Merda de ser inteligente

Pensa que é inteligente? Então tenho más notícias para si: os inteligentes envelhecem mais depressa, vivem mais angustiados, sofrem de mais doenças, e morrem muito mais cedo ou acabam por matar alguém. Grande merda, não é? Os inteligentes passam também mais tempo a olhar para computadores ou para iPads e a ver e a rever material digital do que os burros, essas pessoas abençoadas. Diga-me: quando morrer espera que alguém se lembre de si, com lágrimas nos olhos enquanto assoam o nariz pingado, só porque conseguiu manter a merda caixa de emails organizada, o último antivírus atualizado, ou porque foi campeão desse jogo de tabuleiro online que ninguém conhece a não ser os seus amigos de quatro-olhos; ou será que está à espera de ser recordado porque dominou a língua Jedi, ou porque arrasou naquele site de internet que andou a criar durante meses? Irá alguém elogiá-lo por ter sido um adicto no trabalho? Não me parece, por isso deixemo-nos de merdas. Comecemos a viver como os burros vivem. Eles são mais felizes. Saia de casa sem medo e faça uma merda qualquer para que mais tarde possa contar uma estória de merda aos seus netos, mas que os vai fazer lembrarem-se de ti com carinho. É que não é inteligente ser-se inteligente. Vejamos os japoneses, por exemplo: são considerados o terceiro povo mais inteligente do mundo e estão em primeiro lugar dos workaholics. São felizes? Não, muito pelo contrário: o suicídio no Japão é um grande problema social nacional por causa da cultura; os Japoneses consideram o suicídio uma resposta moral e responsável e imprescindível em alguns casos, eu diria, em demasiado casos. Os burros vivem a vida da mesma maneira que ela flui, naturalmente, como acontece e não questionam coisas que não podem mudar, não são perfeccionistas, não se auto-analisam e são os que vivem felizes para sempre. Os inteligentes vivem em agonia. É tudo o que fazem: sofrem. Li em algum lado que as pessoas mais inteligentes são as que têm maior tendência a vir abusar do álcool, do cigarro e das drogas duras; estudos mostram mesmo uma correlação entre um QI elevado e a psicopatia. Fantástico, não? Um estudo feito pela Universidade de Londres em 2009 revelou também uma relação entre um QI elevado e ficar acordado pela noite adentro e dormir até tarde; eu devo ser muito inteligente então. Por isso, enquanto que os chamados burros, que parecem de certo modo ser mais espertos que os inteligentes, vão para a cama ou saem com os amigos; para os inteligentes as horas noturnas são as mais rentáveis e a altura mais esperada do dia. Assusta-me também o facto de mais de 30 estudos ligaram a elevada inteligência às doenças mentais, e incluídas nelas estão o distúrbio de personalidade bipolar e a esquizofrenia. Só notícias de merda, eu sei. O pintor Vincent Van Gogh, o compositor Robert Schumann, o poeta Emily Dickinson e o escritor Ernest Hemingway, só para mencionar alguns, enquadram-se na perfeição na fotografia de grandes cérebros que lutaram contra episódios de psicopatia documentada e que quebraram face a adições que culminaram na morte pelas próprias mãos. Ser inteligente é uma merda. Não quero mais. Quero ser burra e feliz e ter uma vida normal. Devia ser possível acrescentar à lista dos direitos humanos o nosso direito de ser burro. Ignorância é felicidade; é paz de espírito. Pensar demais deprime: o quão desprezíveis as pessoas na realidade são, o quão terríveis nós próprios podemos ser, o quão imperfeito é o amor, o quão perturbado será sempre o mundo, o quão insubstancial a nossa existência é, o quão impotentes em relação à nossa própria vida estamos, o quão rapidamente estamos a morrer; às vezes penso até consigo ouvir as minhas células a morrer, ou a minha pele a abrir brechas e a quebrar-se em rugas tal e qual como a Terra quando se desidrata; a cada ano os meus ossos encolhem em tamanho e densidade. É doloroso o quão rapidamente todos nós voltamos ao pó. É este estúpido envelhecimento precoce que acontece aos inteligentes. É este estúpido stress crónico que acelera o envelhecimento biológico. A ciência confirma os efeitos negativos do stress no nosso sistema imunológico, assim como na forma como respondemos às inflamações. Dê cá menos cinco, fellow ser inteligente e infeliz, porque aparentemente nada de bom vem do facto de se ser inteligente. Vamos ser burros. Faz bem à alma, à mente e à pele. A minha mãe diz-me muitas vezes que o segredo da vida na realidade está na capacidade de nos conseguirmos “fingir de burra”. Passou-me agora pelo pensamento que provavelmente muita gente me iria odiar por tê-los chamado de burros, mas depois ocorreu-me esta merda: Todos nós, eu incluída, pensamos ser pessoas inteligentes; se somos ou não, essa é uma outra questão. Eu posso ser uma grande burra por pensar que sou inteligente mas a verdade é que ninguém se acha burro. Ontem num café ouvi uma conversa entre 4 burros que não sabem que são. Um deles falava de uma entrevista de emprego à qual ele tinha ido e o entrevistador lhe tinha perguntado então qual ele o burro achava que seria um defeito seu. E o burro que não sabe que é burro respondeu: “Então, mas eu não lhe vou estar aqui a contar os meus defeitos senão não me contrata” e os outros burros concordaram com ele, acharam que ele tinha razão e que o entrevistador seria um grande burro por lhe ter feito uma pergunta daquelas numa entrevista de emprego. I rest my case: Os inteligentes têm um cérebro capaz de perceber que são inteligentes e o cérebro limitado dos burros não os deixa perceber que não são. Assim não terei ofendido quaisquer susceptibilidades e não terei qualquer problema com quem me estiver a ler: não há pessoas burras no mundo; ou se as há são outras quaisquer que não nós mesmas; e este texto é só mais uma texto de merda que fica assim sem efeito.

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