Merda das superstições

O facto de eu não acreditar nestas merdas das superstições tem estado a dar-me azar. Só pode ser isso. Tenho andado a dar tiros atrás de tiros nos pés já desfeitos porque sou sempre eu a sentar-me nas esquinas das mesas quando vou jantar com um grupo de amigos, ou a única a brindar com água, ou a única a abrir guarda-chuvas nas lojas para ver se não estão rotos antes de os comprar e quando não os abro por me assaltar à consciência a possibilidade dessa merda das superstições existir realmente, compro-o sem abrir e quando chego a casa faço a mesma merda e abro o guarda-chuva só que desta vez dentro da minha casa, and guess what está mesmo roto. E depois dizem que foi azar. Penso que não há outra coisa a fazer senão aceitar a inevitabilidade do meu azar. Se calhar a culpa é da minha avó: varreu-me várias vezes os pés quando eu era pequena e vá lá não ter saltado por cima de mim senão eu so they say não teria crescido, e não contente com isso só para ter a certeza de que o azar não me abandonaria, trouxe para casa um gatinho preto que estava praticamente a morrer desidratado debaixo daquele carro, e com quem eu obviamente me cruzei então outras milhares de vezes dentro de minha casa já que o gato era meu. A verdade é que a minha avó parecia estar ciente do que fazia as vezes sem conta em que me varreu os pés; terminava sempre por se rir e dizer, que já ninguém vai casar contigo, meu amor. Dizia-me que eu não perdia nada em não casar porque dos homens nem bons ventos nem bons casamentos. Soube mais tarde que ela substituiu a palavra espanhóis por homens, mas a minha avó sempre gostou de generalizar. “Os homens não prestam” ainda hoje me diz, e diz-me agora várias vezes ao dia porque já tem 90 anos. Mas não, a culpa deve ser obrigatoriamente minha. Acho que o nunca ter sido supersticiosa me tem dado azar: há uns anos quebrei um espelho e tudo o que fiz foi limpar os cacos de vidro e nem me passou pelo pensamento que poderia vir a ter 7 anos de azar. Ou serão 7 anos sem sexo? Seja como for, uma coisa vai dar à outra, e se tentarmos ver o copo cheio, um azar realmente não é um espelho partido, é um preservativo furado: não são 7 anos, é para a vida toda. A minha amiga Rita quase todos os meses me fala desse tal trevo de quatro folhas que eu devia arranjar ou da tal pata de coelho que insiste que dá sorte; bem, menos para o pobre do coelho, não foi a Rita de certeza que ficou sem a pata. Estas crendices não têm pés nem cabeça, mas a superstição é mesmo isso uma crença em situações com relações de causa e efeito que não se podem mostrar de forma racional ou empírica, coisas irracionais não fundamentadas, tradições populares e outras relacionadas com religião ou mágica. Mas como é que eu posso aceitar que conjuros, curas e outros rituais possam influenciar de maneira tão transcendental a minha vida? Gosto de acreditar que a nossa sorte somos nós que a fazemos. Eu é que não tenho jeito para a coisa. E desculpa-me por fazer o erro de colocar tudo no mesmo saco, mas se eu for acreditar na cartomancia, na quiromancia, na homeopatia, na tia Joaquina, no tarot e em feng shui não vou fazer mais nada na vida do que seguir instruções e até para fazer coisas simples como decorar a casa vai ser difícil. Não será porque os orientais usam símbolos para figurar bons presságios capazes de atrair sorte ou azar e isso funciona para eles, que também eu terei de passar uma semana ao computador a fazer um google de feng shui porque não tenho dinheiro para ir fazer um workshop, para poder decidir onde devo posicionar o sofá na sala. Já me é difícil conjugar cores porque sou daltónica. Ou teria eu, quando voltei da Índia, de me ter certificado que os elefantes de marfim que trouxe de Goa e que gostava de ter expostos na sala deveriam antes ter sido colocados no corredor da entrada com o rabo virado para a porta de entrada? Aliás para ser exata em vez de 2 elefantes devia ter trazido 3: o primeiro tem de ter a tromba virada para a entrada da porta principal, o segundo elefante o rabo virado e o terceiro deveria ser colocado num sitio onde nós não o possamos ver nem quando andamos a limpar o pó. Essas merdas dão trabalho e porque dão trabalho dá-me mais jeito colocar tudo no mesmo saco e recusar. Recuso-me a ceder a essas merdas das superstições, não sou supersticiosa e para mim um gato preto é um gato preto. Como é que posso acreditar que aquele gatinho preto querido que se debatia entre a vida e a morte é antes um espírito malévolo capaz de causar mal estar e até mesmo a morte? E que ao mesmo tempo que isso acontece, curiosamente ao fervermos a carne do tal gato estaremos também a curar a tuberculose pulmonar da tia Joaquina, a tia que rimou com homeopatia, e que mora algures na América do Sul? Eu nunca fui e nunca serei supersticiosa: para mim um gato preto é um gato dessa cor e mais nada. E essas vassouras a varrerem-me incessantemente os pés, os mais de 6 mil e setecentos brindes com água e os 7 espelhos partidos, todas as vezes que passei orgulhosamente por debaixo de escadotes e todas as vezes que me cruzei com o meu gatinho, tenho a certeza de que nada disso na verdade tem a ver com o facto de eu ter quase 40 anos e ser divorciada desde os 28, ou de estar a dormir no sofá de uma amiga porque chovia mais dentro de minha casa do que na rua, ou o meu carro está parado na oficina há coisa de duas semanas com problemas no motor e ter saído de lá com peças de outros carros e com outros problemas ou de minutos antes de eu ter deixado o carro no mecânico ter sem querer atropelado o meu gato que acabou por morrer, ou ter sempre mil obstáculos para conseguir as coisas tal e qual como jogos de computadores, sem que eu tenha aqui mais que uma vida, e não tem nada a ver também com o facto de ter perdido ainda hoje a minha mala com a carteira, os documentos e o meu telemóvel lá dentro e como dizem que um azar nunca vem só e chega em séries de sete, só me faltava agora ter o azar de ser despedida e perder o emprego. Não, não sou supersticiosa e não acredito nessas merdas das superstições; mas pelo sim pelo não, deixa-me cá bater 3 vezes na madeira e que o diabo seja cego, surdo e mudo. Ah, e só mais uma coisa antes de saltarmos para outro assunto de merda: cancelado, cancelado, cancelado.

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