Merda de férias

A minha casa da Pontinha cheira à minha mãe. Cheira a bolo de chocolate feito pela Olga. Cheira a jogos de xadrez com o meu pai, que desconfio que ou me deixa ganhar ou joga muito, assustadoramente mal. A minha casa da Pontinha sabe às manhãs de sábado, deitada na cama a ver os bonecos na televisão, e a pão com nucrema, ou nucrema com pão. Sabe àquelas pessoas de plástico de 9 centímetros às quais passo a vida a mudar as perucas e as pernas. Toma lá umas pernas azuis, para combinar com a camisa. É isso mesmo, a minha casa na Pontinha cheira a pernas azuis dos playmobis.
Mas que merda, hoje devo estar constipada. Deve ser isso, porque não sinto nenhum cheiro familiar. E para além de estar constipada, devo estar de férias em algum lugar. Sim, porque hoje não acordei no meu quarto cor-de-rosa. Nem acordei com a minha mãe a subir de rompão os estores, porque está um dia lindo lá fora, nem com as músicas dos Platters, ou com canções italianas. Hoje a minha avó também não me veio desafiar para um crapô. E o meu pai não chegou a casa, nem pousou a pasta de médico, parecida com a pasta do Dr. Freud, no armário da entrada. Os miúdos não discutiram sobre merdas ou não tiraram à sorte para ver quem leva o carro hoje à noite. O Pedro não atirou as culpas para cima do Bruno e o Bruno não se atirou para o sofá a ver televisão. Nenhum dos dois fez merda nenhuma. Não está ninguém em casa, ou será que eu é que me evadi de mim? Não. Devo estar de férias. Espero estar de férias. Mas que merda de férias.
Estranho. Quem é este homem que agora todas as noites dorme e acorda comigo? Que parece que sabe quem eu sou e do que é que gosto. Que sabe que tenho medo de morrer a dormir, e que tenho medo de enlouquecer, e outras merdas que pouca gente sabe de mim. Mas quem é este homem sentado ao meu lado com um anel de noivado igual ao meu, e que sempre se adianta e pede uma Coca-Cola por mim porque sabe que eu não bebo outra coisa? É giro, não vou dizer que não, e de vez em quando dá-me beijos na boca, que sabem bem, não vou dizer que não, mas não deixa de me ser um estranho. Que merda, devo estar de férias, para além de estar constipada. Quem é este estranho que me conhece? Será que me é alguma coisa? Um parente afastado? Um primo afastado apaixonado? Não. Não sei quem é, merda. E não é da minha família. Nós somos cinco lá em casa. Não há o que enganar nas contas. Sempre fomos cinco: A minha mãe, o meu pai, eu e os miúdos. A minha avó mora no quarteirão a seguir, tenho um tio-avô em Linda-a-Velha e uma tia-avó na Rua dos Soeiros, e é isso, não nos damos com mais ninguém. E lá em casa somos 5.
Estranho. Dizem-me agora que as minhas águas rebentaram. Mas eu não estou a chorar. Sim, sinto água a correr pelas pernas abaixo, qual fonte contrariada. Depressa, é o primeiro filho, acabei de ouvir. Mas filho de quem? Que merda é esta, afinal? O meu nome é Sofia e eu moro com os meus pais na Pontinha. Não tenho noivo, e não tenho filhos. Tenho 9 anos, e já disse: chamo-me Sofia e moro com os meus pais na Pontinha. Vestiram-me uma roupa azul, e gritam, repetitivos, Puxe, puxe. Vá lá, só mais uma vez. E eu, obediente e de pernas abertas, vejo um bebé a sair de mim, a chorar desalmadamente. Quem é ele? Parece um dos meus Nenucos mas eu sei que não é meu. Os meus Nenucos não choram, não funcionam a pilhas.

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