. É necessário muito mais do que só a beleza para terem a potencialidade de vir a ser o nosso par perfeito: sejam eles homens ou sapatos. Todos os anos, a população feminina perde 44 milhões de dias de trabalho devido à dor causada pelos sapatos errados. E quanto tempo é perdido por causa de homens errados? Não sei, mas uma merda de uma pesquisa sobre isso é que eu gostava de ver. A relação das mulheres com os sapatos tem tudo para ser longa e não corremos sequer o risco seremos traídas ou deixadas. Um bom par pode durar longos anos e pode até acompanhar-me ao meu último endereço na terra, se forem os meus preferidos. Homens: os sapatos são realmente os vossos rivais mais fortes. A cada dia que passa precisamos menos dos homens. Eu li no outro dia num jornal de merda que especialistas em fertilidade do Instituto de Medicina Reprodutiva e Genética em Los Angeles encontraram já uma maneira das mulheres terem bebés sem a parte genética do homem. Pode ser um rumor de merda, vindo de onde vem não me surpreenderia, mas se for verdade, isso significa que todas as crianças nascidas a partir deste processo seriam meninas e geneticamente idênticas à sua mãe. Assustador ou não, e levado ao extremo, isso poderia levar a uma sociedade dominada pelas mulheres, onde os homens têm pouca ou nenhuma importância. O homem até poderá vir a ser extinto e a humanidade vir a consistir apenas de mulheres e meninas e avós e sapatos. A Cinderela é a prova relativamente viva de como um par de sapatos pode mudar a vida de uma mulher. O príncipe foi só um meio para ela poder comprar mais sapatos e mais caros. Mas mesmo o par perfeito pode doer muito às vezes, independentemente se é de um homem ou de um sapato que estamos a falar. Outro estudo de merda mostra que mais de 80 por cento das pessoas que trabalham 50 horas por semana são homens. Mas nem temos como saber ao certo se eles estão realmente lá a trabalhar. Temos de confiar, e depois apanhar DSTs. Mas sabemos exatamente o que o nosso sapato está a fazer e com quem está: ou está connosco ou está no armário. No meu caso também pode estar na bagageira do carro. Mas lá está, sabemos. E um sapato nunca nos vai deixar adormecer sozinhas. Um sapato nunca nos vai enganar. Nunca vai usar a desculpa do ginásio como álibi para o seu caso sórdido, ou sair para uma noite nos copos com os amigos que afinal era uma noite com outra mulher. O sapato nunca aquecerá outro par de pés, se nós não os emprestarmos. Não pretendo que este texto seja uma lista exaustiva de prós e contras sobre homens e sapatos, até porque já estou também um pouco farta desta merda de conversa. De qualquer modo, penso que cada cada mulher é uma mulher, cada homem é um estudo de caso e cada sapato está na sua própria caixa de sapatos. Cabe à mulher em questão decidir o que se encaixa melhor na sua vida. É, acho que já não tenho mais merda nenhuma de dúvida. E não estou a dizer que seja certo ou justo ou correto ou normal mas acho que funciona melhor para mim estar numa relação com um par de sapatos. Então vou assumir. São perfeitos para mim. Além disso, eu tenho certeza de que os meus sapatos nunca me iriam deixar por outro par de pés mais novo, mesmo se fossem de um par maior do que o meu.

Merda de ser inteligente

Pensa que é inteligente? Então tenho más notícias para si: os inteligentes envelhecem mais depressa, vivem mais angustiados, sofrem de mais doenças, e morrem muito mais cedo ou acabam por matar alguém. Grande merda, não é? Os inteligentes passam também mais tempo a olhar para computadores ou para iPads e a ver e a rever material digital do que os burros, essas pessoas abençoadas. Diga-me: quando morrer espera que alguém se lembre de si, com lágrimas nos olhos enquanto assoam o nariz pingado, só porque conseguiu manter a merda caixa de emails organizada, o último antivírus atualizado, ou porque foi campeão desse jogo de tabuleiro online que ninguém conhece a não ser os seus amigos de quatro-olhos; ou será que está à espera de ser recordado porque dominou a língua Jedi, ou porque arrasou naquele site de internet que andou a criar durante meses? Irá alguém elogiá-lo por ter sido um adicto no trabalho? Não me parece, por isso deixemo-nos de merdas. Comecemos a viver como os burros vivem. Eles são mais felizes. Saia de casa sem medo e faça uma merda qualquer para que mais tarde possa contar uma estória de merda aos seus netos, mas que os vai fazer lembrarem-se de ti com carinho. É que não é inteligente ser-se inteligente. Vejamos os japoneses, por exemplo: são considerados o terceiro povo mais inteligente do mundo e estão em primeiro lugar dos workaholics. São felizes? Não, muito pelo contrário: o suicídio no Japão é um grande problema social nacional por causa da cultura; os Japoneses consideram o suicídio uma resposta moral e responsável e imprescindível em alguns casos, eu diria, em demasiado casos. Os burros vivem a vida da mesma maneira que ela flui, naturalmente, como acontece e não questionam coisas que não podem mudar, não são perfeccionistas, não se auto-analisam e são os que vivem felizes para sempre. Os inteligentes vivem em agonia. É tudo o que fazem: sofrem. Li em algum lado que as pessoas mais inteligentes são as que têm maior tendência a vir abusar do álcool, do cigarro e das drogas duras; estudos mostram mesmo uma correlação entre um QI elevado e a psicopatia. Fantástico, não? Um estudo feito pela Universidade de Londres em 2009 revelou também uma relação entre um QI elevado e ficar acordado pela noite adentro e dormir até tarde; eu devo ser muito inteligente então. Por isso, enquanto que os chamados burros, que parecem de certo modo ser mais espertos que os inteligentes, vão para a cama ou saem com os amigos; para os inteligentes as horas noturnas são as mais rentáveis e a altura mais esperada do dia. Assusta-me também o facto de mais de 30 estudos ligaram a elevada inteligência às doenças mentais, e incluídas nelas estão o distúrbio de personalidade bipolar e a esquizofrenia. Só notícias de merda, eu sei. O pintor Vincent Van Gogh, o compositor Robert Schumann, o poeta Emily Dickinson e o escritor Ernest Hemingway, só para mencionar alguns, enquadram-se na perfeição na fotografia de grandes cérebros que lutaram contra episódios de psicopatia documentada e que quebraram face a adições que culminaram na morte pelas próprias mãos. Ser inteligente é uma merda. Não quero mais. Quero ser burra e feliz e ter uma vida normal. Devia ser possível acrescentar à lista dos direitos humanos o nosso direito de ser burro. Ignorância é felicidade; é paz de espírito. Pensar demais deprime: o quão desprezíveis as pessoas na realidade são, o quão terríveis nós próprios podemos ser, o quão imperfeito é o amor, o quão perturbado será sempre o mundo, o quão insubstancial a nossa existência é, o quão impotentes em relação à nossa própria vida estamos, o quão rapidamente estamos a morrer; às vezes penso até consigo ouvir as minhas células a morrer, ou a minha pele a abrir brechas e a quebrar-se em rugas tal e qual como a Terra quando se desidrata; a cada ano os meus ossos encolhem em tamanho e densidade. É doloroso o quão rapidamente todos nós voltamos ao pó. É este estúpido envelhecimento precoce que acontece aos inteligentes. É este estúpido stress crónico que acelera o envelhecimento biológico. A ciência confirma os efeitos negativos do stress no nosso sistema imunológico, assim como na forma como respondemos às inflamações. Dê cá menos cinco, fellow ser inteligente e infeliz, porque aparentemente nada de bom vem do facto de se ser inteligente. Vamos ser burros. Faz bem à alma, à mente e à pele. A minha mãe diz-me muitas vezes que o segredo da vida na realidade está na capacidade de nos conseguirmos “fingir de burra”. Passou-me agora pelo pensamento que provavelmente muita gente me iria odiar por tê-los chamado de burros, mas depois ocorreu-me esta merda: Todos nós, eu incluída, pensamos ser pessoas inteligentes; se somos ou não, essa é uma outra questão. Eu posso ser uma grande burra por pensar que sou inteligente mas a verdade é que ninguém se acha burro. Ontem num café ouvi uma conversa entre 4 burros que não sabem que são. Um deles falava de uma entrevista de emprego à qual ele tinha ido e o entrevistador lhe tinha perguntado então qual ele o burro achava que seria um defeito seu. E o burro que não sabe que é burro respondeu: “Então, mas eu não lhe vou estar aqui a contar os meus defeitos senão não me contrata” e os outros burros concordaram com ele, acharam que ele tinha razão e que o entrevistador seria um grande burro por lhe ter feito uma pergunta daquelas numa entrevista de emprego. I rest my case: Os inteligentes têm um cérebro capaz de perceber que são inteligentes e o cérebro limitado dos burros não os deixa perceber que não são. Assim não terei ofendido quaisquer susceptibilidades e não terei qualquer problema com quem me estiver a ler: não há pessoas burras no mundo; ou se as há são outras quaisquer que não nós mesmas; e este texto é só mais uma texto de merda que fica assim sem efeito.

Merda de ser mulher

Desde quando ser mulher é uma coisa má? Não sei, mas é. Se reparar nos rapazes que jogam à bola na rua, uma coisa que costumava acontecer antes dos smart phones e do jogos online surgirem, vai ouvir frases como “Atiras a bola como uma menina”. Mas que merda é esta? Okay, é verdade que estudos feitos pela Universidade do Texas confirmam que a maioria dos rapazes são melhores a atirar bolas do que as raparigas, mas isso não é razão para dizermos merda o tempo todo sobre as mulheres. E quando ouvimos isso da boca de uma mulher? Merda ainda maior. É que rodamos as ancas e os ombros ao mesmo tempo, o que faz com que a bola não vá tão longe, mas e daí? Somos melhores noutras coisas e não andamos por aí a insultar os homens. Ainda que muitos homens, mais homens que mulheres, não saibam cozinhar não dizemos a uma mulher que cozinha mal que ela “cozinha como um homem.” E qual é o pior insulto para as mulheres? Puta, cabra, fácil. E a pior coisa que pode chamar a um homem? Maricas, puta ou menina. Pense nisto enquanto eu vou lavar a boca com sabão porque ultimamente tenho dito muita merda, desculpa avó. But my point is, sabão à parte, insultamos mulheres e homens da mesma maneira e ser Mulher é o insulto final. Mas será possível que ninguém tenha mães aqui? É provável que se elogie uma mulher que conduza bem dizendo que “ela conduz como um homem”, mas ainda mais provável será o homem que “conduz como uma mulher” sentir-se ofendido por isso. Porque é que ser homem é uma coisa boa e ser mulher uma coisa má? Merda de sociedade. Se um homem tem muitas parceiras sexuais, é um gajo experiente; se a mulher os tem é puta. Até algumas das mulheres pensam isso e cospem esses preconceitos cá para fora. Homens insultam as mulheres e as mulheres insultam as mulheres. Ninguém escolhe o seu género à nascença, mas se pudéssemos optar, eu escolheria ser homem. E isso está errado. A esta altura do campeonato com os números de violência contra as mulheres a aumentar, a loucura do controle da natalidade, e a disparidade salarial entre homens e mulheres que ocupam o mesmo cargo, obviamente ganhando as mulheres muito menos só porque não fazem xixi de pé, eu pergunto-me se precisamos mesmo dessa cereja em cima do bolo que é o de vermos o nosso género a ser usado como insulto? Se é mãe e está em casa com os filhos, então é um ser inútil e está a viver às custas do seu marido, sua cabra. Se é mãe e tem uma carreira, então obviamente não é uma boa mãe, sua cabra. Presa por ter cão e por não ter. E as pessoas estranham porque, em geral, os homens parecem mais confortáveis na sua pele, com o seu peso e sentem menos pressão para serem magros, do que as mulheres. Uma barriga proeminente num corpo masculino é sinal de sucesso, é a tal “barriguinha de sucesso”, enquanto que uma barriga no corpo de uma mulher é apenas gordura, não há cá sucesso nenhum para ela, gorda! Também é por isso que a anorexia nervosa é mais prevalente entre adolescentes do sexo feminino do que do sexo masculino. O mundo está infestado de modelos nas revistas e na TV, fotos nuas de mulheres com corpos perfeitos por todo o lado. Eu estou com excesso de um quilo, e tenho menos peito do que aquela loira do anúncio cujo peito foi aumentado pelo Pedro, o gajo do Photoshop. E por causa disto tudo, algumas mulheres maltratam-se a elas mesmas para ficarem finas e elegantes como as mulheres das publicidades. Mas nem toda a gente pode ser a Barbie, que by the way hoje já tem 60 anos e ainda é bela e fina. E porque? Porque não é real: é uma merda de uma boneca. Ser mulher é difícil e devia ser elogiado; não insultado. A próxima vez que ouvir uma amiga fazer um comentário pejorativo sobre as mulheres, direta ou indiretamente, diga-lhe por favor para ler este texto para eu lhe dar uma palavrinha. É que eu corro como uma mulher, choro como uma mulher, conduzo como uma mulher, trabalho como uma mulher, e luto como uma mulher. E isso deve significar apenas uma coisa: que eu sou uma mulher. 

Merda das modas

Para dizer a verdade, a merda das modas irritam-me. Parecemos todos carneirinhos a pastar em grandes grupos, ou rebanhos. A merda é que as modas nunca saem de moda. Em Novembro as ruas de Lisboa enchem-se de bigodes, alguns bigodes giros, uns surrealistas, uns louros, outros morenos, outros cheios de pedaços de comida, são bigodes por todo o lado e a maioria bigodes de merda. Entendo que seja uma iniciativa para aumentar a awareness para os problemas de saúde dos homens como os problemas com a próstata ou o cancro do testículo ou sobre o suicídio, e isso é de louvar. O problema é que em vez disso acontecer, o resultado é apenas mais bigodes em Lisboa, bigodes em todo o lado, e isso é uma poluição visual, sinto os meus olhos a serem violados uma, duas, constante vezes, porque para todo o lado que eu olhe entra-me um bigode ou dois pelo olho adentro. Não é Inês? Nós mulheres é que sofremos com isto. O problema surge quando a maioria dos homens que deixam crescer o bigode não sabe o que está a apoiar. Então o bigode passa a ser uma merda de bigode. Os famosos pelos entre a boca e o nariz da D. Joaquina de Benfica que o digam. Nasceram e tornaram-se exuberantes na altura da puberdade e agora aos 82 anos, um pouco mais fracos mas ainda compridos, já fazem tanto parte dela quanto o bigode do Salvador Dali fazia parte dele. Os dois bigodes parecem-me no entanto surreais. E lá está, eu sei que a D. Joaquina nem sabe que está ali a ostentar o seu bigode escuro e rarefeito numa campanha de conscientização sobre a próstata do Ben Stiller. By the way, Ben, I’m glad you are over that shit, mas não vou deixar crescer o bigode. Este símbolo de masculinidade dos anos 40 e 50, e também de descuido feminino, entrou em queda nos anos 70, mas parece que o glamour dos atores clássicos de Hollywood está de regresso todo o santo mês de Novembro para contentamento ou arrepio de muitos como eu. O meu primeiro pensamento de hoje foi sobre a utilidade dos bigodes. Sim, acordei a pensar nessa merda. Sei que os gatos usam os bigodes como instrumento sensorial para localizarem a presa. Ajuda a evitar predadores, a ver melhor no escuro, e até melhora a capacidade de ouvir. Agora, será que ser detentor de um potente bigode melhora também a capacidade desse homens de ouvir as mulheres, e daí o sucesso estrondoso que esta pilosidade acima dos lábios tem vindo a fazer entre elas? A mim até agora nunca me convenceu, mas se isto for verdade, embigodem-se homens do mundo por favor. Será o bigode nos homens o instrumento que tanto precisam para perceberem à primeira que quando nós respondemos Nada o que na realidade estamos a dizer é Foste para os copos com os teus amigos pela terceira vez consecutiva em vez de me fazeres companhia em casa quando eu estou grávida de 36 semanas e a merda das águas pode rebentar a qualquer momento? Nunca estive grávida mas se um dia ficar daqui a muitos anos, quero encomendar desde já um bigode para o meu marido. E será também o bigode nos homens o instrumento de localização que os socorra na altura de encontrar o ponto G ou outros pontos de interrogação da mulher? Aí não vão ser só as donas Joaquinas a carregar bigodes, vamos passar a ver também muitas outras de bigode por motivos que a D. Joaquina desconhece. Sim, que pensamento de merda para começar o dia, mas quem sabe se a nossa qualidade de vida não aumenta proporcionalmente aos pelos faciais? Os cuidados a ter com os bigodes até nem são muitos. Um pouco mais de sabonete ou champô na hora do banho e uma vez por semana condicionador (opcional) para tornar os bigodes um pouco mais macios. Antes das refeições é necessário alisar com os dedos os pelos para cima para evitar o contacto com resíduos alimentares, ou pentear a merda do bigode com um pente de dentes à antiga, se necessário. E há que tomar atenção quando beber cerveja por causa da espuma. Cultivar um bigode não é para qualquer um, mas só sabemos se experimentarmos. Muitos já o fizeram e deram-se bem. Na lista dos bigodudos de sucesso estão personalidades como Freddy Mercury, Friedrich Nietzsche, Che Guevara, Clark Gable, Frank Zappa, Albert Einstein, Charles Chaplin, e o meu pai (amo-te muito). A certa altura todos os Beatles também embigodaram, o Brad Pitt aderiu recentemente e a Frida Khalo sempre usou, se bem que no sítio errado. Quanto ao não-bigode do Justin Bieber: raspar ou não raspar, diria também Shakespeare ao alisar o seu. Nos anos 60, o Martin Luther King Júnior e o seu bigode também tiveram um sonho: o sonho de que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos dos merdosos dos proprietários de escravos pudessem ter todos eles a merda do seu próprio bigode imponente e se sentassem à mesma mesa para os alisar em conjunto. Pensemos então nisto com mais cuidado. Se calhar mais valia deixarmos crescer todos nós, homens e mulheres, um bigode de merda.

Merda de superstições

O facto de eu não acreditar nestas merdas das superstições tem estado a dar-me azar. Só pode ser isso. Tenho andado a dar tiros atrás de tiros nos pés já desfeitos porque sou sempre eu a sentar-me nas esquinas das mesas quando vou jantar com um grupo de amigos, ou a única a brindar com água, ou a única a abrir guarda-chuvas nas lojas para ver se não estão rotos antes de os comprar e quando não os abro por me assaltar à consciência a possibilidade dessa merda das superstições existir realmente, compro-o sem abrir e quando chego a casa faço a mesma merda e abro o guarda-chuva só que desta vez dentro da minha casa, and guess what está mesmo roto. E depois dizem que foi azar. Penso que não há outra coisa a fazer senão aceitar a inevitabilidade do meu azar. Se calhar a culpa é da minha avó: varreu-me várias vezes os pés quando eu era pequena e vá lá não ter saltado por cima de mim senão eu so they say não teria crescido, e não contente com isso só para ter a certeza de que o azar não me abandonaria, trouxe para casa um gatinho preto que estava praticamente a morrer desidratado debaixo daquele carro, e com quem eu obviamente me cruzei então outras milhares de vezes dentro de minha casa já que o gato era meu. A verdade é que a minha avó parecia estar ciente do que fazia as vezes sem conta em que me varreu os pés; terminava sempre por se rir e dizer, que já ninguém vai casar contigo, meu amor. Dizia-me que eu não perdia nada em não casar porque dos homens nem bons ventos nem bons casamentos. Soube mais tarde que ela substituiu a palavra espanhóis por homens, mas a minha avó sempre gostou de generalizar. “Os homens não prestam” ainda hoje me diz, e diz-me agora várias vezes ao dia porque já tem 90 anos. Mas não, a culpa deve ser obrigatoriamente minha. Acho que o nunca ter sido supersticiosa me tem dado azar: há uns anos quebrei um espelho e tudo o que fiz foi limpar os cacos de vidro e nem me passou pelo pensamento que poderia vir a ter 7 anos de azar. Ou serão 7 anos sem sexo? Seja como for, uma coisa vai dar à outra, e se tentarmos ver o copo cheio, um azar realmente não é um espelho partido, é um preservativo furado: não são 7 anos, é para a vida toda. A minha amiga Rita quase todos os meses me fala desse tal trevo de quatro folhas que eu devia arranjar ou da tal pata de coelho que insiste que dá sorte; bem, menos para o pobre do coelho, não foi a Rita de certeza que ficou sem a pata. Estas crendices não têm pés nem cabeça, mas a superstição é mesmo isso uma crença em situações com relações de causa e efeito que não se podem mostrar de forma racional ou empírica, coisas irracionais não fundamentadas, tradições populares e outras relacionadas com religião ou mágica. Mas como é que eu posso aceitar que conjuros, curas e outros rituais possam influenciar de maneira tão transcendental a minha vida? Gosto de acreditar que a nossa sorte somos nós que a fazemos. Eu é que não tenho jeito para a coisa. E desculpa-me por fazer o erro de colocar tudo no mesmo saco, mas se eu for acreditar na cartomancia, na quiromancia, na homeopatia, na tia Joaquina, no tarot e em feng shui não vou fazer mais nada na vida do que seguir instruções e até para fazer coisas simples como decorar a casa vai ser difícil. Não será porque os orientais usam símbolos para figurar bons presságios capazes de atrair sorte ou azar e isso funciona para eles, que também eu terei de passar uma semana ao computador a fazer um google de feng shui porque não tenho dinheiro para ir fazer um workshop, para poder decidir onde devo posicionar o sofá na sala. Já me é difícil conjugar cores porque sou daltónica. Ou teria eu, quando voltei da Índia, de me ter certificado que os elefantes de marfim que trouxe de Goa e que gostava de ter expostos na sala deveriam antes ter sido colocados no corredor da entrada com o rabo virado para a porta de entrada? Aliás para ser exata em vez de 2 elefantes devia ter trazido 3: o primeiro tem de ter a tromba virada para a entrada da porta principal, o segundo elefante o rabo virado e o terceiro deveria ser colocado num sitio onde nós não o possamos ver nem quando andamos a limpar o pó. Essas merdas dão trabalho e porque dão trabalho dá-me mais jeito colocar tudo no mesmo saco e recusar. Recuso-me a ceder a essas merdas das superstições, não sou supersticiosa e para mim um gato preto é um gato preto. Como é que posso acreditar que aquele gatinho preto querido que se debatia entre a vida e a morte é antes um espírito malévolo capaz de causar mal estar e até mesmo a morte? E que ao mesmo tempo que isso acontece, curiosamente ao fervermos a carne do tal gato estaremos também a curar a tuberculose pulmonar da tia Joaquina, a tia que rimou com homeopatia, e que mora algures na América do Sul? Eu nunca fui e nunca serei supersticiosa: para mim um gato preto é um gato dessa cor e mais nada. E essas vassouras a varrerem-me incessantemente os pés, os mais de 6 mil e setecentos brindes com água e os 7 espelhos partidos, todas as vezes que passei orgulhosamente por debaixo de escadotes e todas as vezes que me cruzei com o meu gatinho, tenho a certeza de que nada disso na verdade tem a ver com o facto de eu ter quase 40 anos e ser divorciada desde os 28, ou de estar a dormir no sofá de uma amiga porque chovia mais dentro de minha casa do que na rua, ou o meu carro está parado na oficina há coisa de duas semanas com problemas no motor e ter saído de lá com peças de outros carros e com outros problemas ou de minutos antes de eu ter deixado o carro no mecânico ter sem querer atropelado o meu gato que acabou por morrer, ou ter sempre mil obstáculos para conseguir as coisas tal e qual como jogos de computadores, sem que eu tenha aqui mais que uma vida, e não tem nada a ver também com o facto de ter perdido ainda hoje a minha mala com a carteira, os documentos e o meu telemóvel lá dentro e como dizem que um azar nunca vem só e chega em séries de sete, só me faltava agora ter o azar de ser despedida e perder o emprego. Não, não sou supersticiosa e não acredito nessas merdas das superstições; mas pelo sim pelo não, deixa-me cá bater 3 vezes na madeira e que o diabo seja cego, surdo e mudo. Ah, e só mais uma coisa antes de saltarmos para outro assunto de merda: cancelado, cancelado, cancelado.