Autor: Sofia Vila Nova

Cabin crew, copywriter, translator for the media, blogger, wanna-be screenwriter, wanna-be singer, wanna-be psychologist, very nice person but clearly suffering from alternating attention.

Merda de preconceito

A história da violência contra pessoas LGBT no mundo é composta de insultos, preconceitos e agressões a gays, lésbicas, bissexuais e transgéneros, prisões e assassinatos de inocentes, danos aos seus direitos humanos e ódio, entre muitos outros erros. Acredita-se que aqueles que são alvos dessa violência violem regras heteronormativas e protocolos de percepção de papéis de género e papéis sexuais. “Os ataques contra pessoas LGBT giram em torno da idéia de que existe uma maneira normal de viver, que engloba todas as expressões, desejos, comportamentos e papéis associados ao género ao qual cada pessoa foi designada no nascimento”. Esta é apenas a definição, mas podes ver o que tudo isso significa? Que temos de desempenhar o nosso papel e seguir regras atribuídas a nós no nascimento, ou então, estamos fadados a ter uma vida miserável, com ainda mais obstáculos, marcada por preconceito e se nos aceitarmos como somos, corremos o risco de morrer pelas mãos de alguém que acha que devemos ser de uma maneira diferente da nossa. Primeiro: eu não pedi para nascer, e depois com o meu nascimento, a minha mãe também deu à luz um manual inteiro de 300 páginas que eu deveria seguir sem perguntas sobre como eu deveria agir, sentir, pensar e ser? Como é que essa merda é justa? Não deveríamos ser quem nascemos para ser? A violência direcionada às pessoas devido à sua sexualidade percepcionada, pode ser psicológica e física, chegando aos assassinatos. Atos violentos, incluindo abuso doméstico e sexual, contra a comunidade LGBT, e bem, com relação a todas as pessoas, é claro, mas agora estou a falar dessa comunidade, podem levar à depressão, comportamentos suicidas e trauma. Eu não sou lésbica ou trans. Eu sou heterosexual, mas ainda assim digo que estou lutando pela minha causa. Porque eu quero um mundo melhor para mim e para os meus filhos, se eles vierem algum dia. No final, quero um mundo melhor, onde não haja espaço para qualquer tipo de discriminação, para todos nós: um mundo justo, gentil e feliz. Não um mundo de merda, feito de gente de merda, com regras e idéias de merda. Quem quer isso? Porque alguém pode ser envergonhado, perseguido, maltratado, posto de lado, amado menos ou nem um pouco, ignorado, apenas porque essa pessoa ama alguém do mesmo sexo? Também ama e isso é tudo o que devia importar. Todos devemos poder amar alguém, em liberdade e em felicidade. Quem são eles para dizer o que é ou o que não é normal, apenas porque é diferente? Não há diferença entre mim e os meus queridos amigos gays. Existem sim diferenças entre mim e quem os julga e ainda mais diferenças entre mim e aqueles que julgam o suficiente para criar sofrimento em outra pessoa. “A liberdade de uma pessoa termina onde a liberdade de outra pessoa começa.” Porque não começamos a por isto em prática? Não acredito que ninguém tenha ouvido isto antes. Ninguém se deve sentir autorizado a roubar a felicidade de alguém ou o simples direito dessa pessoa de ser. Alguém que rouba ou inflige dano esconde as suas ações porque é criminoso e errado, mas porque é que alguém deveria se esconder se tudo o que está a fazer é estar a ser ele mesmo e amar outra pessoa? Como tu te sentirias, e agora estou a falar apenas com as pessoas heterossexuais como eu, se o teu direito de seres tu mesmo fosse subitamente roubado de ti? Se tu não pudesses apresentar o teu amor à tua família, temendo que ela vos repudiasse, se decepcionasse e até sentisse nojo de ti pelo simples fato de amares alguém do sexo oposto? Como as pessoas heterossexuais pensariam e se sentiriam se a história e o mundo tivessem acontecido ao contrário? Se a homossexualidade fosse a chamada normal, ou a norma, e a heterossexualidade fosse a minoria, a maneira errada de ser, e até, quem sabe, um crime? Se ser heterosexual fosse agora uma razão para tu seres espancado e assassinado por alguém que tu nunca conheceste antes? Como tu te sentirias se não pudesses te casar com o teu amor? Se tu perdesses amigos (que na minha opinião nunca foram verdadeiros amigos ou não te teriam deixado por isto) e a família te abandonasse apenas e só por preconceito? Como tu te sentirias se seres heterossexual de repente fosse o teu segredo obscuro e pervertido? O que te faz sentir que podes não ser normal. Ou que algo estará errado contigo. Ou que estás doente, e precisas de ser corrigido ou curado? Se isso te faria sentir isolado, deprimido e até propenso a pensamentos suicidas? Não porque tu fizeste algo errado, mas apenas porque é assim que tu és. Tu sabes que és heterosexual, sentes que não podes contar a ninguém, e o mundo de repente fica muito mais difícil para ti, só por causa disso? Como tu te sentirias? Pensa melhor da próxima vez se fores dos que sentem algum tipo de preconceito em relação às pessoas não heterossexuais e antes de dizeres algo errado sobre isso, da próxima vez. Não podemos mudar o passado, mas podemos corrigi-lo no presente. Eles também são pessoas. Eles também têm sentimentos. Eles também se magoam. Somos todos iguais, somos seres humanos, e todos devemos igualmente ser autorizados a nos expressarmos completamente, a amar-nos a nós mesmos e a quem amamos. Sê gay, se fores. Sê heterossexual, se fores. Sê um unicórnio, se quiseres. Mas vamos ser gentis.

Prejudice shit

The history of violence against LGBT people in the World is made up of insults, prejudices and assaults on gay men, lesbians, bisexual, and transgender individuals, arrests and murders of innocents, harm on their human rights, and hate crime, among so many other wrongs. Those targeted by such violence are believed to violate heteronormative rules and contravene perceived protocols of gender and sexual roles. “Attacks against LGBT people revolve around the idea that there is a normal way for people to live, which encompasses all expressions, desires, behaviours, and roles associated with the gender each person was assigned to at birth.” This is just the definition, but can you see what all this mean? That we need to perform our birth-given role and rules or else, we are fated to have a miserable life, with even more obstacles and we risk to die by the hands of someone who thinks we should be in a different way that we are. First: I did not ask to be born, and then I am born and with it comes a whole manual that I should follow no questions asked of how I should act, feel, think and be? How is this shit fair? Shouldn’t we be able to be who we were born to be? Violence targeted at people because of their perceived sexuality can be psychological and physical up to and including murder. Violent acts, including domestic and sexual abuse, towards the LGBT community, and well, towards every single person of course but now I am targeting this community, may lead to depression, PTSD, suicidal behaviours, and trauma. I am not a lesbian or a transgender, even if some could think I am and that’s not a problem for me. I am straight, but I still say I am fighting for my cause. Because I want a better world for myself and my children, if they’ll come along some day. In the end, I want a better world where there’s not space for any sort of discrimination, for all of us: a fair, kind, and happy world.  Not a shitty world, made of shitty people, with shitty rules and shitty ideas. Who wants that? Why would you be shamed, persecuted, mistreated, put aside, loved less or not at all, ignored, just because you love someone of your same sex? You love as well. We all should be able to love someone, in freedom and in happiness. Who are them to say what is or isn’t normal, just because it is different? There’s no difference between me and my dear gay friends. There are yes differences between me and anyone who is judgemental and even more differences between me and those who are judgemental enough to create suffering in someone else. “A person’s freedom ends where another person’s freedom begins.” Nobody should feel entitled to steal someone’s happiness or their simple inherent right to be. Someone who steals or inflicts harm hide their actions because it is criminal and wrong, but why should any person to hide themselves if all they are doing is being themselves and loving someone else? How would you feel, and now I am talking solely to the straight people out there, like me, if the right of you to be yourself would be suddenly taken from you? If you couldn’t introduce your loved one to your family fearing they would disown you, be disappointed, be even disgusted at you, for the simple fact you loved someone of the opposite gender? How would straight people think and feel if the history and the world would have happened and act the opposite If homosexuality would be the so called normal, or the norm, and heterosexuality would be the minority, the wrong way to be, a crime? If it would be a reason for you to be beaten and murdered by someone you had even never met before? How would you feel if you couldn’t get married to your love? If you would lose friends (who in my opinion weren’t ever a true friend to you) and family out of prejudice only? How would you feel if you being heterossexual would sudden be your dark and pervert secret? That made you feel you might not be normal. Or that something would be wrong about you. Be ill. In need to be corrected, or cured? If that would make you feel isolated, depressed, and even prone to suicide thoughts? Not because you did anything wrong but just because that’s the way you are. You know you are straight, you feel you can’t tell anyone, and the world suddenly is so much harder for you, just because of that? How would you feel? Think better next time you feel any kind of prejudice towards the non-straight people, and before you say something wrong. They are people too. They have feelings. They hurt. We are all the same, we are humans, and we should all equally be allowed to fully express ourselves, love ourselves and another. Be gay if you want. Be straight if you want. Be a unicorn if you’d like. But let’s all be kind.  

Merda do Murphy

Ou da lei dele

Lei de Murphy é um adágio da cultura ocidental que normalmente é citada como: “Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível.” Foi com essa frase que Edward Murphy, um captain da Força Aérea Americana, “criou” a Lei universal que assombra até hoje nós os azarados. O Ed não era assim um gajo muito positivo, e por causa dele e da visão de Murphy, toneladas e toneladas de pessoas têm tido merdas a acontecer na vida delas quando menos precisam. Tipo eu. Depois de um processo de recrutamento demorado, eu tinha finalmente entrado no curso de tripulantes de cabine da que seria a minha próxima companhia aérea, quando a merda do Corona resolveu explodir, e suspender-me o curso. Não podia ter acontecido noutra altura? Obrigadinha Murphy. Menos grave mas tão irritante também, é o facto de que sempre que eu deixo cair o pão no chão, e isso acontece mais vezes do que podem pensar, o pão cai sempre com a merda da manteiga para baixo. E a culpa é de quem? Do Murphy. A visão tradicional diz que há uma chance de 50% para cada opção mas isso está errado, porque das 21 vezes que isto me aconteceu só duas vezes é que o pão caiu com a manteiga para cima. Com essa premissa do Murphy (e não minha) em mente, em 1995, quando eu ainda não tinha experimentado merda de pandemia de corona nenhuma, o físico britânico Robert Matthews publicou um tratado sobre o assunto que chamou de “A Torrada em Queda. A Lei de Murphy e as Constantes Fundamentais.” E amparado por complexos cálculos matemáticos e experimentos científicos, esse senhor demonstrou que a torrada tem de facto uma tendência inerente para cair com a manteiga para baixo. Ele verificou que em 9.821 quedas, 6.101 foram com a manteiga para baixo. E por causa da merda do Murphy, o Roberto desperdiçou horas e dias da vida dele a deixar torradas com manteiga cair da mesa e a apontar o resultado das quedas num caderno. Pelo menos que tenha ganho um prémio Nobel por isso. Mas então como posso eu continuar a ser a pessoa positiva, que me caracteriza, quando estas leis de Murphy existem e se verificam? Não são rumores, não são mitos nem lendas, nem conversas de galley, são teorias comprovadas de merdas que realmente acontecem. Quando estamos parados no trânsito, a fila do lado é sempre a que anda mais rápido, ou não é? Quem nunca mudou de fila, só para ficar parado de novo a ver a ex-fila a andar mais depressa? Isso acontece-me nas filas para mostrar o passaporte no aeroporto, nas filas das caixas dos supermercados, nas filas nos ATMs para levantar dinheiro. E sempre que decido fazer um atalho, esse atalho passa a ser a distância mais longa entre dois pontos. Quando estou a pintar um quadro e faço merda, qualquer tentativa de melhorá-lo só piora. Também é fatídico que todas as soluções que arranjo, acabam por me criar um novo problema. E sempre que vou comprar roupa e pego o tamanho S para provar, só me serve o M, mas se tivesse escolhido o M, o S é que teria sido o indicado. E se está escrito “Tamanho único” aposto convosco em como não me vai servir. As poucas vezes que tenho coragem para ir andar de bicicleta, não importa para onde vou, é sempre morro acima e contra o vento. Quando jogo poker e finalmente tenho dois Ases esses perdem sempre para uma merda de mão. Se houver 3 festas às quais eu quero muito ir, vão as três calhar no mesmo dia. Quando não tenho namorado, não há gajo nenhum interessante num raio de 100 km. Mas assim que arranjo um, aparecem outros 3 super interessantes. Enfim, qual lei qual quê. Juro que este Murphy lançou-nos foi a todos uma maldição. No outro dia andava à procura de um número de telefone e encontrei-o finalmente escrito num mapa, mas fiquei na mesma porque o número estava apontado na dobra do mapa, e com a dobra do mapa lá se foram alguns dígitos. Ora, culpa do Murphy. O mesmo acontece com muitas informações importantes nos mapas de uma rota ou destino que se perdem numa dobra ou na margem do mapa. É que a margem de um mapa de apenas um centímetro representa 28% da área total do mesmo. Grande merda, pois. Por esse motivo os bons guias rodoviários e mapas de cidades repetem pelo menos 30% da informação de cada página. Mas isto não interessa nada porque eu devo ser das poucas que ainda sabe o que são mapas de papel. A juventude agora só usa os GPS. Where’s the fun of it? Com os mapas descobríamos caminhos novos, e eu particularmente descobria realmente caminhos muito novos, alguns que não estariam sequer marcados nos mapas, porque me perdia constantemente, but not the point. Com os GPS levamos com ordens da voz irritante da gaja que nos manda 3 vezes virar à esquerda. Vire à esquerda a 300 metros. Vire à esquerda a 200 metros. Vire à esquerda agora. Deve ser divorciada essa gaja, ninguém aguenta isso. É certo que também uso às vezes, mas o meu é homem e só por segurança, é mudo. E as minhas meias, Sr. Murphy, as nossas meias? Tenho perdido dúzias de meias em máquinas de lavar e é um problema comum na minha vida nos 5 países onde já vivi. Por isso, não posso atribuir a culpa nem aos países nem às máquinas de lavar. Elas entram em pares, e saem soltas, livres, e solteiras. Acabam o namoro dentro das máquinas de lavar, e o outro par desaparece sem deixar rastro. Que sonho, se fosse assim tão fácil acabar o namoro com uma pessoa. Entrávamos na máquina como casal e num programa rápido de poucos minutos e frio, eu saia sozinha, e nunca mais ninguém via o gajo. Isso o Murphy não inventa. A título de curiosidade de merda, segundo o Victor Niederhoffer, que foi um senhor que curtia estudar estatísticas, se perdermos mais do que uma meia de uma vez só, o mais provável é que sejam de pares diferentes. E se houver duas ou mais maneiras de fazer algo e uma delas pode resultar numa catástrofe, alguém se decidirá por esta. E esse alguém normalmente sou eu. E tu, e todos nós, por causa da merda do Murphy. E este merdas também provou que levar um guarda-chuva quando há previsão de chuva torna menos provável que chova. Assim como regar as plantas, faz chover. Tinha acabado de regar o quintal inteiro a semana passada, e de enrolar a mangueira toda de volta e colocado no suporte, quando começou a chover. Mas também tenho outro truque para que chova: pendurar roupa. Seja a que horas que eu decida pendurar a roupa, quando estender a última toalha ou a última cueca, ou aquela meia agora solitária no estendal da roupa, é certo que vai começar a chover. Por causa de quem? Do Murphy. O São Pedro já não manda nada. E também é culpa do Murphy só encontrarmos as coisas nos últimos lugares que as procurarmos. Ou encontrarmos essa mesma merda dias depois quando não estamos já mais à procura dela. Basta. Portanto quando perdi no outro dia a chave do carro, o primeiro lugar em que fui procurá-la foi no frigorifico, e encontrei-a logo à primeira, por isso tecnicamente nunca perdi a chave. E agora quando tenho 4 chaves parecidas para um cadeado e não me lembro qual é a chave que o abre, experimento a última que normalmente experimentaria. E abro o cadeado à primeira. Agora quando quero regar as plantas, desenrolo a mangueira e digo para o ar, “Vou ter imenso trabalho agora a regar as plantas todinhas.” E chove. No trânsito digo em voz alta: “Era agora que eu mudava de faixa, estou a preparar-me para mudar de faixa, olha que vou mudar de faixa” e não mudo, mas a minha faixa passa indeed a andar mais depressa. Sim, é verdade que dou ares de maluca e ando a fazer as coisas de maneira diferente do que as faria, e que ando a falar sozinha e a dizer estas merdas para o ar, mas seja como for, creio ter descoberto uma maneira fantástica que contrariar o azar que a lei de Murphy nos impregna há décadas; e porque sou muito fixe, resolvi partilhar agora convosco o meu mais novo método para que tudo corra bem e o Murphy vá finalmente à merda.

Shitty Corona

 

I have taken this quarantine very seriously. I follow all orders and medical advice. I have been in total social isolation and confinement for over a month. But I do miss being free and dirty. Yes, because if now I don’t wash my hands for at least 20 seconds I feel really nasty. This must be what people who experience obsessive-compulsive cleaning disorder feel. In fact, at the end of all of this shit, we will all visit the psychiatrist taking with us some nice disinfected cookies along. I already made an appointment for July, because in the same way that the toilet paper rolls were used up and sold out, the psychiatrists will also be gone. As a shitty curiosity, before this Corona pandemic outbreak, the percentage of the disease in the general population was 3%. I went to find out some more to know if I should worry about myself. In the article they say that a serious sign is that if we find ourselves constantly repeating behaviours or rituals such as cleaning the house, washing hands or organising objects. Now, this was without a slight of a doubt my first 30 days of quarantine. Today is my 44th day of confinement, and I cannot say that I am getting any better, but now I have nothing else to organise. Everything is in their absolutely right place. The days go by well when I have no contact with the outside. I play the piano, sing, read cool books and write some shit, I watch Friends on Netflix, I’m already in the third season of the third round; and finally, I feel safe here walking from the living room to the bedroom, from the bedroom to the bathroom, from the kitchen to the terrace. But I don’t stay there in the terrace if I hear someone coughing on the second floor. I am afraid Corona might experience suicidal thoughts and throw himself out of the window, fall on my hair, I then scratch my head and put my hands in my eyes. And that’s it, tinoni, tinoni, here comes the ambulance. And I wouldn’t even know which bus would have hit me. At home I feel good and secure, but when I have to go downstairs to the door of the building to get the purchases that Continente delivers to the building entrance, my life turns to shit. And in addition to that obsessive-compulsive disorder, we are all already suffering as well from agoraphobia, this shitty disturbance characterised by symptoms of anxiety in response to situations that we perceive as unsafe, and among these are open spaces, shopping centres and in more serious cases, everything that is outside the home. It’s just me? Anyone? Something that was once certain for me and uncomplicated, it is now a scene of terror. First, I wear my waterproof motorcycle jumpsuit, so that afterwards I only have to immediately wash one piece of clothing when I return home, and I must say that that jumpsuit looks great on me, tight and sexy, at least that, only to be spoiled by my ugly winterly beanie hat where I stuff all my hair inside, whether or not it is a sunny day, a surgical mask with two elastics that force and bend my earlobes, and terribly ugly glasses to protect my eyes, which I would have used just to go riding a bike to Monsanto that I never managed to go to, and there I am, totally ready to go and face this shitty enemy of ours that is invisible and silent. I think to myself, as I lock the door of the house, in a repetition mode so as not to lose focus, that I cannot put my hands in my mouth, in my nose, nor in my eyes. I cannot put my hands in my mouth, in my nose, nor in my eyes. I don’t take the elevator because I can be inside and imagine it stops on any floor and some potentially infected human gets in? And then, it’s the thing, some doctors say that the virus hovers in the air inside the elevator for 3 hours, Jornal Expresso says in the same article in different paragraphs, come on at least in different paragraphs, that it lives in metal and plastic for about 3 days, and then a bit ahead it says 5 days. So I tell them all  to go to shit and go down the stairs. I’m going down the steps and thinking, don’t take buggers out of your nose, don’t take buggers out of your nose, the light goes out and there goes my elbow to turn on the light. Do not rub your eyes, do not rub your eyes, and the elbow that until then was of no use except to feel the famous elbow pain at one or another moment of envy, is now the main artist chosen to turn on switches and push doors. Don’t stick your fingers in your mouth, don’t stick your fingers in your mouth, and I finally get downstairs without meeting anyone on the stairs, literally for my health, and I listen to see if whether or not there are people in the lobby. The coast is clear, the little obsessive-compulsive General who lives now in my mind shouts, in a hurry, go go, the coast is clear and I assertively cross my potentially contaminated fingers so that no one appears, and I go in my astronaut mode. And then the insidious transport of goods begins. I arrive at the door of my house, without having put my hands in my mouth or plucking my eyelashes or sticking my fingers through my nose compulsively. A victory, indeed. The bags are all at the entrance door, in my mind visibly contaminated with that shitty virus, I open the door and then two by two, I take the bags to the terrace. At the entrance I take my shoes off and barefoot I walk in the house without touching anything towards the terrace where I start to accumulate my groceries on the floor that will be contaminated of course, and then I go back to the entrance, I put on my shoes to get more bags from the outside,  the red danger zone, and then back in again barefoot and I do this about 10 more times until there are no more shopping bags left outside. I left the house key and shoes logically at the entrance. I go to the bathroom to wash my freaking hands for 40 seconds because at this point 20 seconds is no longer satisfying. And I do as they taught me on TV: first I soak my hands, I leave them very moist, humid, wet, then I take a sufficient amount of soap to wash the entire surface of my hands, I start rubbing my palms against each other and with my lubricated fingers interlaced, I rub the palms and the back of the hands again. I wash the backs of my fingers and clean my thumbs with circular motions, I also make circular motions on the palm of my hand to clean my slippery fingertips, I rub my fists also first one and then the other, then I soak my hands again under running water that splashes everywhere with the fingers intertwined I rub them together and finally dry everything well with a paper towel. And this is all the sex I have had in these quarantine days. And after this shitty sex, I put the sexy jumpsuit in the washing machine and take a shower. The first phase is completed. Then you have to wash the rice, beans, noodles, the canned ones under the tap, with water and soap, and my phone starts ringing and I can’t interrupt because otherwise I will contaminate the phone and then I will have to sanitise it and I don’t think it has done him well so much alcohol gel because it is already starting to go off with no reason, so I continue to clean the fruits and vegetables with a tablespoon of bleach for 1 litre of water. And then I wash my hands well after cleaning the food, before cooking, after cooking and before eating, the palms, the back, the wrists, the tips and between the fingers, and I’m about to go out to the streets looking for the subway handrails to lick them for a long time, I’m about to go looking for bus stops to get many buggers out of my nose and to place them one by one under the seats of the bus stops like a good prep student shall do to keep alive its tradition, and then I will end up rubbing my hands on the floor of the street and stick my fingers in my eyes until it bleeds. All of this just to make sure I get this shitty Corona virus and I can end this shit once and for all.

Merda do Corona

 

Tenho levado esta quarentena muito a sério. Cumpro todas as ordens e todos os conselhos médicos. Estou há mais de um mês em total isolamento social e confinamento. Mas que saudades que eu tenho de ser livre e suja. Sim, porque se eu agora não lavo as mãos durante pelo menos 20 segundos fico a sentir-me mal. Deve ser isto que as pessoas que sofrem do transtorno obsessivo-compulsivo por limpeza sentem. Aliás, no fim de isto tudo vamos todos parar ao psiquiatra. Eu já marquei a consulta para Julho, porque da mesma maneira que se esgotaram os rolos de papel higiénico, também se vão esgotar os psiquiatras. A título de curiosidade de merda, antes deste surto pandémico do Corona, a prevalência da doença na população em geral era de 3%. Fui informar-me para ver se me devia preocupar. No artigo dizem que um sinal grave é darmos por nós a repetir constantemente comportamentos ou rituais como limpar a casa, lavar as mãos ou organizar objetos. Ora, isto foram sem tirar nem por os meus primeiros 30 dias de quarentena. Hoje é o meu 44.º dia de confinamento, e não posso dizer que estou a melhorar, mas agora já não tenho mais nada para organizar. Está tudo. Os dias até se passam bem quando não tenho qualquer contacto com o exterior. Lá vou tocando piano, canto, leio cenas fixes e escrevo merdas, vejo Friends na Netflix, já vou na terceira temporada da terceira ronda; e enfim, sinto-me segura aqui a passear da sala ao quarto, do quarto à casa de banho, da cozinha ao terraço. Mas  no terraço não fico eu se ouvir alguém a tossir no segundo andar. Não vá o Corona ter pensamentos suicidas e se atirar da janela, cair em cima do meu cabelo, eu coçar a cabeça e depois levar as mãos aos olhos. E já está, tinoni, tinoni, já aí vai a ambulância. E nem saberia eu que autocarro me teria atropelado. Em casa sinto-me bem, mas quando tenho de ir lá abaixo à porta do prédio para ir buscar as compras que o Continente entrega apenas até à porta do prédio, e não de casa, a minha vida vira uma merda. E pronto para além daquele transtorno  obsessivo-compulsivo já estamos todos também com Agorafobia, que apesar do nome enganar não é a fobia do presente. É uma merda de uma perturbação caracterizada por sintomas de ansiedade em resposta a situações que podemos percepcionar como inseguras, e entre estas estão os espaços abertos, os centros comerciais e em casos mais graves, tudo o que está fora de casa. Sou só eu? Anyone? Algo que antes era para mim  certo e descomplicado, agora é uma cena de terror. Primeiro visto o meu macacão impermeável da mota, para que depois só tenha de lavar imediatamente uma só peça de roupa quando voltar para casa, macacão esse que me fica super bem, justo e sexy, pelo menos isso, só para depois estragar o look com o cabelo todo dentro de um gorro, esteja ou não um dia de sol, uma máscara cirúrgica com dois elásticos a forçar e a vincar os lóbulos das orelhas, e óculos para proteger os olhos, muito feios e que eu teria usado apenas para ir andar de bicicleta para o Monsanto que acabei por nunca conseguir ir, e estou pronta para ir enfrentar este nosso inimigo de merda que é invisível e silencioso. Penso para mim mesma, enquanto fecho a porta de casa à chave, em modo de repetição para não perder o foco, que não posso por as mãos na boca, nem no nariz, nem nos olhos. Não posso por as mãos na boca, nem no nariz, nem nos olhos. Não vou de elevador porque posso estar lá dentro e parar num piso qualquer involuntariamente e entrar um potencial infectado. E depois é aquela coisa, uns médicos dizem que o vírus paira no ar dentro do elevador durante 3 horas, o Jornal Expresso diz no mesmo artigo em parágrafos diferentes vá lá, que permanece no metal e no plástico cerca de 3 dias, e depois mais à frente diz 5 dias. Então, mando-os a todos à merda e vou de escadas. Estou a descer os degraus e a pensar não tires macacos do nariz, não tires macacos do nariz, a luz apaga-se e lá vai o cotovelo acender a luz. Não esfregues os olhos, não esfregues os olhos, e o cotovelo que até então não servia para nada a não ser para sentir a famosa dor de cotovelo num ou outro momento de inveja, agora é o artista principal escolhido para acender interruptores e empurrar portas. Não metas os dedos na boca, não metas os dedos na boca, e finalmente chego lá abaixo sem me ter encontrado com ninguém nas escadas, literalmente pela minha saúde, e fico à escuta para ver se consigo perceber se há ou não pessoas no lobby do prédio. A costa está livre, e eu avanço assertivamente com os dedos potencialmente contaminados em figas para que ninguém apareça, em modo astronauta. E depois começa o transporte insidioso da mercadoria. Chego à porta de casa, sem ter metido as mãos na boca nem ter arrancado pestanas nem espetado os dedos no nariz compulsivamente. Uma vitória. Os sacos todos à porta da entrada, na minha mente visivelmente contaminados com aquela merda, abro a porta e depois dois a dois, levo os sacos para o terraço. Na entrada descalço-me e ando pela casa sem tocar em nada até ao terraço onde começo a acumular as compras no chão que ficará contaminado claro está, e depois volto para a entrada, calço os sapatos para ir buscar mais sacos lá fora, descalço-me quando volto a entrar em casa, e faço isto mais umas 10 vezes até não haver mais sacos de compras. Deixei a chave de casa e os sapatos logicamente à entrada, na zona suja e potencialmente contaminada. Vou até à casa de banho lavar a merda das mãos durante 40 segundos porque a esta altura 20 segundos já não me satisfaz. E faço como me ensinaram: primeiro molho as mãos, deixo-as bem húmidas, depois pego numa quantidade suficiente de sabão para lavar toda a superfície das mãos, começo a esfregar as palmas das mãos uma contra a outra e com os dedos entrelaçados esfrego de novo as palmas e as costas das mãos. Lavo as costas dos dedos e limpo os polegares com movimentos circulares, faço movimentos circulares também na palma da mão para limpar as pontas dos dedos, esfrego os punhos também primeiro um e depois o outro, depois molho de novo as mãos com água corrente, com os dedos entrelaçados esfrego-os uns nos outros e finalmente seco tudo bem com papel. E isto é todo o sexo que tenho tido nestes dias de quarentena. E depois deste sexo de merda, coloco o macacão sexy na máquina de lavar e vou tomar banho. A primeira fase está concluída. Depois há que lavar com água e sabão os pacotes de arroz, feijão, macarrão, os enlatados vão para debaixo da torneira, e o meu telemóvel começa a tocar e eu não posso interromper porque senão vou contaminar o telemóvel e depois vou ter de o higienizar e acho que não lhe tem feito bem tanto álcool gel porque já se começa a apagar, então continuo a limpar as frutas e os legumes com uma colher de sopa de lixívia para 1 litro de água. E depois lavo bem as mãos depois de limpar os alimentos, antes de cozinhar, depois de cozinhar e antes de comer, as palmas, o dorso, os pulsos, as pontas e entre os dedos, e estou prestes a sair para a rua à procura de corrimãos do metro para lamber demoradamente, ir à procura de paragens de autocarro para tirar muitos macacos do nariz e ir colocando um a um debaixo dos bancos das paragens como uma boa estudante do ciclo preparatório, e depois terminar por esfregar as mãos no chão da rua e espetar os dedos nos meus olhos até fazer sangue. Tudo isto só para me certificar de que apanho esta merda do Corona e terminar de uma vez por todas com esta merda toda.

Merda de incongruências 

Significado: ausência de congruência (olhe, obrigadinha Sr. Dicionário pela grande ajuda), de conformidade, concordância, harmonia, adequação, correspondência, identidade, e de mais uma série de merdas. Ora pois, se eu conseguir não me espalhar para outros assuntos, vejamos as incongruências de merda, desta merda de quarentena. Os médicos da Suíça dizem A, os médicos de Portugal dizem B, C, D, e há quem diga só merda. Desde o dia 12 de Março que me cerrei ou encerrei em casa sozinha, por livre e espontânea vontade, isto porque prezo muito a minha consciência limpa, seja em tempos de corona ou não, e porque principalmente em tempos de merda como estes, quero continuar a dormir descansada sem pensar que poderia estar contaminada e ao ser assintomática poderia passar sem saber o vírus ao João, que sem saber passaria à sua mulher Joana, que passaria à Joaninha que passaria por sua vez ao avô João que acabaria num caixão. Hoje é o meu 42.º dia em quarentena portanto preparem-se para mais uma merda de texto. No meu último dia como cidadã livre antes de ter iniciado a minha prisão domiciliária, fui às compras para me abastecer porque não tinha comida nenhuma em casa. Aviso já que não, não trouxe merda de rolo de papel higiénico nenhum. Primeiro, porque I’m a lady e não vou à casa de banho, segundo, porque não sou açambarcadora, e em quarto porque sei por A mais B que só os outros é que fazem merda. Não escrevi o em terceiro só para ver se estavas com atenção. Bem, fui de máscara, quando ainda não estávamos em estado de emergência e todos olhavam para mim como se eu fosse paranóica. Não sou, nem nunca fui paranóica. Só que sempre consegui ver para além do meu nariz, e era lógico que isto chegaria onde chegou. Para todos os que me chamaram paranóica, deixo aqui a bela merda da frase que não gosto de dizer mas que hoje vou abrir a excepção: eu avisei. Ah, soube-me a pato feito na Bimby. Pois é, uma coisa básica e lógica na minha opinião, que sempre foi a de todos devemos usar máscaras sempre, só agora é que vai passar a ser mandatório. Só agora, é que o Serviço Nacional de Saúde e a sua representante Marta Temido finalmente perceberam que pode haver pessoas a transmitir o vírus sendo assintomáticas. Ou não quiseram dizer que sabiam. Não sou cientista, não sou médica, não sou profissional de saúde, mas a massa cinzenta que tenho na cabeça não serve para construir muros cor-de-rosa. Usem máscara, não usem máscara, a máscara dá uma sensação falsa de segurança, afinal a máscara protege, não protege totalmente; a distância social deve ser de um metro, a distância social deve ser de dois metros, já que não sabemos ao certo vamos dizer metro e meio; o período de incubação é de no máximo 5 dias, afinal é de 14 dias, mas há um caso confirmado de 28 dias de encubação, vamos então concordar que o período de incubação é de 2 a 14 dias, não podemos tomar ibuprofeno nem outros anti-inflamatórios, afinal podemos tomar ibuprofeno e outros anti-inflamatórios, afinal não há provas conclusivas se podemos ou não tomar ibuprofeno e outros anti-inflamatórios. Ora, decidam-se. Uns dizem que vamos todos morrer mas o Bolsonaro que, para quem não sabe, é o presidente barra assassino-mor do Brasil, diz que é um resfriado. Incita aos cultos, e diz que a vida não pode parar, que muitos vão morrer mas que a vida é mesmo assim e que a ele o vírus não afectará porque é um atleta. E os outros que não o são, que vão à merda. Aliás, isto vem mesmo a calhar para o Bolsonaro, que deve andar ansioso por ver o vírus espalhar-se pelas favelas ou multiplicar-se pelos idosos que para ele igualam a um grandessíssimo peso na sociedade, que ele gostaria que fosse morto. Quanto à China, foi só a sexta vez que fez mudanças na forma de contar infetados, o que obviamente preocupou os especialistas, por não podermos fazer um levantamento rigoroso. Bem, eu deixei de vos ouvir a todos há muito tempo. E é tudo uma merda, sim, é uma merda estar em quarentena, mas bem pior é estar todos os dias nos hospitais a correr riscos para salvar pessoas, e depois voltar para dormir numa caravana alugada porque o Dr. João não pode ir dormir a casa. Graças a Deus, o meu Dr. Pai está reformado. A única coisa que peço aos meus Pais e à minha Avó é que fiquem em casa, resguardados, e eles estão. Mas o que se tem visto em todo o mundo, é que os mesmos pais e os mesmos avós que quando éramos pequenos nos diziam vezes sem conta para pormos o casaco para não ficarmos doentes, são os que mais insistem por sair e ir dar uma volta. Faço questão de sublinhar que os meus pais e a minha avó se estão a portar muito bem; e que esta merda de texto não é um queixume por estar em casa. Até porque para mim estar sozinha não é um problema, é um prazer na realidade, e estou com um bocado de receio de quando tudo isto acabar, eu queira permanecer em quarentena. Não preciso de falar com estranhos nem de usar sapatos de salto alto. São só dois benefícios assim na ponta da língua. Com a quarentena eu até lido muito bem; já não posso dizer o mesmo em relação às pessoas que adoram ir para a varanda às 8 da noite bater palmas em agradecimento aos profissionais de saúde, mas depois essas mesmas pessoas são as que saem de casa sem razão válida; e é preciso inundarmos Portugal com polícias em cada curva e levantar outras medidas restritivas para que as pessoas percebam que devem ficar em casa. Eu não tenho batido palmas à janela mas tenho mostrado o meu respeito, admiração e a minha gratidão ficando simplesmente em casa, em absoluto isolamento. Palmas levam-nas o vento. As acções contam mais. E aquelas pessoas que vão a correr para os supermercados e em vez de comprarem vitaminas como suplemento para aumentar a imunidade, compram todos os rolos de papel higiénico? Tentam não estar próximo de outras pessoas mas depois lutam fisicamente pelo último rolo. Esgotam as máscaras e o gel desinfetante mas depois continuam a tossir e a espirrar para as mãos. Passam a vida a queixar-se que passam mais tempo com colegas de trabalho do que com a família, mas depois quando podem passar tempo com a família, passam a mesma vida a queixar-se dos filhos e dos parceiros e já querem é ir ter com os colegas. A taxa de pedidos de divórcios já cresceu mais de 70%. Isto provavelmente é mais uma merda que eu inventei, e não estará suportada por nenhuma tabela científica. Pois é, como se a vida não tivesse já a sua dose de incongruências, a quarentena trouxe mais umas quantas para a nossa vida. Mas há umas poucas boas. Normalmente sinto-me na merda quando estou desempregada. Neste momento a quarentena alivia-me essa sensação de insucesso. Agora posso simplesmente atirar todas as culpas para a merda do vírus e lavar as minhas mãos de qualquer responsabilidade, literalmente. E tenho lavado obsessivamente. Aposto em como a taxa de pessoas contaminadas com o Covid-19 que sofrem do transtorno obsessivo compulsivo por limpeza é zero. Eles é que sabem; eles, as mulheres que usam burcas e o Pilatos também o sabia. Mas sim, estou desempregada porque o curso de formação que estava a fazer na que seria a minha futura companhia de aviação ficou suspenso, quando Portugal ficou suspenso. Quando o mundo parou e os aviões ficaram no chão. Sou assistente de bordo e digo-vos que esta situação toda tem semelhanças incríveis com as merdas dos standbys, em que a nossa companhia aérea nos paga para estarmos em casa de assistência de pijama no sofá a ver Netflix. Estamos de malas preparadas, o uniforme limpo, passado a ferro e preparado para ser vestido a correr porque às vezes pode tratar-se de uma emergência irmos substituir alguém que ficou doente para irmos passar 8 dias na Jamaica com tudo incluído naqueles resorts 5 estrelas. Por isso, se eu me quiser alhear a todo o sofrimento que vai pelo mundo, e acreditem que tive de o fazer porque estava a afetar-me demasiado, e pensar que estou em standby, acaba por ser parecido. Com a diferença que desta vez eu tenho a certeza de que não me vão chamar para ir trabalhar e quem me está a pagar para ver Netflix é a segurança social. Quando paga, porque é outra merda de instituição cheia de incongruências. São muito eficientes na hora de cortar os subsídios, aí não precisam de qualquer tipo de documento para servir de prova, mas para pagar o que nos é de direito precisam de um documento que foi enterrado no vale dos Reis no Egipto. E quando eu consigo desenterrá-lo, pedem-me que o traduza, e quando o traduzo, pedem-me que vá autenticar a merda do documento que sempre foi totalmente desnecessário e quando o apresento finalmente como prova, perguntam-me onde está a múmia do Tutancamon. Toda esta conversa de merda, entre e-mails trocados ao longo de meses. Quando aceitarem o meu pedido do subsídio de desemprego já estarei a trabalhar. A próxima vez que eu quiser mandar alguém à merda digo-lhes para irem à Segurança Social. Ou melhor, em tempo de quarentena: Segurança Social Directa; que também variadas vezes se encontra em manutenção para nosso benefício. E se tiverem dúvidas se estão ou não contaminadas digo-lhes para ligarem para o SNS 24 e se tiverem dúvidas se devem ou não usar máscara, perguntem à Marta. Não à da Ok! Tele-seguros; perguntem à Ministra da Saúde, apesar de temer que fiquem na mesma ou ainda mais confusos. Ora, eu digo que ninguém sabe é merda de nada, e isso é a única coisa em que todos concordamos. Fiquem em casa, comam bem, durmam bem, façam exercício, cuidem dos vossos e leiam coisas mais interessantes que estas. Sim, porque eu já vos tinha avisado que os meus textos são uma merda, portanto a responsabilidade de estarem a perder tempo é toda vossa. E em relação a isto não dá para lavarem as mãos.

Merda de mentiras

 

Atenção que saiu um artigo científico há uns dias que diz que mentir engorda. Era bom que esta merda fosse verdade, podia ser então que as pessoas mentissem menos nem que fosse para manter a boa forma física. No dicionário está escrito que mentir é enganar, uma impostura, uma fraude, falsidade, um engano dos sentidos ou do espírito, um erro, ilusão, fábula, uma ficção. Falta dizer que mentir é uma merda e ser-se mentido é uma merda ainda maior. Olha que não sei, está renhida a competição. Infelizmente, toda a gente faz merda e toda a gente mente e apesar de eu não gostar de mentir também eu já menti. Se eu não confessasse isto, não seria mais que uma hipócrita de merda. Quando alguém mente uma das pessoas acaba por estar a roubar o direito da outra à verdade, e ninguém gosta de ser roubado mas toda a gente rouba. Existem tantos cursos de merda de representação para televisão e para cinema, tantos cursos de merda de escrita criativa que não entendo esta nossa necessidade de contar mentiras. Pelo menos, que tivéssemos a simpatia de pré-avisar que vou dizer agora uma grande mentira que te vai fazer muito feliz ou que esta estória que te vou contar não se passou mas eu gostava que se tivesse passado porque ia transformar-me numa pessoa mais interessante. E pronto, depois dessa merda de introdução tinham a minha bênção para mentir com todos os dentes que Deus ou Alá lhes deu. Um bocadinho de sinceridade não iria ferir ninguém; aliás avisar antes de disparar uma mentira seria sempre melhor do que andarmos todos com coletes à prova de sentimentos. Assim ninguém entrava enganado por uma porta dourada que afinal dá para as cavalariças. Ou se calhar devíamos simplesmente criar uma placa ou um sinal de proibição e inundar a cidade com eles. E a partir desse dia seria pelo menos em alguns lugares Proibido mentir. Parece-me uma boa ideia dado que as outras placas parecem resultar, veja-se a do Proibido pisar na relva por exemplo. Há muito poucas pessoas que depois de avisadas, pisam a relva. Teríamos apenas de nos preocupar com os mentirosos iliteratos de merda. Mas nada que a cara do Pinóquio com um traço diagonal vermelho em cima não resolvesse essa falha de comunicação. Existem já tantas plaquinhas dessas: Proibido fumar, Proibido nadar no rio, como se eu fosse tentar nadar em terra, ou umas mais incomuns, como Proibido mascar pastilha elástica, que vi uma vez em Singapura, ou Proibido cuspir para o chão, o que acho absolutamente justo, dado que também não vemos o chão a cuspir para as pessoas. À porta de todos os centros comerciais em Abu Dhabi, nos UAE, quando lá vivia via constantemente Proibidas as manifestações de afecto; curiosamente nunca vi um que dissesse Proibido agredir mas juro que vi placas que diziam Proibido urinar no elevador. Esta confesso que me fez parar e ler aquilo duas vezes. Mas que sinal de proibição mais estranho, e claro, lido e feito: apeteceu-me fazer xixi. Seria uma coisa que aconteceria assim tantas vezes dentro de um elevador para que tivessem de a proibir? Seria comum ouvir-se um vou só ali ao elevador fazer xixi e volto já? Como hoje bebi muita água vou com certeza até ao décimo sétimo-andar. Num dia meu normal, iria só até ao terceiro andar. E será que essas pessoas que fazem xixi nos elevadores são as mesmas que vão falar ao telefone para as casa-de-banho públicas ou para as salas do cinema? Proibido arrancar flores do jardim, também vi essa em Abu Dhabi. São pessoas românticas, estas que vivem nos Emirados Árabes. Não dão a mão em público mas estão constantemente a oferecer flores. É certo que algumas dessas placas, por mais estranhas que sejam, devem ser indispensáveis em alguns locais ou para certas pessoas. E daí eu pensar que um Proibido mentir se calhar traria resultados positivos. Imagine, uma placa destas em cafés, em bares, em restaurantes. Proibido mentir nos parques de estacionamento, nos jardins, nas escolas, no Parlamento (meu Deus, no Parlamento!), nas esquadras de Polícia, até nas Igrejas. Principalmente nas Igrejas, e logo à porta. Ou conselhos de segurança do género: Se conduzir não minta. Deste modo, reduzíamos também os acidentes de viação, dado que o uso do telemóvel enquanto se conduz é provavelmente, ao lado da embriaguez, uma das maiores causas de morte na estrada. Sei lá, pelo menos teríamos lugares no mundo em que podíamos estar protegidos das merdas das mentiras, já que confiar uns nos outros está um bocadinho ultrapassado e parece-me só essa ideia ela própria já uma ilusão. E uma placa de Proibido mentir nos dates? Ou seria muito bom ou seria muito mau. Às vezes quase que percebo porque é que todos nós mentimos. É que uma mentira pode parecer em alguns casos quase uma obra de caridade, quase um ato de boa vontade, de bom coração. Mas não é, a mentira é uma merda e devia ser proibida. Seja qual for a motivação, todos ganhamos com a verdade, ainda que por vezes apenas a longo prazo. Dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade é simples, requer menos logística, menos capacidade de memória, ninguém se magoa e não estraga o karma de ninguém. E tenho boas notícias para todos os mentirosos. Se dissermos a verdade, o mundo não vai acabar, não nascem gémeos siameses, os tomates da quinta da D. Alice não vão de repente apodrecer, a gravidade da Terra não desaparece, não teremos 7 anos de azar, não ficamos desprotegidos contra vírus ou bactérias, e neste momento parece-me relevante acrescentar isto; e as estrelas do céu (e as celebridades da terra) não morrem mais depressa. Dizer a verdade não faz crescer borbulhas na cara de ninguém, nem pelos nos mamilos, não causa cancro no pulmão, não provoca acidentes de viação e não engravida ninguém. Também não foi a causa da mono-sobrancelha da Frida Kahlo. Dizer a verdade também não envelhece nem engorda; pelo contrário liberta e rejuvenesce. Vamos levar esta merda a sério e colocar em prática a verdade; tirá-la dos livros, sacudir-lhe o mofo e se for complicado ao início por causa dos maus hábitos, exercitamo-la durante apenas dez minutos por dia: não podemos dizer uma única mentira, seja ela branca, ou preta, seja ela amarela às bolinhas. Em período de quarentena é mais fácil dado o isolamento social, mas tudo bem, há que se começar em algum lado. Na semana seguinte passamos para os quinze minutos sem mentiras e vamos por aí afora, de forma corajosa e determinada, impulsionados pelas verdadeiras boas intenções até chegar a todas as horas do dia em que passamos acordado. Parece-me mais interessante para todos nós um sinal que proíba as pessoas de mentir, do que um que proíba de mascar chiclete. Eu diria mesmo que o Proibido mentir é tão necessário e urgente quanto o sinal de Proibido fumar. É que as duas coisas são uma grande merda e fazem igualmente mal ao coração.

Merda de sonhos

Todos nós sonhamos. Uns parecem literatura fantástica, quando outros assemelham-se mais com a realidade. Mas nem todos são lembrados. Já eu lembro-me de todas as merdas de sonhos que tenho todas as noites, ou todos os dias. Sim, porque também costumo dormir uma boa noite de sono durante o dia. Ossos do ofício de uma assistente de bordo. Mas vamos por partes, porque há muitos tipos de sonhos. Tenho muitas vezes sonhos lúcidos, que são os meus preferidos, porque tenho a total noção dos acontecimentos e consigo até controlá-los. Hoje sonhei que estava a andar de bicicleta, comecei a pedalar e como não costumo andar de bicicleta percebi que estava a sonhar. Já que isto é um sonho, pensei, vou pedalar tão depressa que vou levantar voo. E voei tipo o miúdo do E.T. O curioso foi que a meio do voo, tive medo de mais tarde não conseguir aterrar bem e nesse momento deixei de conseguir voar e entrei em queda livre, e soube aí que tinha de acreditar que conseguia voar para voar, e voltei a ganhar sustentação. Acho que todos nós devemos tirar alguns significados deste sonho, lições até, ou até merda nenhuma. Depois há os sonhos pesadelos, que normalmente são as fobias, receios, inseguranças da vida real trazidas pelo subconsciente para o sonho. Há também os sonhos premonitórios. Sonhei que a minha amiga estava grávida e não é que acertei? Sonhei com o nascimento do meu sobrinho, que o meu irmão insistia que seria menina e foi rapaz. Só não sonho com a merda dos números do Totoloto. Depois há os sonhos repetitivos, que normalmente acontece a pessoas que sofreram algum trauma. Melhor não dizer merda nenhuma sobre isto. Já os sonhos criativos são comuns entre artistas e funcionam como inspiração. Os sonhos do Dali seriam certamente surrealistas, ou não fosse ele o grande pintor de sonhos. E depois há os sonhos sensuais, mas essa merda a mim não acontece. Eu sonho com crianças com caras envelhecidas, e paredes a convergirem até me esmagarem, elevadores que caem comigo lá dentro, sonho com desastres aéreos, náuticos, labirintos, perseguições, os dentes todos da minha boca a cair, afogamentos, perdas de membros, ataques de tubarões-buldogue, o cabelo a cair, enfim. Sonhos sensuais? Não. Eu só tenho sonhos de merda.

Merda de pessoas

Caixa de Kleenex. A minha amiga que merecia bem melhor é uma bonita ultra suave folha que serve para assoar ou limpar ranho, enxugar lágrimas, or worse. Eu, e tu que me estás a ler também és. Ou somos, ou já fomos, ou seremos algum dia uma folha de Kleenex de alguém. Uma das muitas ultra suaves folhas com extrato de algodão ideais para uso diário da caixinha de Kleenex que está na mesa de cabeceira do gajo de quem se gosta. Ou gaja. Suave e resistente para o momento em questão. Perecível. Substituível. Igual para eles a tantas outras folhas. E quando essa caixa acaba, também a caixa é deitada fora e substituída por outra, com mais folhas. Somos tal e qual as folhas ideais para manter a higiene do seu animal de estimação ou perfeitas para limpar o seu teclado do computador que depois de usadas são deitadas fora. Folhas com qualidade e com garantia da marca de lenços Kleenex. Vá lá. Podíamos ser folhas de uma caixa de uma marca qualquer que ninguém conhece e que não tem a mesma qualidade. Há sempre uma merda pior. Na altura em que eu frequentava a Universidade, há quase 15 anos atrás quando ainda não havia smart phones e pagavas caro por cada mensagem de texto, as relações eram bem mais simples e as pessoas que usavam outras pessoas e as deitavam levianamente fora eram primeiro que tudo a minoria, e depois olhados de lado pelo resto de nós que actually namorava com alguém, respeitava essa pessoa e investia o tempo em conhece-la na realidade sem jogos, sem merdas. Conhecíamos alguém na rua, num bar, através de amigos, no metro, na universidade e se gostássemos de sair com essa pessoa, saíamos mais vezes, dávamos um beijinho ou dois e voilá estávamos a namorar. Não havia dúvidas. E depois de dormirmos com a pessoa, para o espanto de todos nós de agora, dormíamos de novo com essa pessoa, e de novo, e de novo, e um dia piscávamos os olhos e já namorávamos há 2 anos. Se queríamos ver a pessoa, dizíamos. Se quiséssemos ligar à pessoa, ligávamos. Não havia jogos, nem as regras dos 3 dias, nem workshops no youtube em como conseguir transformar o sexo casual com alguém num relacionamento, nem vídeos no youtube com psicólogos ou conselheiros or relationship coaches a guiar as pessoas no início de uma relação, ou em como estar disponível mas não estar demasiado disponível, rejeitar uns quantos convites sem rejeitar demasiados convites, para manter o interesse dele em ti, nem vídeos que ensinam como saber se o gajo é um player ou se é boyfriend material. Os relacionamentos entravam em crise com o tempo, depois de estarem juntos há 5 ou 7 anos, ou ao fim de 15 anos de casados. Os relacionamentos hoje em dia estão em permanente crise ainda antes de o serem. Agora com o Tinder, a vitrine de folhas de papel Kleenex é inesgotável, e a próxima folha parece mais suave que a última que foi usada só uma vez, e usar uma folha de cada vez também já não é suficiente. A folha ainda não foi para o caixote de lixo oficialmente e já outra foi puxada para ser testada. Não digo que sejam só os homens a fazerem isto, as mulheres também. A igualdade do sexo chegou à cidade, para o bem e para o mal. E como uma boa avó que diz frequentemente que No meu tempo as coisas não eram assim, digo-vos eu também que no meu tempo o homem ou a mulher que traía a mulher ou o marido se não tinha vergonha do que fazia, também não o publicitava. Hoje em dia há o orgulho da vergonha. A minha amiga Joana fez match com um gajo e depois foi ler a descrição dele lá naquela vitrine que em vez de Tinder devia ser chamado de Kleenex. Dizia: Casado à procura de novas aventuras. Mas que merda é esta? Eu disse-lhe Diz-lhe que és a mulher dele para o assustares. Ela assim fez e ele respondeu Eu sei que a minha mulher tem Tinder também e que se safa bem melhor que eu. Sim, ele disse safa-se. Pronto, não estragam dois casamentos. Esta é a merda de relacionamentos que existe hoje em dia. Está bem, temos de respeitar e tal, aceitar e outros blá, blá, blá, mas continuo a ter a minha opinião e a minha opinião é de que relacionamentos desses são de merda. Antigamente as pessoas depois de saírem umas quantas vezes e acharem que a relação não tinha futuro, enfrentavam a situação, e diziam à outra parte Não está a resultar para mim, ou pelo menos um Acho que devíamos acabar. Depois há uns anos veio a moda do Dar um tempo. E a moda pegou, porque as pessoas cada vez sentem menos respeito pela outra, a palavra de cada um vale cada vez menos, e porque tirava um pouco da responsabilidade de quem terminava a relação, deixava um fio de esperança que a coisa podia não terminar para sempre, e era assim mais fácil para quem terminava. Ainda que mais terrível para quem ficava a espera que voltassem. E agora já nem isto acontece. Agora a moda é as pessoas desaparecerem. Morrerem. É o tempo do respeito zero. Foram comprar cigarros lá à mercearia da esquina e nunca mais voltaram. Vão ao ginásio e ficaram lá presos eternamente agarrados à máquina de musculação ou debaixo de algum peso de 5 kg. Dizem que te ligam no dia seguinte e cortaram-lhes as mãos e então nunca mais te puderam ligar. Tu preocupada mandas uma mensagem Então está tudo bem? Tínhamos ficado de ir à praia? Já voltaste do Porto? Nada. A pessoa foi ao Porto e nunca mais voltará. O Porto, essa cidade tão perigosa que o teu date dos últimos 4 meses foi lá passar dois dias e foi raptado, e atenção sem teres recebido qualquer pedido de resgate. E a tua resposta é silêncio. E há silêncios que te gritam aos ouvidos. A pessoa que entretanto está desaparecida leu a tua mensagem, leu as tuas últimas mensagens, viu que ligaste umas duas ou três vezes, e continua fechada na cave só com possibilidade de ler as tuas mensagens mas sem coitadinho poder responder. A pessoa que saiu contigo nos últimos meses e que já dizia ter saudades, onde já passavas noites em casa, onde já tinhas a tua escova de dentes junto à dele, morreu subitamente. Mais uma vida ceifada. Mas ainda morto como por milagre ele lê as tuas mensagens, até que o defunto te bloqueia de repente. Foste bloqueada por um fantasma, e daí talvez o termo para esta nova moda de término de namoros: Ghosting. E surgiu um novo verbo também. I ghost, you ghost, she and he ghosts, we ghost, you ghost, we all fucking ghost. Não, eu não faço isso. Recuso-me a tratar as pessoas como merdas de folhas ultra suaves de papel Kleenex. Não sou religiosa mas tento seguir a regra de ouro comum a todas as religiões: tratar o outro como gostaria de ser tratado. Eu não desapareço, não morro, não fico eternamente no ginásio, ninguém me cortou a merda das mãos. Se não estou interessada em continuar alguma relação, enfrento a pessoa e exponho os meus sentimentos ou a falta deles. Não é difícil. É só não sermos uma merda de pessoa. Quando um relacionamento termina é doloroso mas invariavelmente aprendemos a lidar com isso quando chegamos a uma conclusão. Porque temos a oportunidade de falar e ouvir a outra pessoa nem que seja a dizer que já não quer estar connosco. Um final claro foi marcado e podemos iniciar o processo da dor, e o processo da recuperação. No ghosting, que vem da palavra em inglês ghost ou fantasma, ficas pendurada naquele fio que seca a roupa, com umas poucas molas, ao frio e à chuva, sem saber porque é que te penduraram ali, e se algum dia te vão resgatar. Mentalmente também presa nessa dúvida: mas que merda aconteceu? Ficas presa ou preso na incerteza e nem mereceste da outra pessoa o respeito de uma explicação final. É a merda de um fim aberto que deve provocar uma grande dor psicológica de auto-dúvida e de impotência. No início ficas preocupada ou preocupado, porque algo sério pode ter acontecido à outra pessoa. E o chamado sistema de monitoramento social inicia-se: Fazes o teu scan incessante mental sobre que merda poderia ter acontecido sem que encontres qualquer aparente motivo, sim, porque até à data da sua morte, e descanse esse merdas em paz, estava tudo perfeito até essa pessoa ter desaparecido sem deixar vestígios nem migalhas de pão ou explicação. O que foi que disseste ou fizeste que fez com que a outra pessoa se afastasse desta maneira? Ou que não disseste ou que não fizeste? Ou que disseste e fizeste e pudesse ter sido interpretado errado? Há uma infinitude de merdas possíveis. Podias ter evitado? Surgem as dúvidas e a tua auto-estima cai mais um pouco. You find no closure. Sem uma explicação é difícil seguir em frente. O teu cérebro procura incansavelmente por possíveis causas que não encontrarás jamais, porque a única razão para que tal tenha acontecido essa nunca te ocorre: esse gajo é um merdas, that’s all. Uma coisa posso dizer a todas as pessoas que foram ghosted por alguém que parecia apaixonado por elas, se é que serve de consolo: Essas pessoas que se transformam em fantasmas não são as pessoas certas para se ter um relacionamento próximo e honesto, por isso na verdade fizeram-te um favor. Um favor de merda sim, mas não obstante, um favor. Agora pára de ler esta merda, pára de pensar naquele merdas, e vai tratar de ti, porque tu sim mereces muitas coisas boas. E eu, com este texto e depois de ter atacado veementemente as muitas pessoas que praticam ghosting, acabei de muito provavelmente perder uns quantos leitores. Bem, seriam leitores de merda. 

Merda de teorias da conspiração

Segundo uma teoria popular, a aterragem da Apollo 11 na Lua em 1969 teria sido filmada pelo Stanley Kubrik num deserto dos EUA. Uns quantos dizem que se tal viagem tivesse realmente acontecido, teríamos la voltado. Também acredita nesta merda? Os EUA não vão mais a Lua porque não há necessidade: a Guerra Fria acabou, nada lá pode ser explorado comercialmente e as missões espaciais são caras como a merda. Mas há muitas outras teorias como esta. Uns pensam que o cantor Michael Jackson estará vivo, moon walking pelo Nepal ou pelo Quénia, outros dizem que a sua morte foi encomendada por figuras poderosas dos media mundial. Ora, de acordo com a autópsia, foram encontradas no corpo do Miguel altas quantidades de substâncias como propofol, lorazepam, idazolam, diazepam, efedrina e lidocaína. Aceitemos, foi a merda da droga. Por falar nisso, sabem aquelas linhas brancas de nuvem que aviões deixam no céu? Para alguns conspirólogos, elas podem deixar-nos estéreis ou doentes ao espalharem produtos químicos capazes de nos dopar ou de diminuir a nossa capacidade de gerar espermatozoides e óvulos eficientes e que por sua vez nos impediriam de procriar futuros conspiróloguinhos; uma espécie de castração química, com estudos de merda anexados que suportam esta teoria ao mostrar que a queda do índice de fecundidade tem sido proporcional ao crescimento do tráfego aéreo. What? Esta relação entre a queda da fecundidade e o aumento do tráfego aéreo não existe: são frutos distintos de diferentes avanços como novos métodos anticoncepcionais ou o barateamento da tecnologia de aviação. Não há menos bebés porque há mais aviões. Terá bem mais a ver com o facto de hoje em dia não haver um emprego para a vida ou das relações de hoje em dia serem muito parecidas com uma caixa de Kleenex em que usamos uma pessoa e logo depois a deitamos fora; ou até poderá ter a ver com a homosexualidade, já que há menos probabilidades do João fazer um bebé ao Miguel e da Ana engravidar a Sónia, do que o Rui engravidar a Joana; é óbvio que aquele é um processo mais demorado ou complicado do que o processo de procriação do Paulo e da Rita que copulam tão rapidamente como os animais do canal da Discovery. Este texto, se ainda não era, agora é oficialmente um texto de merda. Para o piorar, só escrevendo que o actor Keanu Reeves é imortal e desde 1994 que o gajo não envelhece. Mas o Keanu não é imortal, ele tem é uma avó chinesa. Assim como há quem acredite que o Paul McCartney terá morrido num acidente de carro em 1967 e desde então que é substituído por um sósia. Umas teorias mais estranhas que outras mas todas teorias de merda. Brace for impact: os rastros de fumaça surgem quando as turbinas dos aviões liberam vapor de água gerado na queima do combustível e em contato com a atmosfera fria, o vapor condensa-se nos cristais de gelo e formam-se riscos brancos. Não são ataques químicos orquestrados pelo governo. Sou assistente de bordo e não sou controladora de voo nem meteorologista ou piloto de avião, mas entre servir o chá, café e a laranjada, acho que posso arriscar dizer que sei o que esses riscos no céu são. Aceitemos então todos a realidade aborrecida tal como ela é, e deixemo-nos de merdas.