Merda de férias

A minha casa da Pontinha cheira à minha mãe. Cheira a bolo de chocolate feito pela Olga. Cheira a jogos de xadrez com o meu pai, que desconfio que ou me deixa ganhar ou joga muito, assustadoramente mal. A minha casa da Pontinha sabe às manhãs de sábado, deitada na cama a ver os bonecos na televisão, e a pão com nucrema, ou nucrema com pão. Sabe àquelas pessoas de plástico de 9 centímetros às quais passo a vida a mudar as perucas e as pernas. Toma lá umas pernas azuis, para combinar com a camisa. É isso mesmo, a minha casa na Pontinha cheira a pernas azuis dos playmobis.
Mas que merda, hoje devo estar constipada. Deve ser isso, porque não sinto nenhum cheiro familiar. E para além de estar constipada, devo estar de férias em algum lugar. Sim, porque hoje não acordei no meu quarto cor-de-rosa. Nem acordei com a minha mãe a subir de rompão os estores, porque está um dia lindo lá fora, nem com as músicas dos Platters, ou com canções italianas. Hoje a minha avó também não me veio desafiar para um crapô. E o meu pai não chegou a casa, nem pousou a pasta de médico, parecida com a pasta do Dr. Freud, no armário da entrada. Os miúdos não discutiram sobre merdas ou não tiraram à sorte para ver quem leva o carro hoje à noite. O Pedro não atirou as culpas para cima do Bruno e o Bruno não se atirou para o sofá a ver televisão. Nenhum dos dois fez merda nenhuma. Não está ninguém em casa, ou será que eu é que me evadi de mim? Não. Devo estar de férias. Espero estar de férias. Mas que merda de férias.
Estranho. Quem é este homem que agora todas as noites dorme e acorda comigo? Que parece que sabe quem eu sou e do que é que gosto. Que sabe que tenho medo de morrer a dormir, e que tenho medo de enlouquecer, e outras merdas que pouca gente sabe de mim. Mas quem é este homem sentado ao meu lado com um anel de noivado igual ao meu, e que sempre se adianta e pede uma Coca-Cola por mim porque sabe que eu não bebo outra coisa? É giro, não vou dizer que não, e de vez em quando dá-me beijos na boca, que sabem bem, não vou dizer que não, mas não deixa de me ser um estranho. Que merda, devo estar de férias, para além de estar constipada. Quem é este estranho que me conhece? Será que me é alguma coisa? Um parente afastado? Um primo afastado apaixonado? Não. Não sei quem é, merda. E não é da minha família. Nós somos cinco lá em casa. Não há o que enganar nas contas. Sempre fomos cinco: A minha mãe, o meu pai, eu e os miúdos. A minha avó mora no quarteirão a seguir, tenho um tio-avô em Linda-a-Velha e uma tia-avó na Rua dos Soeiros, e é isso, não nos damos com mais ninguém. E lá em casa somos 5.
Estranho. Dizem-me agora que as minhas águas rebentaram. Mas eu não estou a chorar. Sim, sinto água a correr pelas pernas abaixo, qual fonte contrariada. Depressa, é o primeiro filho, acabei de ouvir. Mas filho de quem? Que merda é esta, afinal? O meu nome é Sofia e eu moro com os meus pais na Pontinha. Não tenho noivo, e não tenho filhos. Tenho 9 anos, e já disse: chamo-me Sofia e moro com os meus pais na Pontinha. Vestiram-me uma roupa azul, e gritam, repetitivos, Puxe, puxe. Vá lá, só mais uma vez. E eu, obediente e de pernas abertas, vejo um bebé a sair de mim, a chorar desalmadamente. Quem é ele? Parece um dos meus Nenucos mas eu sei que não é meu. Os meus Nenucos não choram, não funcionam a pilhas.

Merda de acidente

O quarto estava frio. O quarto estava frio e ele lia, As armas e os barões assinalados que da Ocidental praia Lusitana por mares nunca dantes navegados passaram ainda além da Taprobana em perigos e guerras esforçados mais do que prometia a força humana. O quarto estava frio, ele lia, e as cortinas tocadas pelo vento encostavam-se às janelas. Ora cresciam onduladas. Ora diminuíam encolhidas. O Ricardo esticava o braço, a mão e as pontas dos dedos. O Ricardo recolhia o braço. O Ricardo recolhia os olhos. E levava novamente o olhar para, Aqueles que por obras valerosas se vão da lei da Morte libertando.
Quando a luz já não o deixava ler, guardava o livro na cómoda e as mãos quietas debaixo do lençol. Fechava os olhos castanhos de tristezas tamanhas e inspirava fundo, desconfortavelmente bem fundo. Tentava calar as frases de merda que ouvia dentro dele, cheias de dor e de rancor. Em vão. Sentia dores nas pernas e comichão nos pés. Ignorando-as, recolhia as lágrimas que já lavavam os olhos, ajeitava a almofada e adormecia. As lágrimas juntavam-se e formavam rios, dos rios cresciam mares. E as sombras do vai-e-vem da merda das cortinas continuavam.
De olhos fechados, ele sonhava que o campo era largo, a noite era escura e ele corria. Tinha 6 anos e brincava com os amigos aos invasores. Enquanto todos se defendiam ele atacava, porque a mãe sempre lhe disse que, A melhor defesa é um bom ataque. E ele sempre ouvia a mãe. Por isso, escondido atrás de pedras e buracos que faziam de trincheiras, soltava um grito de guerra e saltava vitorioso de espingarda na mão em forma de cajado, numa investida de merda que lhe valeria depois uma cicatriz. A correr, saltou em falso e os pés e as mãos correram no ar, até caírem com o resto do corpo na vala. Arrancou os olhos do chão e depois as silvas das pernas e dos braços. Não chorou. Homem que é homem não faz essa merda, dizia o seu pai. E ele também costumava ouvir o pai. A cicatriz dessa brincadeira de criança, essa saliência estreita na perna direita, passou a fazer parte dele. E para adormecer, enquanto uns contavam carneiros, ele passava a mão na cicatriz até adormecer.
A mãe entrou no quarto e disse, Bom dia. Ele não a ouviu. Desde o acidente que ele não ouve nem a mãe, nem o pai, nem ninguém. Só ouve merdas de perguntas hipotéticas que lhe invadem a cabeça até que adormece de exaustão. E se não tivesse saído naquela noite? E se tivesse ido por outra rua? E se tivesse ido de carro em vez de ter ido de mota? Com certeza que teria passado na merda daquela estrada antes ou depois da merda daquele outro homem que lhe mudou a vida num segundo. A mãe do Ricardo abriu as cortinas do quarto e prendeu-as com as fitas. Deu-lhes dois laços. Queria que o Ricardo olhasse pela janela. Que ele ainda quisesse ver tudo, tocar em tudo. O Ricardo, que tinha os olhos nas pontas dos dedos. O Ricardo, que se entretinha a observar as pessoas e a calcular-lhes a vida pelos olhos, pelas roupas, pelo andar. Que corria em vez de andar. Que se ria em vez de sorrir. Prendeu as cortinas com as fitas e deu-lhes dois laços. Porque ela queria o Ricardo de volta, como ele era antes de ter tido aquela merda de acidente. Antes de lhe terem amputado as duas pernas abaixo do joelho por causa de uma merda de um acidente de mota. Antes de lhe terem cortado as pernas abaixo do joelho por causa da merda de um homem que vinha em sentido contrário e provavelmente alcoolizado. Por causa da merda de um homem que deve ter saído ileso do acidente, sem uma cicatriz, porque desapareceu, e nem ligou para as emergências, nem deu entrada em hospital nenhum. E provavelmente não ficará nunca sóbrio o tempo suficiente para sentir qualquer remorso. Por causa da merda de um criminoso que ainda poderá andar por aí e que ainda conduzirá por estas estradas. Provavelmente ainda bêbado. Provavelmente a causar outros acidentes. O Ricardo ainda precisa de tempo para se habituar. Para se esquecer que teve pernas durante 21 anos ou para aprender a viver sem elas o resto da vida. Tens de reagir, disse-lhe a mãe ao prender as cortinas com as fitas. Ele não a ouviu. Não a ouve nem ouve ninguém. E com as dores do passado, deixa-se todas as noites adormecer acompanhado delas. Mas temos de lhe dar tempo. Porque ele ainda sente dores nas pernas que não tem. Comichão nos pés que não tem. Ainda sente vontade de adormecer a passar a mão na cicatriz da perna que não tem. Ainda gosta de correr. Falta-me dizer mais qualquer coisa neste texto para o fechar, no entanto, não o consigo acabar. Falta-me um final, digno de ti, Ricardo, queria dizer-te tantas coisas, e falta-me um final. Mas a mim, só me falta a merda das palavras. A ti, faltam-te as pernas, que eu sei que ainda sentes que tens.

Merda de mosca da azeitona

A mosca da azeitona é uma mosca que está na origem da larva da azeitona. A fémea deposita os seus ovos sob a pele dos frutos. Ao nascer, a larva vai alimentar-se e desenvolver-se no interior do fruto, provocando danos. Precisava de dizer isto antes de contar a tua estória, António. Estavas sentado à minha frente no comboio e olhavas para a mulher rechonchuda sentada a teu lado, para o casal de namorados aos beijos no banco de lá, olhavas para mim sem disfarce, para o meu reflexo no vidro da carruagem, para o teu reflexo junto ao meu, e voltavas a olhar para a mulher rechonchuda sentada a teu lado. Os movimentos dos teus olhos eram hexagonais, como uma mosca da azeitona. Comecei a ficar impressionada contigo quando me apercebi que repetias os mesmos movimentos, metodicamente, sem que no entanto observasses nada. A mulher rechonchuda, os namorados, eu e os nossos reflexos, eram simples pontos de foco. Provavelmente nem estavas a ver merda nenhuma. Eu desviava o olhar um segundo exacto antes de me transformares num dos teus pontos de foco. Fazia-me distraída, sou muito boa nessa merda a propósito, para depois reconciliar o meu olhar em ti. E tu, sem fisionomia, seguias invariavelmente a mesma rota sem nunca chegares a merda de lado nenhum. Quando paravas por segundos o teu olhar vazio nos outros, eu pousava o meu olhar em ti. Na tua camisa com a gola bem engomada que me falava do teu perfeccionismo. No teu cabelo rapado à militar que me apresentava indiretamente o teu pai, que te deixava de falar quando o teu cabelo castanho – de encantos tamanhos – crescia uns infelizes centímetros. Barba, penso até que nunca tiveste. Não podias ter, por causa das merdas do teu pai. E tu continuavas com o teu olhar de pestanas longas e escuras perdido em movimentos hexagonais, sem nunca me encontrares a olhar para ti quando passavas os olhos no teu ponto de foco preferido. Era em mim que te demoravas mais, mas acho que nunca me viste.
Entraste no curso de medicina, porque o teu pai assim pensou que querias, ou não pensou que não quisesses. Ou não pensou no que querias sequer. Quando tinhas quase seis anos, a meio de um jantar de família, daqueles jantares de merda da tua família, o teu pai disse-te, António, levante-se e pule até eu lhe dizer que pare. As pessoas da tua família eram todas formais umas com as outras, mas os maus tratos sobre ti não eram formais, a falta de amor não era formal, e a falta de respeito também não. E tu pulavas, até que ele se enfadasse com o barulho dos teus pés no soalho, até que ele se incomodasse com o barulho dos teus pés no soalho. Até que ele te gritasse que parasses com o barulho dos teus pés no soalho. Merda de pai, o teu, António.
Dei por mim a olhar para ti fixamente. Lembravas-me uma mosquinha das frutas, uma mosquinha da azeitona, engrenada na sua rota sem sentido. Paravas o teu olhar na mulher rechonchuda que sentada a teu lado se agarrava a uma revista cor-de-rosa, entretendo-se com as notícias de uma tia que engordou, ou de um casal que se separou. Tu, voltavas a desviar o olhar, voltavas a apanhar o casal de adolescentes que sem pudor tentavam chegar com a língua ao céu-da-boca do outro.
Já deves ter reparado, António – quieto como és – nas tuas moscas volantes. Nas sombras que aparecem sozinhas no teu campo visual, quando ficas parado a olhar para o vazio. Tu, António – quieto como és – já deves ter notado essas merdas de moscas que às vezes são pontos, outras vezes linhas, ou fragmentos de teias de aranhas, que flutuam morosas em frente dos teus olhos. Dos meus olhos. Dos olhos de todos nós. E depois piscamos e elas sobem. Desaparecem. Nunca notaste? Foi o que me aconteceu contigo. Eu distraí-me e perdi-te de vista. Pisquei os olhos e, qual mosquinha volante, tu desapareceste. Até voltares a aparecer no dia seguinte na merda de um jornal pela pior das razões. Tinhas te atirado para a linha do comboio. Chamavas-te mesmo António, e tinhas quase 20 anos. Quase vinte anos e eu não fiz nada. Quase vinte anos e eu limitei-me a observar os teus movimentos hexagonais. Podia ter falado contigo, e ter te feito sentir que existias, nem que seja para uma estranha. Podia ter te feito sentir que importavas, mesmo para uma estranha. Quase vinte anos e eu deixei-me ser apenas uma merda de ponto de foco para ti. De algum modo, deixei-te morrer. Pisquei os olhos e tu desapareceste. E eu serei para sempre a menina da tua idade, com medo do teu fantasma, num corredor enorme e escuro que nunca mais acaba.

Merda de saudades

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa. Neste caso, está presente na merda desta prosa. E ela descreve a mistura dos sentimentos de perda, falta, distância e amor. A palavra vem do latim, passando pelo galego, que deu origem às formas arcaicas de soidade ou saudade, que deram origem à palavra actual, mas esta merda não interessa para nada. Interessa é que tenho saudades tuas, Susana. E ter saudades é bom, mas é uma merda. És um ano e dois meses mais velha do que eu. Eu tinha 4 anos quando nós nos conhecemos. Tinhas o cabelo pela cintura, castanho e liso. Eu tinha o cabelo pelos ombros, normalmente separado em duas partes com dois totós vermelhos. Conhecemo-nos debaixo da mesa da cozinha, que ficava encostada a uma parede com azulejos azuis, e onde eu passava muito tempo porque gostava da sensação de ter um tecto por cima, e no qual pudesse tocar.
Tinha acabado de chegar de Faro, onde morei dos dois aos quatro anos, e fixámo-nos em Lisboa. Eu passei a morar no 3.º C, na casa da minha avó que sempre tratei por mãe. E tu moravas no 1º C e eras a filha da porteira. Chamas-te Susana e foste tão importante para mim que sei o teu nome todo, ainda hoje, depois de mais de 30 anos. E olha que nós portugueses temos nomes bem compridos. Ah, e tinhas primos com piolhos. Eu não gostava do Benfica porque o teu pai não te deixava brincar comigo, quando o Benfica perdia. Ele dizia a tudo que não quando o Benfica perdia. E o Benfica perdia muitas vezes. Eu não gostava dos teus primos que tinham piolhos. Tive duas vezes piolhos por causa de ti, ou por causa dos teus primos. Volta e meia eras levada pelos teus pais para a terra, como dizias, que se chamava Viseu, para ires à merda de um aniversário qualquer de um dos 15 primos que tinham piolhos. Mas quem nunca teve piolhos que atire a primeira pedra. Agora sei que os piolhos são umas merdas de uns insectos sem asas, de cor escura, pequenos, que se alimentam exclusivamente de sangue humano. Agora sei que os ovos dos piolhos são endurecidos e de cor branca tipo pérola e são chamados de lêndeas. São depositadas nos fios de cabelo, próximos do couro cabeludo, e deles nascem as ninfas que quando adultas depositam cerca de 80 ovos antes de morrer. Grande merda, ou não? Quando eu tinha 4 anos, as lêndeas não eram outra coisa senão os filhotes irrequietos dos piolhos, que gostavam muito de viajar, saltando facilmente de cabeça em cabeça. É uma merda ter piolhos, mas eu nunca me importei. Preferia apanhá-los de ti do que não brincar contigo. Aliás, até gostava da extra atenção da minha mãe quando ela me revistava o couro cabeludo. Às vezes, e isto nunca lhe confessei, fingia ter comichão aqui e ali.
Tu estavas sempre presente nos meus dias. Lembro-me de brincar contigo e com os meus irmãos com legos e carrinhos; de construirmos uma casa feita de lençóis na sala, presos por molas. Molas de merda porque não aguentavam com o peso dos lençóis durante muito tempo. Mas eram tendas anexadas a mais tendas. Lembro-me de nos sentarmos quietas e ansiosas pelo espectáculo de fantoches no beliche dos meus irmãos. Um espectáculo de merda, mas feito com as melhores das intenções do meu irmão Pedro, e que nós adorávamos. Lembro-me de chorar desalmadamente quando o meu irmão Pedro incorporando o papel de cowboy maldito queimava os meus índios, depois de atados a paus e rodados sobre uma fogueira, tal espeto de javali grelhado sobre brasas. E de tu te adorares ver-nos a brincar, sem participares, porque preferias ver do que estragar alguma coisa. Que merda de pensamento, mas sei porque te sentias assim. Não tinhas muitas coisas, e davas valor a tudo. Não tinhas muita auto-estima e pensavas que estragarias. Lembro-me de insistir muitas vezes contigo para jogares e podia parecer até para quem estivesse de fora que te estava a fazer uma merda de bullying, cuja palavra agora é muito popular, mas devo dizer que: meus amigos, essa merda sempre existiu. Mas não de mim para ti, isso não. Eu gostava e gosto muito de ti, ainda. Lembro-me do meu irmão Bruno me torturar com cócegas quando me ia buscar à escola primária n.º 2 da Pontinha. Lembro-me de teres contado à minha avó que o João me tinha dado um beijinho na boca, e de eu ter sido obrigada a lavar os dentes, os lábios e a língua com sabão azul e branco, quando o beijinho na boca fora na verdade um leve e tímido encostar de lábios muito juntos e esticados. A propósito, que merda foi essa? Era segredo, Susana. Eu não contava os teus segredos. Como aquela vez que ouviste os teus pais a fazerem sons estranhos no quarto e entraste lá para ver se a tua mãe estava bem e ela afinal estava muito bem e o teu pai estava muito nu. Lembro-me de te contar estórias inventadas à pressão só para te distrair, quando estavas triste. Lembro-me de seres canhota e eu achar a isso muita piada. E de com as nossas mãos termos feito um carro viajar até ao futuro, passando com o carrinho perto da rota de fios de algodão ensopados em álcool, e depois incendiados pelo meu irmão quase pirómano. Lembro-me de querer ser bombeira. E tu polícia. Lembro-me de partilhar todos os meus brinquedos contigo. De andar de bicicleta à volta do quarteirão, por turnos. Primeiro tu. Depois eu. Depois tu. Depois eu. Mesmo quando tinhas receio de cair e estragar a minha bicicleta, eu obrigava-te a andar. Lembras-te do meu Pai e dos meus irmãos correrem atrás de nós para que se caíssemos eles nos agarrassem? Era assim que eles faziam exercício. Lembro-me de tapares a boca com as duas mãos, de ficares vermelha e pareceres que podias explodir a qualquer segundo, e de me implorares que eu parasse de contar piadas porque não conseguias respirar se te risses assim tanto. Lembro-me do dia em que me pediste para parar de te fazer rir, porque senão farias xixi nas pernas, e de eu não ter acreditado. Desculpa estar a partilhar esta merda, se me estiveres a ler, em vez de ficares chateada, manda-me uma merda de uma mensagem. Já vais tarde, Susana. Já vais tarde. Mas antes tarde do que nunca mais. Lembro-me de lavarmos as duas as roupinhas das nossas bonecas no tanque. Em dois tanques pequenos, feitos ao nosso tamanho, e que a minha mãe comprou para nós. Que merda ter saudades. Lembro-me de nos esticarmos para pendurar as roupas nos varais do 1.º C. Lembro-me de ficarmos as duas na varanda do 3.º C a olhar para o prédio alto e cheio de janelas iluminadas que ficava depois do descampado, onde eu costumava colher flores com a minha avó. E eu dizia-te frequentemente que eu ainda havia de morar naquele prédio de reis e rainhas, quando fosse crescida. E que te levava comigo, claro. Lembro-me de te dizer, agora eras a policia e eu era o ladrão e tu tentavas prender-me porque eu tinha roubado as maçãs da mercearia do senhor Marco e da senhora Odília. Sempre quiseste ser polícia. Eu sempre quis ser ladrão.
Lembro-me de tanta coisa. Que merda de saudades. Lembro-me de te ter convencido a brincar às cabeleireiras na sala da casa da minha avó, onde vivíamos todos. Tu, Susana, com a voz fina e instável de 5 anos, perguntavas-me pela terceira vez, ó Sofia, não vais cortar a sério, pois não? E eu dizia-te, fica descansada que a tesoura é de brincar. Mas vira-te para a frente. Vira-te para a frente senão não brinco mais contigo. Merda de chantagens. As crianças são tramadas. E tu viravas-te para a frente. E eu cortar-te-ia o cabelo pelas orelhas. E tu gostaste. Gostaste da merda do penteado que eu te fiz, e se isso não é prova de que o amor nos torna cegos, não sei que prova mais seria. Sempre tive a certeza de que se eu te dissesse, faz isto, faz aquilo, senão nunca mais sou tua amiga, tu fazias. Uma amizade assim nunca mais tive. Isto soa mal, parece bullying talvez, mas era amizade pura, tanto de ti para mim, quanto de mim para mim. Eras mais do que uma amiga, bem mais do que uma melhor amiga, eras a minha irmã, Susana. E os irmãos discutem, e fazem a vida dos outros num inferno, chateiam-se, fazem as pazes, fazem chantagem uns com os outros, fazem mil e uma merdas, mas amam-se. E nós éramos irmãs de pais diferentes.
Agora moro no 1.º B desse prédio que não tem reis nem rainhas, a senhora Odília morreu com um cancro, a mercearia do senhor Marco passou a loja de animais onde comprei 7 peixes que acabaram todos por morrer, tu foste morar para Viseu quando ainda andávamos apenas no secundário e uns anos mais tarde ouvi rumores de que trabalhavas numa fábrica de material de automóvel. Que merda, queria que fosses polícia. Eu tirei jornalismo, trabalhei como redatora criativa em agências de publicidade e depois mandei tudo para o ar para ser assistente de bordo. Já morei em mais de nove outras casas, já vivi em 4 outros países, e estou finalmente de volta a Portugal. Gostava de te rever, mas não sei como te encontrar. Restam-me a merda destas saudades que não me levam a lado nenhum a não ser a escrever mais um texto de merda. E quando vou visitar a minha avó, na casa onde costumávamos todos morar, continuo a olhar da varanda do 3.º C para baixo, e procuro no teu varal as roupas das nossas bonecas penduradas. E por vezes, quando volto para minha casa, engano-me e vou bater ao 1.º C. Mas mesmo que esperasse que abrissem a porta, nunca mais serias tu, nem a tua mãe, nem o teu pai. O prédio já teve outros 3 porteiros. Mas nunca mais fui amiga de nenhuma filha de nenhuma outra porteira. Susana, tenho saudades tuas, merda. Vamos andar de bicicleta. Vamos vestir e pentear as bonecas. Vamos brincar com plasticinas. Vamos cantar ao microfone. Vem brincar comigo, Susana, senão nunca mais sou tua amiga.

 

 

Merda de abertura fácil

Agora as garrafas de vinho também com são de abertura rápida. Não são só as garrafas de cerveja. Tudo é abertura rápida. De consumo imediato. Momentâneo. Não sei se sou só eu, mas o vinho está no meu imaginário como um momento lento, de apreciação, cheio de romantismo até. Mas quem é que pode ser romântico se não perder algum tempo a abrir uma garrafa de vinho? Já não basta a invasão na vida dos outros e na nossa, que com a merda do facebook se faz num abrir e fechar de página? Já não basta o acesso rápido a todas as coisas na internet? Não basta as aplicações de encontros que fazem com que a vontade de conhecer alguém acabe com um dedo para a esquerda por causa de uma foto mal tirada? E quando se conhece alguém e a primeira coisa que se faz é fazer google do nome dele ou dela, ou investigar todas as fotos do instagram ou de outra merda de rede social qualquer. Porque não investir tempo a conhecer alguém? O que aconteceu ao fazer-se perguntas sobre o outro? Acabaram-se os momentos românticos, o tempo da descoberta. Agora sabe-se tudo no momento. E já ninguém se conhece devagar. Basta ir ao facebook ou fazer uma procura no google, e sabe-se praticamente a vida toda dessa pessoa. Os miúdos de 10 anos já não querem aprender a tocar guitarra, nem treinam horas e horas a fio. Aos 16 anos já ninguém se junta com os amigos nem tem bandas de garagem. Agora são todos estrelas de rock na Xbox e fazem todos tours mundiais com os amigos de merda virtuais. Tem de ser tudo instantâneo. Para quê perder horas por semana a aprender bateria quando se pode ter mil fãs novos todos os dias no mundo virtual? Aliás, ninguém tem tempo para aprender nada porque o tempo vai todo para as selfies para o instagram, ou o tempo desaparece a ver a vida dos outros passar no ecrã do telemóvel. É o mundo do resultado fácil, da abertura rápida, do final da linha. Já ninguém quer saber do caminho. Do antes, agora salta-se para o depois. Tenho saudades do durante. Já ninguém telefona aos amigos, agora fazem-se posts. Já ninguém pergunta ao pai ou ao amigo onde fica este ou aquele restaurante. Agora pergunta-se ao google. Merda de tempos acelerados. Por favor, tragam-me de volta uma garrafa de vinho com abertura lenta.

Merda de preconceito

A história da violência contra pessoas LGBT no mundo é composta de insultos, preconceitos e agressões a gays, lésbicas, bissexuais e transgéneros, prisões e assassinatos de inocentes, danos aos seus direitos humanos e ódio, entre muitos outros erros. Acredita-se que aqueles que são alvos dessa violência violem regras heteronormativas e protocolos de percepção de papéis de género e papéis sexuais. “Os ataques contra pessoas LGBT giram em torno da idéia de que existe uma maneira normal de viver, que engloba todas as expressões, desejos, comportamentos e papéis associados ao género ao qual cada pessoa foi designada no nascimento”. Esta é apenas a definição, mas podes ver o que tudo isso significa? Que temos de desempenhar o nosso papel e seguir regras atribuídas a nós no nascimento, ou então, estamos fadados a ter uma vida miserável, com ainda mais obstáculos, marcada por preconceito e se nos aceitarmos como somos, corremos o risco de morrer pelas mãos de alguém que acha que devemos ser de uma maneira diferente da nossa. Primeiro: eu não pedi para nascer, e depois com o meu nascimento, a minha mãe também deu à luz um manual inteiro de 300 páginas que eu deveria seguir sem perguntas sobre como eu deveria agir, sentir, pensar e ser? Como é que essa merda é justa? Não deveríamos ser quem nascemos para ser? A violência direcionada às pessoas devido à sua sexualidade percepcionada, pode ser psicológica e física, chegando aos assassinatos. Atos violentos, incluindo abuso doméstico e sexual, contra a comunidade LGBT, e bem, com relação a todas as pessoas, é claro, mas agora estou a falar dessa comunidade, podem levar à depressão, comportamentos suicidas e trauma. Eu não sou lésbica ou trans. Eu sou heterosexual, mas ainda assim digo que estou lutando pela minha causa. Porque eu quero um mundo melhor para mim e para os meus filhos, se eles vierem algum dia. No final, quero um mundo melhor, onde não haja espaço para qualquer tipo de discriminação, para todos nós: um mundo justo, gentil e feliz. Não um mundo de merda, feito de gente de merda, com regras e idéias de merda. Quem quer isso? Porque alguém pode ser envergonhado, perseguido, maltratado, posto de lado, amado menos ou nem um pouco, ignorado, apenas porque essa pessoa ama alguém do mesmo sexo? Também ama e isso é tudo o que devia importar. Todos devemos poder amar alguém, em liberdade e em felicidade. Quem são eles para dizer o que é ou o que não é normal, apenas porque é diferente? Não há diferença entre mim e os meus queridos amigos gays. Existem sim diferenças entre mim e quem os julga e ainda mais diferenças entre mim e aqueles que julgam o suficiente para criar sofrimento em outra pessoa. “A liberdade de uma pessoa termina onde a liberdade de outra pessoa começa.” Porque não começamos a por isto em prática? Não acredito que ninguém tenha ouvido isto antes. Ninguém se deve sentir autorizado a roubar a felicidade de alguém ou o simples direito dessa pessoa de ser. Alguém que rouba ou inflige dano esconde as suas ações porque é criminoso e errado, mas porque é que alguém deveria se esconder se tudo o que está a fazer é estar a ser ele mesmo e amar outra pessoa? Como tu te sentirias, e agora estou a falar apenas com as pessoas heterossexuais como eu, se o teu direito de seres tu mesmo fosse subitamente roubado de ti? Se tu não pudesses apresentar o teu amor à tua família, temendo que ela vos repudiasse, se decepcionasse e até sentisse nojo de ti pelo simples fato de amares alguém do sexo oposto? Como as pessoas heterossexuais pensariam e se sentiriam se a história e o mundo tivessem acontecido ao contrário? Se a homossexualidade fosse a chamada normal, ou a norma, e a heterossexualidade fosse a minoria, a maneira errada de ser, e até, quem sabe, um crime? Se ser heterosexual fosse agora uma razão para tu seres espancado e assassinado por alguém que tu nunca conheceste antes? Como tu te sentirias se não pudesses te casar com o teu amor? Se tu perdesses amigos (que na minha opinião nunca foram verdadeiros amigos ou não te teriam deixado por isto) e a família te abandonasse apenas e só por preconceito? Como tu te sentirias se seres heterossexual de repente fosse o teu segredo obscuro e pervertido? O que te faz sentir que podes não ser normal. Ou que algo estará errado contigo. Ou que estás doente, e precisas de ser corrigido ou curado? Se isso te faria sentir isolado, deprimido e até propenso a pensamentos suicidas? Não porque tu fizeste algo errado, mas apenas porque é assim que tu és. Tu sabes que és heterosexual, sentes que não podes contar a ninguém, e o mundo de repente fica muito mais difícil para ti, só por causa disso? Como tu te sentirias? Pensa melhor da próxima vez se fores dos que sentem algum tipo de preconceito em relação às pessoas não heterossexuais e antes de dizeres algo errado sobre isso, da próxima vez. Não podemos mudar o passado, mas podemos corrigi-lo no presente. Eles também são pessoas. Eles também têm sentimentos. Eles também se magoam. Somos todos iguais, somos seres humanos, e todos devemos igualmente ser autorizados a nos expressarmos completamente, a amar-nos a nós mesmos e a quem amamos. Sê gay, se fores. Sê heterossexual, se fores. Sê um unicórnio, se quiseres. Mas vamos ser gentis.

Prejudice shit

The history of violence against LGBT people in the World is made up of insults, prejudices and assaults on gay men, lesbians, bisexual, and transgender individuals, arrests and murders of innocents, harm on their human rights, and hate crime, among so many other wrongs. Those targeted by such violence are believed to violate heteronormative rules and contravene perceived protocols of gender and sexual roles. “Attacks against LGBT people revolve around the idea that there is a normal way for people to live, which encompasses all expressions, desires, behaviours, and roles associated with the gender each person was assigned to at birth.” This is just the definition, but can you see what all this mean? That we need to perform our birth-given role and rules or else, we are fated to have a miserable life, with even more obstacles and we risk to die by the hands of someone who thinks we should be in a different way that we are. First: I did not ask to be born, and then I am born and with it comes a whole manual that I should follow no questions asked of how I should act, feel, think and be? How is this shit fair? Shouldn’t we be able to be who we were born to be? Violence targeted at people because of their perceived sexuality can be psychological and physical up to and including murder. Violent acts, including domestic and sexual abuse, towards the LGBT community, and well, towards every single person of course but now I am targeting this community, may lead to depression, PTSD, suicidal behaviours, and trauma. I am not a lesbian or a transgender, even if some could think I am and that’s not a problem for me. I am straight, but I still say I am fighting for my cause. Because I want a better world for myself and my children, if they’ll come along some day. In the end, I want a better world where there’s not space for any sort of discrimination, for all of us: a fair, kind, and happy world.  Not a shitty world, made of shitty people, with shitty rules and shitty ideas. Who wants that? Why would you be shamed, persecuted, mistreated, put aside, loved less or not at all, ignored, just because you love someone of your same sex? You love as well. We all should be able to love someone, in freedom and in happiness. Who are them to say what is or isn’t normal, just because it is different? There’s no difference between me and my dear gay friends. There are yes differences between me and anyone who is judgemental and even more differences between me and those who are judgemental enough to create suffering in someone else. “A person’s freedom ends where another person’s freedom begins.” Nobody should feel entitled to steal someone’s happiness or their simple inherent right to be. Someone who steals or inflicts harm hide their actions because it is criminal and wrong, but why should any person to hide themselves if all they are doing is being themselves and loving someone else? How would you feel, and now I am talking solely to the straight people out there, like me, if the right of you to be yourself would be suddenly taken from you? If you couldn’t introduce your loved one to your family fearing they would disown you, be disappointed, be even disgusted at you, for the simple fact you loved someone of the opposite gender? How would straight people think and feel if the history and the world would have happened and act the opposite If homosexuality would be the so called normal, or the norm, and heterosexuality would be the minority, the wrong way to be, a crime? If it would be a reason for you to be beaten and murdered by someone you had even never met before? How would you feel if you couldn’t get married to your love? If you would lose friends (who in my opinion weren’t ever a true friend to you) and family out of prejudice only? How would you feel if you being heterossexual would sudden be your dark and pervert secret? That made you feel you might not be normal. Or that something would be wrong about you. Be ill. In need to be corrected, or cured? If that would make you feel isolated, depressed, and even prone to suicide thoughts? Not because you did anything wrong but just because that’s the way you are. You know you are straight, you feel you can’t tell anyone, and the world suddenly is so much harder for you, just because of that? How would you feel? Think better next time you feel any kind of prejudice towards the non-straight people, and before you say something wrong. They are people too. They have feelings. They hurt. We are all the same, we are humans, and we should all equally be allowed to fully express ourselves, love ourselves and another. Be gay if you want. Be straight if you want. Be a unicorn if you’d like. But let’s all be kind.  

Merda do Murphy

Ou da lei dele

Lei de Murphy é um adágio da cultura ocidental que normalmente é citada como: “Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível.” Foi com essa frase que Edward Murphy, um captain da Força Aérea Americana, “criou” a Lei universal que assombra até hoje nós os azarados. O Ed não era assim um gajo muito positivo, e por causa dele e da visão de Murphy, toneladas e toneladas de pessoas têm tido merdas a acontecer na vida delas quando menos precisam. Tipo eu. Depois de um processo de recrutamento demorado, eu tinha finalmente entrado no curso de tripulantes de cabine da que seria a minha próxima companhia aérea, quando a merda do Corona resolveu explodir, e suspender-me o curso. Não podia ter acontecido noutra altura? Obrigadinha Murphy. Menos grave mas tão irritante também, é o facto de que sempre que eu deixo cair o pão no chão, e isso acontece mais vezes do que podem pensar, o pão cai sempre com a merda da manteiga para baixo. E a culpa é de quem? Do Murphy. A visão tradicional diz que há uma chance de 50% para cada opção mas isso está errado, porque das 21 vezes que isto me aconteceu só duas vezes é que o pão caiu com a manteiga para cima. Com essa premissa do Murphy (e não minha) em mente, em 1995, quando eu ainda não tinha experimentado merda de pandemia de corona nenhuma, o físico britânico Robert Matthews publicou um tratado sobre o assunto que chamou de “A Torrada em Queda. A Lei de Murphy e as Constantes Fundamentais.” E amparado por complexos cálculos matemáticos e experimentos científicos, esse senhor demonstrou que a torrada tem de facto uma tendência inerente para cair com a manteiga para baixo. Ele verificou que em 9.821 quedas, 6.101 foram com a manteiga para baixo. E por causa da merda do Murphy, o Roberto desperdiçou horas e dias da vida dele a deixar torradas com manteiga cair da mesa e a apontar o resultado das quedas num caderno. Pelo menos que tenha ganho um prémio Nobel por isso. Mas então como posso eu continuar a ser a pessoa positiva, que me caracteriza, quando estas leis de Murphy existem e se verificam? Não são rumores, não são mitos nem lendas, nem conversas de galley, são teorias comprovadas de merdas que realmente acontecem. Quando estamos parados no trânsito, a fila do lado é sempre a que anda mais rápido, ou não é? Quem nunca mudou de fila, só para ficar parado de novo a ver a ex-fila a andar mais depressa? Isso acontece-me nas filas para mostrar o passaporte no aeroporto, nas filas das caixas dos supermercados, nas filas nos ATMs para levantar dinheiro. E sempre que decido fazer um atalho, esse atalho passa a ser a distância mais longa entre dois pontos. Quando estou a pintar um quadro e faço merda, qualquer tentativa de melhorá-lo só piora. Também é fatídico que todas as soluções que arranjo, acabam por me criar um novo problema. E sempre que vou comprar roupa e pego o tamanho S para provar, só me serve o M, mas se tivesse escolhido o M, o S é que teria sido o indicado. E se está escrito “Tamanho único” aposto convosco em como não me vai servir. As poucas vezes que tenho coragem para ir andar de bicicleta, não importa para onde vou, é sempre morro acima e contra o vento. Quando jogo poker e finalmente tenho dois Ases esses perdem sempre para uma merda de mão. Se houver 3 festas às quais eu quero muito ir, vão as três calhar no mesmo dia. Quando não tenho namorado, não há gajo nenhum interessante num raio de 100 km. Mas assim que arranjo um, aparecem outros 3 super interessantes. Enfim, qual lei qual quê. Juro que este Murphy lançou-nos foi a todos uma maldição. No outro dia andava à procura de um número de telefone e encontrei-o finalmente escrito num mapa, mas fiquei na mesma porque o número estava apontado na dobra do mapa, e com a dobra do mapa lá se foram alguns dígitos. Ora, culpa do Murphy. O mesmo acontece com muitas informações importantes nos mapas de uma rota ou destino que se perdem numa dobra ou na margem do mapa. É que a margem de um mapa de apenas um centímetro representa 28% da área total do mesmo. Grande merda, pois. Por esse motivo os bons guias rodoviários e mapas de cidades repetem pelo menos 30% da informação de cada página. Mas isto não interessa nada porque eu devo ser das poucas que ainda sabe o que são mapas de papel. A juventude agora só usa os GPS. Where’s the fun of it? Com os mapas descobríamos caminhos novos, e eu particularmente descobria realmente caminhos muito novos, alguns que não estariam sequer marcados nos mapas, porque me perdia constantemente, but not the point. Com os GPS levamos com ordens da voz irritante da gaja que nos manda 3 vezes virar à esquerda. Vire à esquerda a 300 metros. Vire à esquerda a 200 metros. Vire à esquerda agora. Deve ser divorciada essa gaja, ninguém aguenta isso. É certo que também uso às vezes, mas o meu é homem e só por segurança, é mudo. E as minhas meias, Sr. Murphy, as nossas meias? Tenho perdido dúzias de meias em máquinas de lavar e é um problema comum na minha vida nos 5 países onde já vivi. Por isso, não posso atribuir a culpa nem aos países nem às máquinas de lavar. Elas entram em pares, e saem soltas, livres, e solteiras. Acabam o namoro dentro das máquinas de lavar, e o outro par desaparece sem deixar rastro. Que sonho, se fosse assim tão fácil acabar o namoro com uma pessoa. Entrávamos na máquina como casal e num programa rápido de poucos minutos e frio, eu saia sozinha, e nunca mais ninguém via o gajo. Isso o Murphy não inventa. A título de curiosidade de merda, segundo o Victor Niederhoffer, que foi um senhor que curtia estudar estatísticas, se perdermos mais do que uma meia de uma vez só, o mais provável é que sejam de pares diferentes. E se houver duas ou mais maneiras de fazer algo e uma delas pode resultar numa catástrofe, alguém se decidirá por esta. E esse alguém normalmente sou eu. E tu, e todos nós, por causa da merda do Murphy. E este merdas também provou que levar um guarda-chuva quando há previsão de chuva torna menos provável que chova. Assim como regar as plantas, faz chover. Tinha acabado de regar o quintal inteiro a semana passada, e de enrolar a mangueira toda de volta e colocado no suporte, quando começou a chover. Mas também tenho outro truque para que chova: pendurar roupa. Seja a que horas que eu decida pendurar a roupa, quando estender a última toalha ou a última cueca, ou aquela meia agora solitária no estendal da roupa, é certo que vai começar a chover. Por causa de quem? Do Murphy. O São Pedro já não manda nada. E também é culpa do Murphy só encontrarmos as coisas nos últimos lugares que as procurarmos. Ou encontrarmos essa mesma merda dias depois quando não estamos já mais à procura dela. Basta. Portanto quando perdi no outro dia a chave do carro, o primeiro lugar em que fui procurá-la foi no frigorifico, e encontrei-a logo à primeira, por isso tecnicamente nunca perdi a chave. E agora quando tenho 4 chaves parecidas para um cadeado e não me lembro qual é a chave que o abre, experimento a última que normalmente experimentaria. E abro o cadeado à primeira. Agora quando quero regar as plantas, desenrolo a mangueira e digo para o ar, “Vou ter imenso trabalho agora a regar as plantas todinhas.” E chove. No trânsito digo em voz alta: “Era agora que eu mudava de faixa, estou a preparar-me para mudar de faixa, olha que vou mudar de faixa” e não mudo, mas a minha faixa passa indeed a andar mais depressa. Sim, é verdade que dou ares de maluca e ando a fazer as coisas de maneira diferente do que as faria, e que ando a falar sozinha e a dizer estas merdas para o ar, mas seja como for, creio ter descoberto uma maneira fantástica que contrariar o azar que a lei de Murphy nos impregna há décadas; e porque sou muito fixe, resolvi partilhar agora convosco o meu mais novo método para que tudo corra bem e o Murphy vá finalmente à merda.

Shitty Corona

 

I have taken this quarantine very seriously. I follow all orders and medical advice. I have been in total social isolation and confinement for over a month. But I do miss being free and dirty. Yes, because if now I don’t wash my hands for at least 20 seconds I feel really nasty. This must be what people who experience obsessive-compulsive cleaning disorder feel. In fact, at the end of all of this shit, we will all visit the psychiatrist taking with us some nice disinfected cookies along. I already made an appointment for July, because in the same way that the toilet paper rolls were used up and sold out, the psychiatrists will also be gone. As a shitty curiosity, before this Corona pandemic outbreak, the percentage of the disease in the general population was 3%. I went to find out some more to know if I should worry about myself. In the article they say that a serious sign is that if we find ourselves constantly repeating behaviours or rituals such as cleaning the house, washing hands or organising objects. Now, this was without a slight of a doubt my first 30 days of quarantine. Today is my 44th day of confinement, and I cannot say that I am getting any better, but now I have nothing else to organise. Everything is in their absolutely right place. The days go by well when I have no contact with the outside. I play the piano, sing, read cool books and write some shit, I watch Friends on Netflix, I’m already in the third season of the third round; and finally, I feel safe here walking from the living room to the bedroom, from the bedroom to the bathroom, from the kitchen to the terrace. But I don’t stay there in the terrace if I hear someone coughing on the second floor. I am afraid Corona might experience suicidal thoughts and throw himself out of the window, fall on my hair, I then scratch my head and put my hands in my eyes. And that’s it, tinoni, tinoni, here comes the ambulance. And I wouldn’t even know which bus would have hit me. At home I feel good and secure, but when I have to go downstairs to the door of the building to get the purchases that Continente delivers to the building entrance, my life turns to shit. And in addition to that obsessive-compulsive disorder, we are all already suffering as well from agoraphobia, this shitty disturbance characterised by symptoms of anxiety in response to situations that we perceive as unsafe, and among these are open spaces, shopping centres and in more serious cases, everything that is outside the home. It’s just me? Anyone? Something that was once certain for me and uncomplicated, it is now a scene of terror. First, I wear my waterproof motorcycle jumpsuit, so that afterwards I only have to immediately wash one piece of clothing when I return home, and I must say that that jumpsuit looks great on me, tight and sexy, at least that, only to be spoiled by my ugly winterly beanie hat where I stuff all my hair inside, whether or not it is a sunny day, a surgical mask with two elastics that force and bend my earlobes, and terribly ugly glasses to protect my eyes, which I would have used just to go riding a bike to Monsanto that I never managed to go to, and there I am, totally ready to go and face this shitty enemy of ours that is invisible and silent. I think to myself, as I lock the door of the house, in a repetition mode so as not to lose focus, that I cannot put my hands in my mouth, in my nose, nor in my eyes. I cannot put my hands in my mouth, in my nose, nor in my eyes. I don’t take the elevator because I can be inside and imagine it stops on any floor and some potentially infected human gets in? And then, it’s the thing, some doctors say that the virus hovers in the air inside the elevator for 3 hours, Jornal Expresso says in the same article in different paragraphs, come on at least in different paragraphs, that it lives in metal and plastic for about 3 days, and then a bit ahead it says 5 days. So I tell them all  to go to shit and go down the stairs. I’m going down the steps and thinking, don’t take buggers out of your nose, don’t take buggers out of your nose, the light goes out and there goes my elbow to turn on the light. Do not rub your eyes, do not rub your eyes, and the elbow that until then was of no use except to feel the famous elbow pain at one or another moment of envy, is now the main artist chosen to turn on switches and push doors. Don’t stick your fingers in your mouth, don’t stick your fingers in your mouth, and I finally get downstairs without meeting anyone on the stairs, literally for my health, and I listen to see if whether or not there are people in the lobby. The coast is clear, the little obsessive-compulsive General who lives now in my mind shouts, in a hurry, go go, the coast is clear and I assertively cross my potentially contaminated fingers so that no one appears, and I go in my astronaut mode. And then the insidious transport of goods begins. I arrive at the door of my house, without having put my hands in my mouth or plucking my eyelashes or sticking my fingers through my nose compulsively. A victory, indeed. The bags are all at the entrance door, in my mind visibly contaminated with that shitty virus, I open the door and then two by two, I take the bags to the terrace. At the entrance I take my shoes off and barefoot I walk in the house without touching anything towards the terrace where I start to accumulate my groceries on the floor that will be contaminated of course, and then I go back to the entrance, I put on my shoes to get more bags from the outside,  the red danger zone, and then back in again barefoot and I do this about 10 more times until there are no more shopping bags left outside. I left the house key and shoes logically at the entrance. I go to the bathroom to wash my freaking hands for 40 seconds because at this point 20 seconds is no longer satisfying. And I do as they taught me on TV: first I soak my hands, I leave them very moist, humid, wet, then I take a sufficient amount of soap to wash the entire surface of my hands, I start rubbing my palms against each other and with my lubricated fingers interlaced, I rub the palms and the back of the hands again. I wash the backs of my fingers and clean my thumbs with circular motions, I also make circular motions on the palm of my hand to clean my slippery fingertips, I rub my fists also first one and then the other, then I soak my hands again under running water that splashes everywhere with the fingers intertwined I rub them together and finally dry everything well with a paper towel. And this is all the sex I have had in these quarantine days. And after this shitty sex, I put the sexy jumpsuit in the washing machine and take a shower. The first phase is completed. Then you have to wash the rice, beans, noodles, the canned ones under the tap, with water and soap, and my phone starts ringing and I can’t interrupt because otherwise I will contaminate the phone and then I will have to sanitise it and I don’t think it has done him well so much alcohol gel because it is already starting to go off with no reason, so I continue to clean the fruits and vegetables with a tablespoon of bleach for 1 litre of water. And then I wash my hands well after cleaning the food, before cooking, after cooking and before eating, the palms, the back, the wrists, the tips and between the fingers, and I’m about to go out to the streets looking for the subway handrails to lick them for a long time, I’m about to go looking for bus stops to get many buggers out of my nose and to place them one by one under the seats of the bus stops like a good prep student shall do to keep alive its tradition, and then I will end up rubbing my hands on the floor of the street and stick my fingers in my eyes until it bleeds. All of this just to make sure I get this shitty Corona virus and I can end this shit once and for all.

Merda do Corona

 

Tenho levado esta quarentena muito a sério. Cumpro todas as ordens e todos os conselhos médicos. Estou há mais de um mês em total isolamento social e confinamento. Mas que saudades que eu tenho de ser livre e suja. Sim, porque se eu agora não lavo as mãos durante pelo menos 20 segundos fico a sentir-me mal. Deve ser isto que as pessoas que sofrem do transtorno obsessivo-compulsivo por limpeza sentem. Aliás, no fim de isto tudo vamos todos parar ao psiquiatra. Eu já marquei a consulta para Julho, porque da mesma maneira que se esgotaram os rolos de papel higiénico, também se vão esgotar os psiquiatras. A título de curiosidade de merda, antes deste surto pandémico do Corona, a prevalência da doença na população em geral era de 3%. Fui informar-me para ver se me devia preocupar. No artigo dizem que um sinal grave é darmos por nós a repetir constantemente comportamentos ou rituais como limpar a casa, lavar as mãos ou organizar objetos. Ora, isto foram sem tirar nem por os meus primeiros 30 dias de quarentena. Hoje é o meu 44.º dia de confinamento, e não posso dizer que estou a melhorar, mas agora já não tenho mais nada para organizar. Está tudo. Os dias até se passam bem quando não tenho qualquer contacto com o exterior. Lá vou tocando piano, canto, leio cenas fixes e escrevo merdas, vejo Friends na Netflix, já vou na terceira temporada da terceira ronda; e enfim, sinto-me segura aqui a passear da sala ao quarto, do quarto à casa de banho, da cozinha ao terraço. Mas  no terraço não fico eu se ouvir alguém a tossir no segundo andar. Não vá o Corona ter pensamentos suicidas e se atirar da janela, cair em cima do meu cabelo, eu coçar a cabeça e depois levar as mãos aos olhos. E já está, tinoni, tinoni, já aí vai a ambulância. E nem saberia eu que autocarro me teria atropelado. Em casa sinto-me bem, mas quando tenho de ir lá abaixo à porta do prédio para ir buscar as compras que o Continente entrega apenas até à porta do prédio, e não de casa, a minha vida vira uma merda. E pronto para além daquele transtorno  obsessivo-compulsivo já estamos todos também com Agorafobia, que apesar do nome enganar não é a fobia do presente. É uma merda de uma perturbação caracterizada por sintomas de ansiedade em resposta a situações que podemos percepcionar como inseguras, e entre estas estão os espaços abertos, os centros comerciais e em casos mais graves, tudo o que está fora de casa. Sou só eu? Anyone? Algo que antes era para mim  certo e descomplicado, agora é uma cena de terror. Primeiro visto o meu macacão impermeável da mota, para que depois só tenha de lavar imediatamente uma só peça de roupa quando voltar para casa, macacão esse que me fica super bem, justo e sexy, pelo menos isso, só para depois estragar o look com o cabelo todo dentro de um gorro, esteja ou não um dia de sol, uma máscara cirúrgica com dois elásticos a forçar e a vincar os lóbulos das orelhas, e óculos para proteger os olhos, muito feios e que eu teria usado apenas para ir andar de bicicleta para o Monsanto que acabei por nunca conseguir ir, e estou pronta para ir enfrentar este nosso inimigo de merda que é invisível e silencioso. Penso para mim mesma, enquanto fecho a porta de casa à chave, em modo de repetição para não perder o foco, que não posso por as mãos na boca, nem no nariz, nem nos olhos. Não posso por as mãos na boca, nem no nariz, nem nos olhos. Não vou de elevador porque posso estar lá dentro e parar num piso qualquer involuntariamente e entrar um potencial infectado. E depois é aquela coisa, uns médicos dizem que o vírus paira no ar dentro do elevador durante 3 horas, o Jornal Expresso diz no mesmo artigo em parágrafos diferentes vá lá, que permanece no metal e no plástico cerca de 3 dias, e depois mais à frente diz 5 dias. Então, mando-os a todos à merda e vou de escadas. Estou a descer os degraus e a pensar não tires macacos do nariz, não tires macacos do nariz, a luz apaga-se e lá vai o cotovelo acender a luz. Não esfregues os olhos, não esfregues os olhos, e o cotovelo que até então não servia para nada a não ser para sentir a famosa dor de cotovelo num ou outro momento de inveja, agora é o artista principal escolhido para acender interruptores e empurrar portas. Não metas os dedos na boca, não metas os dedos na boca, e finalmente chego lá abaixo sem me ter encontrado com ninguém nas escadas, literalmente pela minha saúde, e fico à escuta para ver se consigo perceber se há ou não pessoas no lobby do prédio. A costa está livre, e eu avanço assertivamente com os dedos potencialmente contaminados em figas para que ninguém apareça, em modo astronauta. E depois começa o transporte insidioso da mercadoria. Chego à porta de casa, sem ter metido as mãos na boca nem ter arrancado pestanas nem espetado os dedos no nariz compulsivamente. Uma vitória. Os sacos todos à porta da entrada, na minha mente visivelmente contaminados com aquela merda, abro a porta e depois dois a dois, levo os sacos para o terraço. Na entrada descalço-me e ando pela casa sem tocar em nada até ao terraço onde começo a acumular as compras no chão que ficará contaminado claro está, e depois volto para a entrada, calço os sapatos para ir buscar mais sacos lá fora, descalço-me quando volto a entrar em casa, e faço isto mais umas 10 vezes até não haver mais sacos de compras. Deixei a chave de casa e os sapatos logicamente à entrada, na zona suja e potencialmente contaminada. Vou até à casa de banho lavar a merda das mãos durante 40 segundos porque a esta altura 20 segundos já não me satisfaz. E faço como me ensinaram: primeiro molho as mãos, deixo-as bem húmidas, depois pego numa quantidade suficiente de sabão para lavar toda a superfície das mãos, começo a esfregar as palmas das mãos uma contra a outra e com os dedos entrelaçados esfrego de novo as palmas e as costas das mãos. Lavo as costas dos dedos e limpo os polegares com movimentos circulares, faço movimentos circulares também na palma da mão para limpar as pontas dos dedos, esfrego os punhos também primeiro um e depois o outro, depois molho de novo as mãos com água corrente, com os dedos entrelaçados esfrego-os uns nos outros e finalmente seco tudo bem com papel. E isto é todo o sexo que tenho tido nestes dias de quarentena. E depois deste sexo de merda, coloco o macacão sexy na máquina de lavar e vou tomar banho. A primeira fase está concluída. Depois há que lavar com água e sabão os pacotes de arroz, feijão, macarrão, os enlatados vão para debaixo da torneira, e o meu telemóvel começa a tocar e eu não posso interromper porque senão vou contaminar o telemóvel e depois vou ter de o higienizar e acho que não lhe tem feito bem tanto álcool gel porque já se começa a apagar, então continuo a limpar as frutas e os legumes com uma colher de sopa de lixívia para 1 litro de água. E depois lavo bem as mãos depois de limpar os alimentos, antes de cozinhar, depois de cozinhar e antes de comer, as palmas, o dorso, os pulsos, as pontas e entre os dedos, e estou prestes a sair para a rua à procura de corrimãos do metro para lamber demoradamente, ir à procura de paragens de autocarro para tirar muitos macacos do nariz e ir colocando um a um debaixo dos bancos das paragens como uma boa estudante do ciclo preparatório, e depois terminar por esfregar as mãos no chão da rua e espetar os dedos nos meus olhos até fazer sangue. Tudo isto só para me certificar de que apanho esta merda do Corona e terminar de uma vez por todas com esta merda toda.