Merda do Corona

 

Tenho levado esta quarentena muito a sério. Cumpro todas as ordens e todos os conselhos médicos. Estou há mais de um mês em total isolamento social e confinamento. Mas que saudades que eu tenho de ser livre e suja. Sim, porque se eu agora não lavo as mãos durante pelo menos 20 segundos fico a sentir-me mal. Deve ser isto que as pessoas que sofrem do transtorno obsessivo-compulsivo por limpeza sentem. Aliás, no fim de isto tudo vamos todos parar ao psiquiatra. Eu já marquei a consulta para Julho, porque da mesma maneira que se esgotaram os rolos de papel higiénico, também se vão esgotar os psiquiatras. A título de curiosidade de merda, antes deste surto pandémico do Corona, a prevalência da doença na população em geral era de 3%. Fui informar-me para ver se me devia preocupar. No artigo dizem que um sinal grave é darmos por nós a repetir constantemente comportamentos ou rituais como limpar a casa, lavar as mãos ou organizar objetos. Ora, isto foram sem tirar nem por os meus primeiros 30 dias de quarentena. Hoje é o meu 44.º dia de confinamento, e não posso dizer que estou a melhorar, mas agora já não tenho mais nada para organizar. Está tudo. Os dias até se passam bem quando não tenho qualquer contacto com o exterior. Lá vou tocando piano, canto, leio cenas fixes e escrevo merdas, vejo Friends na Netflix, já vou na terceira temporada da terceira ronda; e enfim, sinto-me segura aqui a passear da sala ao quarto, do quarto à casa de banho, da cozinha ao terraço. Mas  no terraço não fico eu se ouvir alguém a tossir no segundo andar. Não vá o Corona ter pensamentos suicidas e se atirar da janela, cair em cima do meu cabelo, eu coçar a cabeça e depois levar as mãos aos olhos. E já está, tinoni, tinoni, já aí vai a ambulância. E nem saberia eu que autocarro me teria atropelado. Em casa sinto-me bem, mas quando tenho de ir lá abaixo à porta do prédio para ir buscar as compras que o Continente entrega apenas até à porta do prédio, e não de casa, a minha vida vira uma merda. E pronto para além daquele transtorno  obsessivo-compulsivo já estamos todos também com Agorafobia, que apesar do nome enganar não é a fobia do presente. É uma merda de uma perturbação caracterizada por sintomas de ansiedade em resposta a situações que podemos percepcionar como inseguras, e entre estas estão os espaços abertos, os centros comerciais e em casos mais graves, tudo o que está fora de casa. Sou só eu? Anyone? Algo que antes era para mim  certo e descomplicado, agora é uma cena de terror. Primeiro visto o meu macacão impermeável da mota, para que depois só tenha de lavar imediatamente uma só peça de roupa quando voltar para casa, macacão esse que me fica super bem, justo e sexy, pelo menos isso, só para depois estragar o look com o cabelo todo dentro de um gorro, esteja ou não um dia de sol, uma máscara cirúrgica com dois elásticos a forçar e a vincar os lóbulos das orelhas, e óculos para proteger os olhos, muito feios e que eu teria usado apenas para ir andar de bicicleta para o Monsanto que acabei por nunca conseguir ir, e estou pronta para ir enfrentar este nosso inimigo de merda que é invisível e silencioso. Penso para mim mesma, enquanto fecho a porta de casa à chave, em modo de repetição para não perder o foco, que não posso por as mãos na boca, nem no nariz, nem nos olhos. Não posso por as mãos na boca, nem no nariz, nem nos olhos. Não vou de elevador porque posso estar lá dentro e parar num piso qualquer involuntariamente e entrar um potencial infectado. E depois é aquela coisa, uns médicos dizem que o vírus paira no ar dentro do elevador durante 3 horas, o Jornal Expresso diz no mesmo artigo em parágrafos diferentes vá lá, que permanece no metal e no plástico cerca de 3 dias, e depois mais à frente diz 5 dias. Então, mando-os a todos à merda e vou de escadas. Estou a descer os degraus e a pensar não tires macacos do nariz, não tires macacos do nariz, a luz apaga-se e lá vai o cotovelo acender a luz. Não esfregues os olhos, não esfregues os olhos, e o cotovelo que até então não servia para nada a não ser para sentir a famosa dor de cotovelo num ou outro momento de inveja, agora é o artista principal escolhido para acender interruptores e empurrar portas. Não metas os dedos na boca, não metas os dedos na boca, e finalmente chego lá abaixo sem me ter encontrado com ninguém nas escadas, literalmente pela minha saúde, e fico à escuta para ver se consigo perceber se há ou não pessoas no lobby do prédio. A costa está livre, e eu avanço assertivamente com os dedos potencialmente contaminados em figas para que ninguém apareça, em modo astronauta. E depois começa o transporte insidioso da mercadoria. Chego à porta de casa, sem ter metido as mãos na boca nem ter arrancado pestanas nem espetado os dedos no nariz compulsivamente. Uma vitória. Os sacos todos à porta da entrada, na minha mente visivelmente contaminados com aquela merda, abro a porta e depois dois a dois, levo os sacos para o terraço. Na entrada descalço-me e ando pela casa sem tocar em nada até ao terraço onde começo a acumular as compras no chão que ficará contaminado claro está, e depois volto para a entrada, calço os sapatos para ir buscar mais sacos lá fora, descalço-me quando volto a entrar em casa, e faço isto mais umas 10 vezes até não haver mais sacos de compras. Deixei a chave de casa e os sapatos logicamente à entrada, na zona suja e potencialmente contaminada. Vou até à casa de banho lavar a merda das mãos durante 40 segundos porque a esta altura 20 segundos já não me satisfaz. E faço como me ensinaram: primeiro molho as mãos, deixo-as bem húmidas, depois pego numa quantidade suficiente de sabão para lavar toda a superfície das mãos, começo a esfregar as palmas das mãos uma contra a outra e com os dedos entrelaçados esfrego de novo as palmas e as costas das mãos. Lavo as costas dos dedos e limpo os polegares com movimentos circulares, faço movimentos circulares também na palma da mão para limpar as pontas dos dedos, esfrego os punhos também primeiro um e depois o outro, depois molho de novo as mãos com água corrente, com os dedos entrelaçados esfrego-os uns nos outros e finalmente seco tudo bem com papel. E isto é todo o sexo que tenho tido nestes dias de quarentena. E depois deste sexo de merda, coloco o macacão sexy na máquina de lavar e vou tomar banho. A primeira fase está concluída. Depois há que lavar com água e sabão os pacotes de arroz, feijão, macarrão, os enlatados vão para debaixo da torneira, e o meu telemóvel começa a tocar e eu não posso interromper porque senão vou contaminar o telemóvel e depois vou ter de o higienizar e acho que não lhe tem feito bem tanto álcool gel porque já se começa a apagar, então continuo a limpar as frutas e os legumes com uma colher de sopa de lixívia para 1 litro de água. E depois lavo bem as mãos depois de limpar os alimentos, antes de cozinhar, depois de cozinhar e antes de comer, as palmas, o dorso, os pulsos, as pontas e entre os dedos, e estou prestes a sair para a rua à procura de corrimãos do metro para lamber demoradamente, ir à procura de paragens de autocarro para tirar muitos macacos do nariz e ir colocando um a um debaixo dos bancos das paragens como uma boa estudante do ciclo preparatório, e depois terminar por esfregar as mãos no chão da rua e espetar os dedos nos meus olhos até fazer sangue. Tudo isto só para me certificar de que apanho esta merda do Corona e terminar de uma vez por todas com esta merda toda.

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