Merda de saudades

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa. Neste caso, está presente na merda desta prosa. E ela descreve a mistura dos sentimentos de perda, falta, distância e amor. A palavra vem do latim, passando pelo galego, que deu origem às formas arcaicas de soidade ou saudade, que deram origem à palavra actual, mas esta merda não interessa para nada. Interessa é que tenho saudades tuas, Susana. E ter saudades é bom, mas é uma merda. És um ano e dois meses mais velha do que eu. Eu tinha 4 anos quando nós nos conhecemos. Tinhas o cabelo pela cintura, castanho e liso. Eu tinha o cabelo pelos ombros, normalmente separado em duas partes com dois totós vermelhos. Conhecemo-nos debaixo da mesa da cozinha, que ficava encostada a uma parede com azulejos azuis, e onde eu passava muito tempo porque gostava da sensação de ter um tecto por cima, e no qual pudesse tocar.
Tinha acabado de chegar de Faro, onde morei dos dois aos quatro anos, e fixámo-nos em Lisboa. Eu passei a morar no 3.º C, na casa da minha avó que sempre tratei por mãe. E tu moravas no 1º C e eras a filha da porteira. Chamas-te Susana e foste tão importante para mim que sei o teu nome todo, ainda hoje, depois de mais de 30 anos. E olha que nós portugueses temos nomes bem compridos. Ah, e tinhas primos com piolhos. Eu não gostava do Benfica porque o teu pai não te deixava brincar comigo, quando o Benfica perdia. Ele dizia a tudo que não quando o Benfica perdia. E o Benfica perdia muitas vezes. Eu não gostava dos teus primos que tinham piolhos. Tive duas vezes piolhos por causa de ti, ou por causa dos teus primos. Volta e meia eras levada pelos teus pais para a terra, como dizias, que se chamava Viseu, para ires à merda de um aniversário qualquer de um dos 15 primos que tinham piolhos. Mas quem nunca teve piolhos que atire a primeira pedra. Agora sei que os piolhos são umas merdas de uns insectos sem asas, de cor escura, pequenos, que se alimentam exclusivamente de sangue humano. Agora sei que os ovos dos piolhos são endurecidos e de cor branca tipo pérola e são chamados de lêndeas. São depositadas nos fios de cabelo, próximos do couro cabeludo, e deles nascem as ninfas que quando adultas depositam cerca de 80 ovos antes de morrer. Grande merda, ou não? Quando eu tinha 4 anos, as lêndeas não eram outra coisa senão os filhotes irrequietos dos piolhos, que gostavam muito de viajar, saltando facilmente de cabeça em cabeça. É uma merda ter piolhos, mas eu nunca me importei. Preferia apanhá-los de ti do que não brincar contigo. Aliás, até gostava da extra atenção da minha mãe quando ela me revistava o couro cabeludo. Às vezes, e isto nunca lhe confessei, fingia ter comichão aqui e ali.
Tu estavas sempre presente nos meus dias. Lembro-me de brincar contigo e com os meus irmãos com legos e carrinhos; de construirmos uma casa feita de lençóis na sala, presos por molas. Molas de merda porque não aguentavam com o peso dos lençóis durante muito tempo. Mas eram tendas anexadas a mais tendas. Lembro-me de nos sentarmos quietas e ansiosas pelo espectáculo de fantoches no beliche dos meus irmãos. Um espectáculo de merda, mas feito com as melhores das intenções do meu irmão Pedro, e que nós adorávamos. Lembro-me de chorar desalmadamente quando o meu irmão Pedro incorporando o papel de cowboy maldito queimava os meus índios, depois de atados a paus e rodados sobre uma fogueira, tal espeto de javali grelhado sobre brasas. E de tu te adorares ver-nos a brincar, sem participares, porque preferias ver do que estragar alguma coisa. Que merda de pensamento, mas sei porque te sentias assim. Não tinhas muitas coisas, e davas valor a tudo. Não tinhas muita auto-estima e pensavas que estragarias. Lembro-me de insistir muitas vezes contigo para jogares e podia parecer até para quem estivesse de fora que te estava a fazer uma merda de bullying, cuja palavra agora é muito popular, mas devo dizer que: meus amigos, essa merda sempre existiu. Mas não de mim para ti, isso não. Eu gostava e gosto muito de ti, ainda. Lembro-me do meu irmão Bruno me torturar com cócegas quando me ia buscar à escola primária n.º 2 da Pontinha. Lembro-me de teres contado à minha avó que o João me tinha dado um beijinho na boca, e de eu ter sido obrigada a lavar os dentes, os lábios e a língua com sabão azul e branco, quando o beijinho na boca fora na verdade um leve e tímido encostar de lábios muito juntos e esticados. A propósito, que merda foi essa? Era segredo, Susana. Eu não contava os teus segredos. Como aquela vez que ouviste os teus pais a fazerem sons estranhos no quarto e entraste lá para ver se a tua mãe estava bem e ela afinal estava muito bem e o teu pai estava muito nu. Lembro-me de te contar estórias inventadas à pressão só para te distrair, quando estavas triste. Lembro-me de seres canhota e eu achar a isso muita piada. E de com as nossas mãos termos feito um carro viajar até ao futuro, passando com o carrinho perto da rota de fios de algodão ensopados em álcool, e depois incendiados pelo meu irmão quase pirómano. Lembro-me de querer ser bombeira. E tu polícia. Lembro-me de partilhar todos os meus brinquedos contigo. De andar de bicicleta à volta do quarteirão, por turnos. Primeiro tu. Depois eu. Depois tu. Depois eu. Mesmo quando tinhas receio de cair e estragar a minha bicicleta, eu obrigava-te a andar. Lembras-te do meu Pai e dos meus irmãos correrem atrás de nós para que se caíssemos eles nos agarrassem? Era assim que eles faziam exercício. Lembro-me de tapares a boca com as duas mãos, de ficares vermelha e pareceres que podias explodir a qualquer segundo, e de me implorares que eu parasse de contar piadas porque não conseguias respirar se te risses assim tanto. Lembro-me do dia em que me pediste para parar de te fazer rir, porque senão farias xixi nas pernas, e de eu não ter acreditado. Desculpa estar a partilhar esta merda, se me estiveres a ler, em vez de ficares chateada, manda-me uma merda de uma mensagem. Já vais tarde, Susana. Já vais tarde. Mas antes tarde do que nunca mais. Lembro-me de lavarmos as duas as roupinhas das nossas bonecas no tanque. Em dois tanques pequenos, feitos ao nosso tamanho, e que a minha mãe comprou para nós. Que merda ter saudades. Lembro-me de nos esticarmos para pendurar as roupas nos varais do 1.º C. Lembro-me de ficarmos as duas na varanda do 3.º C a olhar para o prédio alto e cheio de janelas iluminadas que ficava depois do descampado, onde eu costumava colher flores com a minha avó. E eu dizia-te frequentemente que eu ainda havia de morar naquele prédio de reis e rainhas, quando fosse crescida. E que te levava comigo, claro. Lembro-me de te dizer, agora eras a policia e eu era o ladrão e tu tentavas prender-me porque eu tinha roubado as maçãs da mercearia do senhor Marco e da senhora Odília. Sempre quiseste ser polícia. Eu sempre quis ser ladrão.
Lembro-me de tanta coisa. Que merda de saudades. Lembro-me de te ter convencido a brincar às cabeleireiras na sala da casa da minha avó, onde vivíamos todos. Tu, Susana, com a voz fina e instável de 5 anos, perguntavas-me pela terceira vez, ó Sofia, não vais cortar a sério, pois não? E eu dizia-te, fica descansada que a tesoura é de brincar. Mas vira-te para a frente. Vira-te para a frente senão não brinco mais contigo. Merda de chantagens. As crianças são tramadas. E tu viravas-te para a frente. E eu cortar-te-ia o cabelo pelas orelhas. E tu gostaste. Gostaste da merda do penteado que eu te fiz, e se isso não é prova de que o amor nos torna cegos, não sei que prova mais seria. Sempre tive a certeza de que se eu te dissesse, faz isto, faz aquilo, senão nunca mais sou tua amiga, tu fazias. Uma amizade assim nunca mais tive. Isto soa mal, parece bullying talvez, mas era amizade pura, tanto de ti para mim, quanto de mim para mim. Eras mais do que uma amiga, bem mais do que uma melhor amiga, eras a minha irmã, Susana. E os irmãos discutem, e fazem a vida dos outros num inferno, chateiam-se, fazem as pazes, fazem chantagem uns com os outros, fazem mil e uma merdas, mas amam-se. E nós éramos irmãs de pais diferentes.
Agora moro no 1.º B desse prédio que não tem reis nem rainhas, a senhora Odília morreu com um cancro, a mercearia do senhor Marco passou a loja de animais onde comprei 7 peixes que acabaram todos por morrer, tu foste morar para Viseu quando ainda andávamos apenas no secundário e uns anos mais tarde ouvi rumores de que trabalhavas numa fábrica de material de automóvel. Que merda, queria que fosses polícia. Eu tirei jornalismo, trabalhei como redatora criativa em agências de publicidade e depois mandei tudo para o ar para ser assistente de bordo. Já morei em mais de nove outras casas, já vivi em 4 outros países, e estou finalmente de volta a Portugal. Gostava de te rever, mas não sei como te encontrar. Restam-me a merda destas saudades que não me levam a lado nenhum a não ser a escrever mais um texto de merda. E quando vou visitar a minha avó, na casa onde costumávamos todos morar, continuo a olhar da varanda do 3.º C para baixo, e procuro no teu varal as roupas das nossas bonecas penduradas. E por vezes, quando volto para minha casa, engano-me e vou bater ao 1.º C. Mas mesmo que esperasse que abrissem a porta, nunca mais serias tu, nem a tua mãe, nem o teu pai. O prédio já teve outros 3 porteiros. Mas nunca mais fui amiga de nenhuma filha de nenhuma outra porteira. Susana, tenho saudades tuas, merda. Vamos andar de bicicleta. Vamos vestir e pentear as bonecas. Vamos brincar com plasticinas. Vamos cantar ao microfone. Vem brincar comigo, Susana, senão nunca mais sou tua amiga.

 

 

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