Merda de pessoas

Caixa de Kleenex. A minha amiga que merecia bem melhor é uma bonita ultra suave folha que serve para assoar ou limpar ranho, enxugar lágrimas, or worse. Eu, e tu que me estás a ler também és. Ou somos, ou já fomos, ou seremos algum dia uma folha de Kleenex de alguém. Uma das muitas ultra suaves folhas com extrato de algodão ideais para uso diário da caixinha de Kleenex que está na mesa de cabeceira do gajo de quem se gosta. Ou gaja. Suave e resistente para o momento em questão. Perecível. Substituível. Igual para eles a tantas outras folhas. E quando essa caixa acaba, também a caixa é deitada fora e substituída por outra, com mais folhas. Somos tal e qual as folhas ideais para manter a higiene do seu animal de estimação ou perfeitas para limpar o seu teclado do computador que depois de usadas são deitadas fora. Folhas com qualidade e com garantia da marca de lenços Kleenex. Vá lá. Podíamos ser folhas de uma caixa de uma marca qualquer que ninguém conhece e que não tem a mesma qualidade. Há sempre uma merda pior. Na altura em que eu frequentava a Universidade, há quase 15 anos atrás quando ainda não havia smart phones e pagavas caro por cada mensagem de texto, as relações eram bem mais simples e as pessoas que usavam outras pessoas e as deitavam levianamente fora eram primeiro que tudo a minoria, e depois olhados de lado pelo resto de nós que actually namorava com alguém, respeitava essa pessoa e investia o tempo em conhece-la na realidade sem jogos, sem merdas. Conhecíamos alguém na rua, num bar, através de amigos, no metro, na universidade e se gostássemos de sair com essa pessoa, saíamos mais vezes, dávamos um beijinho ou dois e voilá estávamos a namorar. Não havia dúvidas. E depois de dormirmos com a pessoa, para o espanto de todos nós de agora, dormíamos de novo com essa pessoa, e de novo, e de novo, e um dia piscávamos os olhos e já namorávamos há 2 anos. Se queríamos ver a pessoa, dizíamos. Se quiséssemos ligar à pessoa, ligávamos. Não havia jogos, nem as regras dos 3 dias, nem workshops no youtube em como conseguir transformar o sexo casual com alguém num relacionamento, nem vídeos no youtube com psicólogos ou conselheiros or relationship coaches a guiar as pessoas no início de uma relação, ou em como estar disponível mas não estar demasiado disponível, rejeitar uns quantos convites sem rejeitar demasiados convites, para manter o interesse dele em ti, nem vídeos que ensinam como saber se o gajo é um player ou se é boyfriend material. Os relacionamentos entravam em crise com o tempo, depois de estarem juntos há 5 ou 7 anos, ou ao fim de 15 anos de casados. Os relacionamentos hoje em dia estão em permanente crise ainda antes de o serem. Agora com o Tinder, a vitrine de folhas de papel Kleenex é inesgotável, e a próxima folha parece mais suave que a última que foi usada só uma vez, e usar uma folha de cada vez também já não é suficiente. A folha ainda não foi para o caixote de lixo oficialmente e já outra foi puxada para ser testada. Não digo que sejam só os homens a fazerem isto, as mulheres também. A igualdade do sexo chegou à cidade, para o bem e para o mal. E como uma boa avó que diz frequentemente que No meu tempo as coisas não eram assim, digo-vos eu também que no meu tempo o homem ou a mulher que traía a mulher ou o marido se não tinha vergonha do que fazia, também não o publicitava. Hoje em dia há o orgulho da vergonha. A minha amiga Joana fez match com um gajo e depois foi ler a descrição dele lá naquela vitrine que em vez de Tinder devia ser chamado de Kleenex. Dizia: Casado à procura de novas aventuras. Mas que merda é esta? Eu disse-lhe Diz-lhe que és a mulher dele para o assustares. Ela assim fez e ele respondeu Eu sei que a minha mulher tem Tinder também e que se safa bem melhor que eu. Sim, ele disse safa-se. Pronto, não estragam dois casamentos. Esta é a merda de relacionamentos que existe hoje em dia. Está bem, temos de respeitar e tal, aceitar e outros blá, blá, blá, mas continuo a ter a minha opinião e a minha opinião é de que relacionamentos desses são de merda. Antigamente as pessoas depois de saírem umas quantas vezes e acharem que a relação não tinha futuro, enfrentavam a situação, e diziam à outra parte Não está a resultar para mim, ou pelo menos um Acho que devíamos acabar. Depois há uns anos veio a moda do Dar um tempo. E a moda pegou, porque as pessoas cada vez sentem menos respeito pela outra, a palavra de cada um vale cada vez menos, e porque tirava um pouco da responsabilidade de quem terminava a relação, deixava um fio de esperança que a coisa podia não terminar para sempre, e era assim mais fácil para quem terminava. Ainda que mais terrível para quem ficava a espera que voltassem. E agora já nem isto acontece. Agora a moda é as pessoas desaparecerem. Morrerem. É o tempo do respeito zero. Foram comprar cigarros lá à mercearia da esquina e nunca mais voltaram. Vão ao ginásio e ficaram lá presos eternamente agarrados à máquina de musculação ou debaixo de algum peso de 5 kg. Dizem que te ligam no dia seguinte e cortaram-lhes as mãos e então nunca mais te puderam ligar. Tu preocupada mandas uma mensagem Então está tudo bem? Tínhamos ficado de ir à praia? Já voltaste do Porto? Nada. A pessoa foi ao Porto e nunca mais voltará. O Porto, essa cidade tão perigosa que o teu date dos últimos 4 meses foi lá passar dois dias e foi raptado, e atenção sem teres recebido qualquer pedido de resgate. E a tua resposta é silêncio. E há silêncios que te gritam aos ouvidos. A pessoa que entretanto está desaparecida leu a tua mensagem, leu as tuas últimas mensagens, viu que ligaste umas duas ou três vezes, e continua fechada na cave só com possibilidade de ler as tuas mensagens mas sem coitadinho poder responder. A pessoa que saiu contigo nos últimos meses e que já dizia ter saudades, onde já passavas noites em casa, onde já tinhas a tua escova de dentes junto à dele, morreu subitamente. Mais uma vida ceifada. Mas ainda morto como por milagre ele lê as tuas mensagens, até que o defunto te bloqueia de repente. Foste bloqueada por um fantasma, e daí talvez o termo para esta nova moda de término de namoros: Ghosting. E surgiu um novo verbo também. I ghost, you ghost, she and he ghosts, we ghost, you ghost, we all fucking ghost. Não, eu não faço isso. Recuso-me a tratar as pessoas como merdas de folhas ultra suaves de papel Kleenex. Não sou religiosa mas tento seguir a regra de ouro comum a todas as religiões: tratar o outro como gostaria de ser tratado. Eu não desapareço, não morro, não fico eternamente no ginásio, ninguém me cortou a merda das mãos. Se não estou interessada em continuar alguma relação, enfrento a pessoa e exponho os meus sentimentos ou a falta deles. Não é difícil. É só não sermos uma merda de pessoa. Quando um relacionamento termina é doloroso mas invariavelmente aprendemos a lidar com isso quando chegamos a uma conclusão. Porque temos a oportunidade de falar e ouvir a outra pessoa nem que seja a dizer que já não quer estar connosco. Um final claro foi marcado e podemos iniciar o processo da dor, e o processo da recuperação. No ghosting, que vem da palavra em inglês ghost ou fantasma, ficas pendurada naquele fio que seca a roupa, com umas poucas molas, ao frio e à chuva, sem saber porque é que te penduraram ali, e se algum dia te vão resgatar. Mentalmente também presa nessa dúvida: mas que merda aconteceu? Ficas presa ou preso na incerteza e nem mereceste da outra pessoa o respeito de uma explicação final. É a merda de um fim aberto que deve provocar uma grande dor psicológica de auto-dúvida e de impotência. No início ficas preocupada ou preocupado, porque algo sério pode ter acontecido à outra pessoa. E o chamado sistema de monitoramento social inicia-se: Fazes o teu scan incessante mental sobre que merda poderia ter acontecido sem que encontres qualquer aparente motivo, sim, porque até à data da sua morte, e descanse esse merdas em paz, estava tudo perfeito até essa pessoa ter desaparecido sem deixar vestígios nem migalhas de pão ou explicação. O que foi que disseste ou fizeste que fez com que a outra pessoa se afastasse desta maneira? Ou que não disseste ou que não fizeste? Ou que disseste e fizeste e pudesse ter sido interpretado errado? Há uma infinitude de merdas possíveis. Podias ter evitado? Surgem as dúvidas e a tua auto-estima cai mais um pouco. You find no closure. Sem uma explicação é difícil seguir em frente. O teu cérebro procura incansavelmente por possíveis causas que não encontrarás jamais, porque a única razão para que tal tenha acontecido essa nunca te ocorre: esse gajo é um merdas, that’s all. Uma coisa posso dizer a todas as pessoas que foram ghosted por alguém que parecia apaixonado por elas, se é que serve de consolo: Essas pessoas que se transformam em fantasmas não são as pessoas certas para se ter um relacionamento próximo e honesto, por isso na verdade fizeram-te um favor. Um favor de merda sim, mas não obstante, um favor. Agora pára de ler esta merda, pára de pensar naquele merdas, e vai tratar de ti, porque tu sim mereces muitas coisas boas. E eu, com este texto e depois de ter atacado veementemente as muitas pessoas que praticam ghosting, acabei de muito provavelmente perder uns quantos leitores. Bem, seriam leitores de merda. 

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