Merda de contos de fada

Crescemos a ouvir estórias de princesas que são salvas pelos príncipes encantados, de princesas que são envenenadas por uma bruxa feia e má e que só voltam à vida se uma merda de um príncipe decidir sair da sua vidinha para ir ter onde a princesa adormecida está deitada numa espécie de coma alcoólico à espera da visita de uma merda de um príncipe so called encantado que para além de não ter sido convidado entra no seu quarto e depois lhe dá um beijo não consensual. Imagine que acontecia isto consigo? E se depois para além de tudo tivesse de casar com essa pessoa? O beijo não consensual é o destino comum de muitas princesas como a Branca de Neve e a Bela Adormecida, e ironicamente é essa violação o final feliz. Sou só eu que vejo isto como perturbador? As duas são supostamente salvas por príncipes que não as conhecem e que eles resolvem beijá-las. São estas merdas de contos de fadas que existem desde sempre no nosso imaginário, e depois quando na vida real não somos encontradas por esse tal príncipe ficamos na merda e depois lá nos faz comichão no pé aquele síndrome da gata borralheira que não pode ir ao baile e que gradualmente nos vai comendo o tornozelo e depois a perna e os joelho até que não sobra nada. Em vez de princesa, sentimo-nos uma eterna gata borralheira com os olhos inchados já vazios de lágrimas, manchados de lápis de olhos e para sempre calçada com só um sapatinho de cristal ou more likely comprado na feira da ladra ou numa loja chinesa ou comprada na Tailândia e mandada vir por correio, e lá estou eu só com um sapatinho de salto alto para que eu viva eternamente coxa, descompensada e desnivelada, ansiosamente à espera da merda do príncipe. Merdas de contos de fada. Mas estes não tiveram sempre um final feliz, e na minha opinião eram então muito mais úteis e relevantes para as crianças ou para as jovens, porque alertavam para os perigos da vida em vez de as encher de ilusões e mensagens desatualizadas. Tanto os contos da Bela Adormecida como a Bela e a Fera por exemplo eram contos que tinham de início um cenário sombrio marcado por mortes, medo, traição e até mesmo violações mas para se contornar essa realidade sombria, com o tempo, novos finais foram acrescentados. Numa das versões iniciais da Bela Adormecida a princesa era manipulada e enganada pelo príncipe que a engravidava e depois abandonava. Em algumas versões da Bela e a Fera, a Fera tentava violar a Bela, noutras ela chegava a casar-se com a Fera que voltava a transformar-se num homem gentil durante os tempos da conquista, óbvio, óbvio, mas depois os dois vivem um péssimo casamento porque o príncipe era na verdade um homem violento e tóxico. Nos dois casos a moral da história era o de alertar as mulheres quanto às falsas promessas que os homens faziam para conquistá-las. Hoje em dia não pensamos nisso porque metade dos casamentos resulta em divórcio, e grande parte das pessoas casa não uma mas duas ou até três vezes, mas ser-se obrigada a passar o resto da vida com uma fera monstruosa era um risco real na Europa dos séculos passados. Assim como Bela, muitas Anas se viam forçadas a casar com maridos arranjados organizados por conveniência. Meninas da nobreza eram cedidas a partir dos 12 anos de idade em troca de alianças políticas entre reinos vizinhos, por exemplo. Hoje chamar-se-ia a isto de pedofilia, prostituição forçada e tráfico de mulheres. Mas na altura para os reis era muito mais prático oferecer ao inimigo uma filha em vez de entrar em guerra com ele. Grandes pais. Se o meu pai me fizesse isto agora eu mesma entrava em guerra com ele. Mas as mulheres mais pobres também não escapavam dos casamentos forçados e eram trocadas como mercadoria porque vinham acompanhadas do dote. Na idade média a transferência do dote correspondia à maior entrada de dinheiro que um homem recebia na sua vida e isso tornava as mulheres reféns dos interesses dos outros. E a missão da esposa era servir e obedecer. Um ditado inglês do século 16 traduzido para português fica qualquer coisa como Um cão, uma nogueira e uma mulher: quanto mais se bate, melhores elas ficam. Bater na mulher não era crime e até ao século 9 os maridos tinham o direito de matar as esposas. Claro que nem todos os maridos eram uma merda mas o casamento na altura era tal e qual igual a uma roleta russa, um jogo de sorte ou azar, e o medo de se casar com feras estava presente na vida de todas nós. Uma das versões mais antigas da Bela Adormecida, no século 17, a princesa espetava o dedo numa farpa de linho e ficava aparentemente morta deitada num caixão. É quando aparece então um príncipe que se encanta com sua beleza e sem hesitar o príncipe resolve violar a princesa que está neste espécie de coma ou morte aparente e voltar para casa em seguida. A princesa continua em coma mas agora grávida de gémeos. Quando os bebés nascem, são eles que ao procurarem o peito da mãe para se alimentarem acabam por mamar no seu dedo sem querer, o que tira a farpa do lugar e faz com que a Bela Adormecida finalmente desperte. A princesa acorda confusa, como seria de esperar se eu adormecesse virgem e acordasse com dois putos parecidos comigo, e para procurar o pai dos miúdos vai até o reino vizinho. Acontece que o príncipe violador já era casado, esta parte pelos vistos nunca passa de moda, e quando a sua mulher descobre que ele teve filhos com outra, resolve matar as pobres das crianças que não pediram para nascer e servi-las para o príncipe comer. Felizmente, o cozinheiro encarregado do infanticídio esconde-os em casa e provavelmente serve um prato de porco, não sei, isto não dizem no conto. Então a rainha traída resolve vingar-se da pobre da princesa e manda montar uma enorme fogueira para a queimar viva. A princesa está quase a ser atirada para a fogueira quando o príncipe que, mesmo tendo interrompido a vingança não deixa de ser uma merda de um príncipe, para além de de estuprador acrescenta homicida ao seu registo criminal: atira a esposa para o fogo e finalmente se casa com a Bela ex-Adormecida. Até à parte do casamento, este conto poderia ser útil para descrever e alertar as jovens sobre os perigos do mundo e contra a maldade de algumas pessoas. Isso sim era uma mensagem digna de ser passada às crianças que são puras e desconhecem a merda do mundo em que vivemos, mas estragou-se tudo quando se transformou a estória num final dito feliz em que o casamento resolve todos os males e em que a nossa felicidade não parece estar em nós mas sim num príncipe qualquer desconhecido, seja ele uma pessoa de merda ou não. On a side note, mas que raio foi essa vontade da Bela de sair para procurar e querer conhecer o seu próprio violador e levar aos filhos a conhecer uma pessoa assim e acabar por casar com ele? Síndrome de Estocolmo? Já há muito tempo que os contos de fada foram alterados para terem um final aparentemente feliz. A pobre da maltratada da Cinderela não pode ir ao baile porque a madrasta a impediu, mas magicamente recebe o vestido e os sapatos e vá lá mostra um bocadinho de iniciativa quando mesmo tendo sido proibida vai até ao palácio, e depois antes que se transforme numa abóbora, coisa que acontece frequentemente a nós mulheres a partir da meia-noite, acaba por fugir perdendo a merda do sapato que depois consegue a pedido do príncipe calçar e finalmente casa com o príncipe e é raptada para um reino distante e vivem felizes para sempre. E digo raptada porque ela não vai de lua-de-mel, vai só com a roupa do corpo em cima do cavalo do príncipe que a escolheu sem lhe ter perguntado se ela também queria esse destino e que a leva para um reino distante, o dele claro, que ela não sabe onde fica e quando chegar não tem nem um telefone para dizer que chegou, nem tem facebook para poder fazer check-in ou instagram para poder fazer uma hashtag da cidade. Soa a rapto. Eu cresci a ouvir estas merdas destes contos e a sonhar com bailes, e príncipes encantados e sapatinhos de cristal, mas agora do alto dos meus 37 anos, que até ontem erradamente pensava que eram 36, eu não sei se quero mais ser a princesa resgatada pelo príncipe encantado. Então a merda do príncipe pensa que pode chegar, a qualquer hora, sem avisar, sem ser convidado, salvar a princesa que na realidade não estava metida em nenhum problema e sentir-se no direito de a levar para longe para eternamente ser aprisionada noutra torre igual mas diferente em que a única coisa que muda vai ser o corpo dela ao dar à luz à nova geração de princesinhas falsas, infelizes e confusas e à nova geração de príncipes arrogantes que por sua vez irão sequestrar, porque não há outra palavra, outras princesas e levá-las para reinos distantes? Eu não quero ser princesa, quero ser dona da minha própria vida e aventurar-me pelos bosques sozinha, morder as maçãs que eu quiser morder porque se não me matar vai me tornar mais forte, e conhecer o mundo, ir de sandálias ou ténis para estar confortável, ir descalça se assim me apetecer, vestir umas jeans que são bem mais práticas do que merdas de vestidos de baile que se sujasse teria de ler demasiadas instruções em como o vestido não se pode lavar a seco mas não se pode lavar na máquina ou se for na máquina tem de ser lavado a menos de 30 graus, não pode ser seco com luz directa do sol nem na máquina a de secar, ou seja se quisermos lavar a merda do vestido vai dar trabalho. Levo jeans está decidido e sempre que me sentir em perigo serei eu própria a salvar-me, em vez de colocar a minha vida ou felicidade ou capacidade de resolução de problemas nas mãos de uma merda de príncipe que provavelmente não saberá o que fazer assim que o cavalo desaparecer da página e depois de se ler a palavra Fim com ponto final no fim dessa merda de livro. Convenientemente não nos contam como vai ser a merda da vida da princesa com esse príncipe. Os contos de fadas hoje em dia transmitem uma ideia de sociedade desatualizada, superficial e passiva em que eu mulher não resolvo problema nenhum. Mas há que ter uma coisa em consideração antes de tirar merdas de conclusões também. É que estas histórias são muito antigas e a sociedade mudou muito de lá para cá e como tal devíamos mudar de contos. Os contos clássicos dos irmãos Grimm que serviram de base para muitos filmes da Disney por exemplo foram escritos entre 1812 e 1857. Desde então, é normal que as mensagens e papéis representados pelas várias personagens não se apliquem mais à sociedade moderna, e principalmente absurda para nós agora era o papel da mulher na sociedade de então: indefesa, guardada por um dragão que seriam os pais ou um vilão talvez a madrasta, à espera de ser salva por um príncipe e com isso ser feliz para sempre, já que o divórcio era uma coisa mal vista e com um forte estigma social. Mas contos de fada com esta visão obtusa e obsoleta da sociedade podem vir a prejudicar as crianças mais tarde. A mim prejudicaram e não tenciono perpetuar este ciclo vicioso com filhos que poderei ou não vir a ter. Um estudo da Universidade de Purdue nos Estados Unidos da América analisou mais de 160 contos dos irmãos Grimm e concluiu que a noção de beleza é abordada em mais de 90 por cento deles, em que a imagem convencional das princesas é a de uma mulher bonita e magra e pela qual os príncipes lutam, e em que as vilãs são descritas como feias. Só isto já é prejudicial o suficiente. E o príncipe encantado, aquele homem perfeito que um dia surge para nos resgatar do tormento e servir a felicidade eterna? No mundo real ninguém é perfeito e a felicidade deve estar dentro de nós e não dependente de um desconhecido qualquer. A ideia de que o nosso parceiro tem de ser perfeito é uma irrealidade que nos vai trazer desilusões. Então mas que merda de mensagem é esta a dos contos de fada? É inútil, ultrapassada e perigosa. Quem é que ao ser raptada por uma merda de um estranho num cavalo e levada para longe seria feliz para todo o sempre? Eu vivia era feliz para sempre sem estes contos de fadas de merda. A vida é minha, não acredito em príncipes encantados, não preciso de nenhum e prefiro ser eu a escrever a minha estória: Era uma vez uma princesa que se salvou sozinha. Fim.

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