Merda de incongruências 

Significado: ausência de congruência (olhe, obrigadinha Sr. Dicionário pela grande ajuda), de conformidade, concordância, harmonia, adequação, correspondência, identidade, e de mais uma série de merdas. Ora pois, se eu conseguir não me espalhar para outros assuntos, vejamos as incongruências de merda, desta merda de quarentena. Os médicos da Suíça dizem A, os médicos de Portugal dizem B, C, D, e há quem diga só merda. Desde o dia 12 de Março que me cerrei ou encerrei em casa sozinha, por livre e espontânea vontade, isto porque prezo muito a minha consciência limpa, seja em tempos de corona ou não, e porque principalmente em tempos de merda como estes, quero continuar a dormir descansada sem pensar que poderia estar contaminada e ao ser assintomática poderia passar sem saber o vírus ao João, que sem saber passaria à sua mulher Joana, que passaria à Joaninha que passaria por sua vez ao avô João que acabaria num caixão. Hoje é o meu 42.º dia em quarentena portanto preparem-se para mais uma merda de texto. No meu último dia como cidadã livre antes de ter iniciado a minha prisão domiciliária, fui às compras para me abastecer porque não tinha comida nenhuma em casa. Aviso já que não, não trouxe merda de rolo de papel higiénico nenhum. Primeiro, porque I’m a lady e não vou à casa de banho, segundo, porque não sou açambarcadora, e em quarto porque sei por A mais B que só os outros é que fazem merda. Não escrevi o em terceiro só para ver se estavas com atenção. Bem, fui de máscara, quando ainda não estávamos em estado de emergência e todos olhavam para mim como se eu fosse paranóica. Não sou, nem nunca fui paranóica. Só que sempre consegui ver para além do meu nariz, e era lógico que isto chegaria onde chegou. Para todos os que me chamaram paranóica, deixo aqui a bela merda da frase que não gosto de dizer mas que hoje vou abrir a excepção: eu avisei. Ah, soube-me a pato feito na Bimby. Pois é, uma coisa básica e lógica na minha opinião, que sempre foi a de todos devemos usar máscaras sempre, só agora é que vai passar a ser mandatório. Só agora, é que o Serviço Nacional de Saúde e a sua representante Marta Temido finalmente perceberam que pode haver pessoas a transmitir o vírus sendo assintomáticas. Ou não quiseram dizer que sabiam. Não sou cientista, não sou médica, não sou profissional de saúde, mas a massa cinzenta que tenho na cabeça não serve para construir muros cor-de-rosa. Usem máscara, não usem máscara, a máscara dá uma sensação falsa de segurança, afinal a máscara protege, não protege totalmente; a distância social deve ser de um metro, a distância social deve ser de dois metros, já que não sabemos ao certo vamos dizer metro e meio; o período de incubação é de no máximo 5 dias, afinal é de 14 dias, mas há um caso confirmado de 28 dias de encubação, vamos então concordar que o período de incubação é de 2 a 14 dias, não podemos tomar ibuprofeno nem outros anti-inflamatórios, afinal podemos tomar ibuprofeno e outros anti-inflamatórios, afinal não há provas conclusivas se podemos ou não tomar ibuprofeno e outros anti-inflamatórios. Ora, decidam-se. Uns dizem que vamos todos morrer mas o Bolsonaro que, para quem não sabe, é o presidente barra assassino-mor do Brasil, diz que é um resfriado. Incita aos cultos, e diz que a vida não pode parar, que muitos vão morrer mas que a vida é mesmo assim e que a ele o vírus não afectará porque é um atleta. E os outros que não o são, que vão à merda. Aliás, isto vem mesmo a calhar para o Bolsonaro, que deve andar ansioso por ver o vírus espalhar-se pelas favelas ou multiplicar-se pelos idosos que para ele igualam a um grandessíssimo peso na sociedade, que ele gostaria que fosse morto. Quanto à China, foi só a sexta vez que fez mudanças na forma de contar infetados, o que obviamente preocupou os especialistas, por não podermos fazer um levantamento rigoroso. Bem, eu deixei de vos ouvir a todos há muito tempo. E é tudo uma merda, sim, é uma merda estar em quarentena, mas bem pior é estar todos os dias nos hospitais a correr riscos para salvar pessoas, e depois voltar para dormir numa caravana alugada porque o Dr. João não pode ir dormir a casa. Graças a Deus, o meu Dr. Pai está reformado. A única coisa que peço aos meus Pais e à minha Avó é que fiquem em casa, resguardados, e eles estão. Mas o que se tem visto em todo o mundo, é que os mesmos pais e os mesmos avós que quando éramos pequenos nos diziam vezes sem conta para pormos o casaco para não ficarmos doentes, são os que mais insistem por sair e ir dar uma volta. Faço questão de sublinhar que os meus pais e a minha avó se estão a portar muito bem; e que esta merda de texto não é um queixume por estar em casa. Até porque para mim estar sozinha não é um problema, é um prazer na realidade, e estou com um bocado de receio de quando tudo isto acabar, eu queira permanecer em quarentena. Não preciso de falar com estranhos nem de usar sapatos de salto alto. São só dois benefícios assim na ponta da língua. Com a quarentena eu até lido muito bem; já não posso dizer o mesmo em relação às pessoas que adoram ir para a varanda às 8 da noite bater palmas em agradecimento aos profissionais de saúde, mas depois essas mesmas pessoas são as que saem de casa sem razão válida; e é preciso inundarmos Portugal com polícias em cada curva e levantar outras medidas restritivas para que as pessoas percebam que devem ficar em casa. Eu não tenho batido palmas à janela mas tenho mostrado o meu respeito, admiração e a minha gratidão ficando simplesmente em casa, em absoluto isolamento. Palmas levam-nas o vento. As acções contam mais. E aquelas pessoas que vão a correr para os supermercados e em vez de comprarem vitaminas como suplemento para aumentar a imunidade, compram todos os rolos de papel higiénico? Tentam não estar próximo de outras pessoas mas depois lutam fisicamente pelo último rolo. Esgotam as máscaras e o gel desinfetante mas depois continuam a tossir e a espirrar para as mãos. Passam a vida a queixar-se que passam mais tempo com colegas de trabalho do que com a família, mas depois quando podem passar tempo com a família, passam a mesma vida a queixar-se dos filhos e dos parceiros e já querem é ir ter com os colegas. A taxa de pedidos de divórcios já cresceu mais de 70%. Isto provavelmente é mais uma merda que eu inventei, e não estará suportada por nenhuma tabela científica. Pois é, como se a vida não tivesse já a sua dose de incongruências, a quarentena trouxe mais umas quantas para a nossa vida. Mas há umas poucas boas. Normalmente sinto-me na merda quando estou desempregada. Neste momento a quarentena alivia-me essa sensação de insucesso. Agora posso simplesmente atirar todas as culpas para a merda do vírus e lavar as minhas mãos de qualquer responsabilidade, literalmente. E tenho lavado obsessivamente. Aposto em como a taxa de pessoas contaminadas com o Covid-19 que sofrem do transtorno obsessivo compulsivo por limpeza é zero. Eles é que sabem; eles, as mulheres que usam burcas e o Pilatos também o sabia. Mas sim, estou desempregada porque o curso de formação que estava a fazer na que seria a minha futura companhia de aviação ficou suspenso, quando Portugal ficou suspenso. Quando o mundo parou e os aviões ficaram no chão. Sou assistente de bordo e digo-vos que esta situação toda tem semelhanças incríveis com as merdas dos standbys, em que a nossa companhia aérea nos paga para estarmos em casa de assistência de pijama no sofá a ver Netflix. Estamos de malas preparadas, o uniforme limpo, passado a ferro e preparado para ser vestido a correr porque às vezes pode tratar-se de uma emergência irmos substituir alguém que ficou doente para irmos passar 8 dias na Jamaica com tudo incluído naqueles resorts 5 estrelas. Por isso, se eu me quiser alhear a todo o sofrimento que vai pelo mundo, e acreditem que tive de o fazer porque estava a afetar-me demasiado, e pensar que estou em standby, acaba por ser parecido. Com a diferença que desta vez eu tenho a certeza de que não me vão chamar para ir trabalhar e quem me está a pagar para ver Netflix é a segurança social. Quando paga, porque é outra merda de instituição cheia de incongruências. São muito eficientes na hora de cortar os subsídios, aí não precisam de qualquer tipo de documento para servir de prova, mas para pagar o que nos é de direito precisam de um documento que foi enterrado no vale dos Reis no Egipto. E quando eu consigo desenterrá-lo, pedem-me que o traduza, e quando o traduzo, pedem-me que vá autenticar a merda do documento que sempre foi totalmente desnecessário e quando o apresento finalmente como prova, perguntam-me onde está a múmia do Tutancamon. Toda esta conversa de merda, entre e-mails trocados ao longo de meses. Quando aceitarem o meu pedido do subsídio de desemprego já estarei a trabalhar. A próxima vez que eu quiser mandar alguém à merda digo-lhes para irem à Segurança Social. Ou melhor, em tempo de quarentena: Segurança Social Directa; que também variadas vezes se encontra em manutenção para nosso benefício. E se tiverem dúvidas se estão ou não contaminadas digo-lhes para ligarem para o SNS 24 e se tiverem dúvidas se devem ou não usar máscara, perguntem à Marta. Não à da Ok! Tele-seguros; perguntem à Ministra da Saúde, apesar de temer que fiquem na mesma ou ainda mais confusos. Ora, eu digo que ninguém sabe é merda de nada, e isso é a única coisa em que todos concordamos. Fiquem em casa, comam bem, durmam bem, façam exercício, cuidem dos vossos e leiam coisas mais interessantes que estas. Sim, porque eu já vos tinha avisado que os meus textos são uma merda, portanto a responsabilidade de estarem a perder tempo é toda vossa. E em relação a isto não dá para lavarem as mãos.

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