Merda da oxitocina em falta

Há muitas evidências de que a oxitocina provoca um efeito importante no comportamento social de humanos. Sob a influência desta hormona, nota-se um aumento de generosidade. Generosidade? Precisamos desta merda urgentemente. Há tanta gente a quem falta generosidade. Essas pessoas seriam mais felizes se fossem generosas. Porque quando se dá, também se recebe. As perceções das expressões emocionais e sensibilidade também são beneficiadas com a oxitocina. Por isso a próxima vez que alguém ofender a tua sensibilidade, ou se demonstrar que não entende que te está a invadir ou a tratar-te mal, não mandes essa pessoa à merda, porque isso não muda nada, e manda-a comprar oxitocina à minha banquinha de hormonas, porque eu tenho essa para dar e vender. Aliás, quanto mais atos de generosidade praticamos, mais liberamos oxitocina de forma natural no organismo. Generosidade não me falta, até seria bom ter um bocadinho menos. Porque quando temos a mais, damos, damos, e se damos à pessoa errada, essa pessoa perceciona erradamente a nossa generosidade como fraqueza e há sempre os que abusam. Há aquele provérbio que diz que quando se dá a mão, querem o braço. E depois do braço, há quem ainda procure a perna, o pé, e nos degluta totalmente se falharmos em nos impor. Mas nem tudo está perdido. Se te deparares com pessoas nada generosas, e elas não puderem vir comprar um saquinho de generosidade à minha banquinha, diz-lhes que também alguns alimentos são capazes de estimular a liberação de oxitocina e outras hormonas que produzem sensações de bem-estar, felicidade e bom humor, como a serotonina, por exemplo. Portanto a próxima vez que alguém te insultar, porque está de mal com a vida, e achares que tão cedo não consegue comprar oxitocina, dá-lhe imediatamente uma barra de chocolate. Quando alguém atentar contra a tua integridade gratuitamente, só porque sim, só porque há pessoas que se sentem melhores com elas próprias quando rebaixam outra pessoa qualquer, diz-lhe para ir comer mais banana, ovos e frutos do mar. Pode ser que essa merda resulte. A pessoa sentir-se-á mais feliz e consequentemente não vai ter a necessidade de se alimentar da tristeza do outro. Aliás, eu até proponho uma nova maneira de respondermos aos bullies: Ó bully, vai comer bananas. Faz sentido. Assim como faz sentido falarmos mais um pouco do bullying nos tempos em que correm. Se bem que esta merda sempre existiu. Eu entrei com 5 anos na primeira classe e tinha rapazes de 13 anos, repetentes da quarta classe há demasiados anos, que me perseguiam para me agarrar os pulsos e os tornozelos e gritar-me aos ouvidos que eu era um cadáver ambulante de tão magra, apenas ossos. Afetou-me tanto que o meu maior sonho na altura era ter pneus de gordura na barriga. Depois no secundário, a merda deste calvário continuou. Na altura dizia-se: As crianças são mesmo más. Agora tem um nome: bullying. Cheguei a usar 3 pares de collants para simular pernas mais grossas. Mesmo no calor do Verão. Eu vivia constantemente sob assédio verbal relativamente à minha aparência física só porque eu tinha uma constituição fina e era magrinha, ainda que sempre tenha sido saudável. São esses bons genes os mesmos que me dão agora uma aparência física elegante aos 38 anos. E os mesmos rapazes que gozavam comigo quando eu era criança, foram depois os mesmos adolescentes que andavam atrás de mim, e agora são os mesmos adultos que me admiram. Ora, digo a essas pessoas agora o mesmo que devia ter dito quando criança: Ó bully, vai comer bananas. Chegavam a empurrar-me, faziam-me rasteiras, tentavam bater-me, mas a maioria das vezes usavam as palavras como armas. Talvez por isso, e porque sou uma pessoa sensível e não me falta oxitocina, eu seja tão cuidadosa com as palavras e tenha um cuidado tão grande em não ferir as suscetibilidades de ninguém. Hoje em dia, sofro por vezes de cyberbullying, isto porque tive a experiência única de ter participado num reality show; e com a visibilidade, ganhei pessoas que nunca conheci e que me adoram, e que enviam mensagens de carinho a elogiarem a minha personalidade, mas também, ainda que em muito menos quantidade, recebo mensagens no Instagram que são violência gratuita. O cyberbullying, no dicionário, é o uso da tecnologia para assediar, ameaçar, envergonhar ou atingir outra pessoa. Pode atender à definição de assédio ou perseguição virtual e é um crime que pode ter consequências legais. Inclui o envio de e-mails de merda, mas também de mensagens nas redes sociais. Para dizer a verdade, a mim não me incomoda porque eu cheguei a uma altura da vida que considero e valorizo o que e quem realmente merece ser valorizado, e passa-me ao lado todas as outras merdas. Até porque acredito que essas pessoas são infelizes e essa é a maneira tóxica que eles têm de extravasar as suas dores e frustrações, e as mensagens que enviam são nada mais que projeções dos seus defeitos e problemas. Lá está, a felicidade de um, infelizmente incomoda muitos outros. Falta-lhes com certeza oxitocina e serotonina e provavelmente muitas outras coisas mais. No entanto, seria no mínimo agradável que essas pessoas comessem mais bananas e atirassem menos pedras. Porque existem muitas pessoas que podem não ser tão seguras de si ou que não tenham um suporte emocional tão forte e que essa pressão negativa ou violência psicológica possam exercer um grave impacto na vida dessas pessoas. Trará por certo infelicidade, solidão, depressões e no extremo, o recurso ao suicídio. Geralmente, e isto está cientificamente corroborado, as “vítimas de bullying” são pessoas competentes, educadas, resilientes, sinceras, desafiam o status quo, são mais empáticas ou atraentes do que a maioria. Ora, deixo já aqui o meu agradecimento por esses sete elogios, sabe sempre bem. Por outro lado, estudos revelam que a inveja e o ressentimento podem ser motivos para o bullying. Pesquisas sobre a autoestima dos bullies dizem que enquanto alguns agressores são arrogantes e narcisistas, eles também podem usar o bullying como uma ferramenta para esconder vergonha ou ansiedade ou para aumentar a própria autoestima: ao humilhar os outros, o agressor sente-se fortalecido. O psicólogo Roy Baumeister afirma que as pessoas propensas a comportamentos abusivos tendem a ter egos inflados, mas frágeis. Por pensarem muito em si mesmos, frequentemente se sentem insatisfeitos e frustrados, e reagem com violência e insultos. Pesquisadores identificaram outros fatores de risco, como a depressão, transtornos de personalidade, bem como a rápida reação de raiva e uso da força, o vício em comportamentos agressivos, ou a interpretação das ações dos outros como sendo hostis, a preocupação excessiva com a preservação da autoimagem, o envolvimento em ações obsessivas ou rígidas. Acredito que alguns bullies estejam num círculo vicioso e negativo do qual pensam que não conseguem sair, mas gostava que essas pessoas pensassem melhor antes de descarregar no outro, todas as suas frustrações. E procurassem ajuda. Porque se uma pessoa vítima de bullying pode precisar de ajuda, o bully também precisa, de uma ajuda diferente, mas precisa. Para que possam fazer diferente do que fizeram no dia anterior, e quebrem essa corrente. Passemos a levantar o ego do outro, em vez de o rebaixar, por favor. Eu gosto tanto de elogiar, gosto tanto de reconhecer as virtudes dos meus amigos e de mencioná-las. Sinto-me feliz ao fazer isso. E generosidade traz generosidade. Somos nós que fazemos a nossa vida, e somos nós que escolhemos plantar sementes positivas, plantar bons sentimentos, decorar com plantas e flores o nosso caminho; mas por outro lado, somos também nós que escolhemos atirar pedras e por isso mesmo depararmo-nos com mais pedras pelo caminho. Acredito que quem me esteja a ler seja do lado bom da vida, e seja dos que como eu gosta de elogiar, e provavelmente seja logicamente também dos que já sofreu em alguma altura da vida de bullying. Para ti, o meu grande beijinho. No entanto, se houver algum bully recalcado aqui a ler o meu texto, antes que ele ou ela me continue a ler, só tenho uma coisa a dizer a essa pessoa: vá é comer bananas.

Merda de férias

A minha casa da Pontinha cheira à minha mãe. Cheira a bolo de chocolate feito pela minha avó. Cheira a jogos de xadrez com o meu pai, que desconfio que ou me deixa ganhar ou joga muito, assustadoramente mal. A minha casa da Pontinha sabe às manhãs de sábado, deitada na cama a ver os bonecos na televisão, e a pão com nucrema, ou nucrema com pão. Sabe àquelas pessoas de plástico de 9 centímetros às quais passo a vida a mudar as perucas e as pernas. Toma lá umas pernas azuis, para combinar com a camisa. É isso mesmo, a minha casa na Pontinha cheira a pernas azuis dos playmobis.
Mas que merda, hoje devo estar constipada. Deve ser isso, porque não sinto nenhum cheiro familiar. E para além de estar constipada, devo estar de férias em algum lugar. Sim, porque hoje não acordei no meu quarto cor-de-rosa. Nem acordei com a minha mãe a subir de rompão os estores, porque está um dia lindo lá fora, nem com as músicas dos Platters, ou com canções italianas. Hoje a minha avó também não me veio desafiar para um crapô. E o meu pai não chegou a casa, nem pousou a pasta de médico, parecida com a pasta do Dr. Freud, no armário da entrada. Os miúdos não discutiram sobre merdas ou não tiraram à sorte para ver quem leva o carro hoje à noite. O Pedro não atirou as culpas para cima do Bruno e o Bruno não se atirou para o sofá a ver televisão. Nenhum dos dois fez merda nenhuma. Não está ninguém em casa, ou será que eu é que me evadi de mim? Não. Devo estar de férias. Espero estar de férias. Mas que merda de férias.
Estranho. Quem é este homem que agora todas as noites dorme e acorda comigo? Que parece que sabe quem eu sou e do que é que gosto. Que sabe que tenho medo de morrer a dormir, e que tenho medo de enlouquecer, e outras merdas que pouca gente sabe de mim. Mas quem é este homem sentado ao meu lado com um anel de noivado igual ao meu, e que sempre se adianta e pede uma Coca-Cola por mim porque sabe que eu não bebo outra coisa? É giro, parece ser boa pessoa, é loiro e alto e não vou dizer que não, e de vez em quando dá-me beijos na boca, que sabem bem, não vou dizer que não, mas não deixa de me ser um estranho. Que merda, devo estar de férias, para além de estar constipada. Quem é este estranho que me conhece? Será que me é alguma coisa? Um parente afastado? Um primo afastado apaixonado? Não. Não sei quem é, merda. E não é da minha família. Nós somos cinco lá em casa. Não há o que enganar nas contas. Sempre fomos cinco: A minha mãe, o meu pai, eu e os miúdos. A minha avó mora no quarteirão a seguir, tenho um tio-avô em Linda-a-Velha e uma tia-avó na Rua dos Soeiros, e é isso, não nos damos com mais ninguém. E lá em casa somos 5.
Estranho. Dizem-me agora que as minhas águas rebentaram. Mas eu não estou a chorar. Sim, sinto água a correr pelas pernas abaixo, qual fonte contrariada. Depressa, é o primeiro filho, acabei de ouvir. Mas filho de quem? Que merda é esta, afinal? O meu nome é Sofia e eu moro com os meus pais na Pontinha. Não tenho noivo, e não tenho filhos. Tenho 9 anos, e já disse: chamo-me Sofia e moro com os meus pais na Pontinha. Vestiram-me uma roupa azul, e gritam, repetitivos, Puxe, puxe. Vá lá, só mais uma vez. E eu, obediente e de pernas abertas, vejo um bebé a sair de mim, a chorar desalmadamente. Quem é ele? Parece um dos meus Nenucos mas eu sei que não é meu. Os meus Nenucos não choram, não funcionam a pilhas.

Merda de acidente

O quarto estava frio. O quarto estava frio e ele lia, As armas e os barões assinalados que da Ocidental praia Lusitana por mares nunca dantes navegados passaram ainda além da Taprobana em perigos e guerras esforçados mais do que prometia a força humana. O quarto estava frio, ele lia, e as cortinas tocadas pelo vento encostavam-se às janelas. Ora cresciam onduladas. Ora diminuíam encolhidas. O Ricardo esticava o braço, a mão e as pontas dos dedos. O Ricardo recolhia o braço. O Ricardo recolhia os olhos. E levava novamente o olhar para, Aqueles que por obras valerosas se vão da lei da Morte libertando.
Quando a luz já não o deixava ler, guardava o livro na cómoda e as mãos quietas debaixo do lençol. Fechava os olhos castanhos de tristezas tamanhas e inspirava fundo, desconfortavelmente bem fundo. Tentava calar as frases de merda que ouvia dentro dele, cheias de dor e de rancor. Em vão. Sentia dores nas pernas e comichão nos pés. Ignorando-as, recolhia as lágrimas que já lavavam os olhos, ajeitava a almofada e adormecia. As lágrimas juntavam-se e formavam rios, dos rios cresciam mares. E as sombras do vai-e-vem da merda das cortinas continuavam.
De olhos fechados, ele sonhava que o campo era largo, a noite era escura e ele corria. Tinha 6 anos e brincava com os amigos aos invasores. Enquanto todos se defendiam ele atacava, porque a mãe sempre lhe disse que, A melhor defesa é um bom ataque. E ele sempre ouvia a mãe. Por isso, escondido atrás de pedras e buracos que faziam de trincheiras, soltava um grito de guerra e saltava vitorioso de espingarda na mão em forma de cajado, numa investida de merda que lhe valeria depois uma cicatriz. A correr, saltou em falso e os pés e as mãos correram no ar, até caírem com o resto do corpo na vala. Arrancou os olhos do chão e depois as silvas das pernas e dos braços. Não chorou. Homem que é homem não faz essa merda, dizia o seu pai. E ele também costumava ouvir o pai. A cicatriz dessa brincadeira de criança, essa saliência estreita na perna direita, passou a fazer parte dele. E para adormecer, enquanto uns contavam carneiros, ele passava a mão na cicatriz até adormecer.
A mãe entrou no quarto e disse, Bom dia. Ele não a ouviu. Desde o acidente que ele não ouve nem a mãe, nem o pai, nem ninguém. Só ouve merdas de perguntas hipotéticas que lhe invadem a cabeça até que adormece de exaustão. E se não tivesse saído naquela noite? E se tivesse ido por outra rua? E se tivesse ido de carro em vez de ter ido de mota? Com certeza que teria passado na merda daquela estrada antes ou depois da merda daquele outro homem que lhe mudou a vida num segundo. A mãe do Ricardo abriu as cortinas do quarto e prendeu-as com as fitas. Deu-lhes dois laços. Queria que o Ricardo olhasse pela janela. Que ele ainda quisesse ver tudo, tocar em tudo. O Ricardo, que tinha os olhos nas pontas dos dedos. O Ricardo, que se entretinha a observar as pessoas e a calcular-lhes a vida pelos olhos, pelas roupas, pelo andar. Que corria em vez de andar. Que se ria em vez de sorrir. Prendeu as cortinas com as fitas e deu-lhes dois laços. Porque ela queria o Ricardo de volta, como ele era antes de ter tido aquela merda de acidente. Antes de lhe terem amputado as duas pernas abaixo do joelho por causa de uma merda de um acidente de mota. Antes de lhe terem cortado as pernas abaixo do joelho por causa da merda de um homem que vinha em sentido contrário e provavelmente alcoolizado. Por causa da merda de um homem que deve ter saído ileso do acidente, sem uma cicatriz, porque desapareceu, e nem ligou para as emergências, nem deu entrada em hospital nenhum. E provavelmente não ficará nunca sóbrio o tempo suficiente para sentir qualquer remorso. Por causa da merda de um criminoso que ainda poderá andar por aí e que ainda conduzirá por estas estradas. Provavelmente ainda bêbado. Provavelmente a causar outros acidentes. O Ricardo ainda precisa de tempo para se habituar. Para se esquecer que teve pernas durante 21 anos ou para aprender a viver sem elas o resto da vida. Tens de reagir, disse-lhe a mãe ao prender as cortinas com as fitas. Ele não a ouviu. Não a ouve nem ouve ninguém. E com as dores do passado, deixa-se todas as noites adormecer acompanhado delas. Mas temos de lhe dar tempo. Porque ele ainda sente dores nas pernas que não tem. Comichão nos pés que não tem. Ainda sente vontade de adormecer a passar a mão na cicatriz da perna que não tem. Ainda gosta de correr. Falta-me dizer mais qualquer coisa neste texto para o fechar, no entanto, não o consigo acabar. Falta-me um final, digno de ti, Ricardo, queria dizer-te tantas coisas, e falta-me um final. Mas a mim, só me falta a merda das palavras. A ti, faltam-te as pernas, que eu sei que ainda sentes que tens.

Merda de mosca da azeitona

A mosca da azeitona é uma mosca que está na origem da larva da azeitona. A fémea deposita os seus ovos sob a pele dos frutos. Ao nascer, a larva vai alimentar-se e desenvolver-se no interior do fruto, provocando danos. Precisava de dizer isto antes de contar a tua estória, António. Estavas sentado à minha frente no comboio e olhavas para a mulher rechonchuda sentada a teu lado, para o casal de namorados aos beijos no banco de lá, olhavas para mim sem disfarce, para o meu reflexo no vidro da carruagem, para o teu reflexo junto ao meu, e voltavas a olhar para a mulher rechonchuda sentada a teu lado. Os movimentos dos teus olhos eram hexagonais, como uma mosca da azeitona. Comecei a ficar impressionada contigo quando me apercebi que repetias os mesmos movimentos, metodicamente, sem que no entanto observasses nada. A mulher rechonchuda, os namorados, eu e os nossos reflexos, eram simples pontos de foco. Provavelmente nem estavas a ver merda nenhuma. Eu desviava o olhar um segundo exacto antes de me transformares num dos teus pontos de foco. Fazia-me distraída, sou muito boa nessa merda a propósito, para depois reconciliar o meu olhar em ti. E tu, sem fisionomia, seguias invariavelmente a mesma rota sem nunca chegares a merda de lado nenhum. Quando paravas por segundos o teu olhar vazio nos outros, eu pousava o meu olhar em ti. Na tua camisa com a gola bem engomada que me falava do teu perfeccionismo. No teu cabelo rapado à militar que me apresentava indiretamente o teu pai, que te deixava de falar quando o teu cabelo castanho – de encantos tamanhos – crescia uns infelizes centímetros. Barba, penso até que nunca tiveste. Não podias ter, por causa das merdas do teu pai. E tu continuavas com o teu olhar de pestanas longas e escuras perdido em movimentos hexagonais, sem nunca me encontrares a olhar para ti quando passavas os olhos no teu ponto de foco preferido. Era em mim que te demoravas mais, mas acho que nunca me viste.
Entraste no curso de medicina, porque o teu pai assim pensou que querias, ou não pensou que não quisesses. Ou não pensou no que querias sequer. Quando tinhas quase seis anos, a meio de um jantar de família, daqueles jantares de merda da tua família, o teu pai disse-te, António, levante-se e pule até eu lhe dizer que pare. As pessoas da tua família eram todas formais umas com as outras, mas os maus tratos sobre ti não eram formais, a falta de amor não era formal, e a falta de respeito também não. E tu pulavas, até que ele se enfadasse com o barulho dos teus pés no soalho, até que ele se incomodasse com o barulho dos teus pés no soalho. Até que ele te gritasse que parasses com o barulho dos teus pés no soalho. Merda de pai, o teu, António.
Dei por mim a olhar para ti fixamente. Lembravas-me uma mosquinha das frutas, uma mosquinha da azeitona, engrenada na sua rota sem sentido. Paravas o teu olhar na mulher rechonchuda que sentada a teu lado se agarrava a uma revista cor-de-rosa, entretendo-se com as notícias de uma tia que engordou, ou de um casal que se separou. Tu, voltavas a desviar o olhar, voltavas a apanhar o casal de adolescentes que sem pudor tentavam chegar com a língua ao céu-da-boca do outro.
Já deves ter reparado, António – quieto como és – nas tuas moscas volantes. Nas sombras que aparecem sozinhas no teu campo visual, quando ficas parado a olhar para o vazio. Tu, António – quieto como és – já deves ter notado essas merdas de moscas que às vezes são pontos, outras vezes linhas, ou fragmentos de teias de aranhas, que flutuam morosas em frente dos teus olhos. Dos meus olhos. Dos olhos de todos nós. E depois piscamos e elas sobem. Desaparecem. Nunca notaste? Foi o que me aconteceu contigo. Eu distraí-me e perdi-te de vista. Pisquei os olhos e, qual mosquinha volante, tu desapareceste. Até voltares a aparecer no dia seguinte na merda de um jornal pela pior das razões. Tinhas te atirado para a linha do comboio. Chamavas-te mesmo António, e tinhas quase 20 anos. Quase vinte anos e eu não fiz nada. Quase vinte anos e eu limitei-me a observar os teus movimentos hexagonais. Podia ter falado contigo, e ter te feito sentir que existias, nem que seja para uma estranha. Podia ter te feito sentir que importavas, mesmo para uma estranha. Quase vinte anos e eu deixei-me ser apenas uma merda de ponto de foco para ti. De algum modo, deixei-te morrer. Pisquei os olhos e tu desapareceste. E eu serei para sempre a menina da tua idade, com medo do teu fantasma, num corredor enorme e escuro que nunca mais acaba.

Merda de saudades

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa. Neste caso, está presente na merda desta prosa. E ela descreve a mistura dos sentimentos de perda, falta, distância e amor. A palavra vem do latim, passando pelo galego, que deu origem às formas arcaicas de soidade ou saudade, que deram origem à palavra actual, mas esta merda não interessa para nada. Interessa é que tenho saudades tuas, Susana. E ter saudades é bom, mas é uma merda. És um ano e dois meses mais velha do que eu. Eu tinha 4 anos quando nós nos conhecemos. Tinhas o cabelo pela cintura, castanho e liso. Eu tinha o cabelo pelos ombros, normalmente separado em duas partes com dois totós vermelhos. Conhecemo-nos debaixo da mesa da cozinha, que ficava encostada a uma parede com azulejos azuis, e onde eu passava muito tempo porque gostava da sensação de ter um tecto por cima, e no qual pudesse tocar.
Tinha acabado de chegar de Faro, onde morei dos dois aos quatro anos, e fixámo-nos em Lisboa. Eu passei a morar no 3.º C, na casa da minha avó que sempre tratei por mãe. E tu moravas no 1º C e eras a filha da porteira. Chamas-te Susana e foste tão importante para mim que sei o teu nome todo, ainda hoje, depois de mais de 30 anos. E olha que nós portugueses temos nomes bem compridos. Volta e meia eras levada pelos teus pais para a terra, como dizias, que se chamava Viseu, para ires à merda de um aniversário qualquer de um dos teus primos. Tive duas vezes piolhos por causa dos nossos colegas da primária, tu também tiveste. Mas quem nunca teve piolhos que atire a primeira pedra. Agora sei que os piolhos são umas merdas de uns insectos sem asas, de cor escura, pequenos, que se alimentam exclusivamente de sangue humano. Agora sei que os ovos dos piolhos são endurecidos e de cor branca tipo pérola e são chamados de lêndeas. São depositadas nos fios de cabelo, próximos do couro cabeludo, e deles nascem as ninfas que quando adultas depositam cerca de 80 ovos antes de morrer. Grande merda, ou não? Quando eu tinha 4 anos, as lêndeas não eram outra coisa senão os filhotes irrequietos dos piolhos, que gostavam muito de viajar, saltando facilmente de cabeça em cabeça. É uma merda ter piolhos, mas eu nunca me importei. Preferia apanhá-los de amigos, apanhares de mim ou eu de ti do que não brincar contigo. Aliás, até gostava da extra atenção da minha mãe quando ela me revistava o couro cabeludo. Às vezes, e isto nunca lhe confessei, fingia ter comichão aqui e ali.
Tu estavas sempre presente nos meus dias. Lembro-me de brincar contigo e com os meus irmãos com legos e carrinhos; de construirmos uma casa feita de lençóis na sala, presos por molas. Molas de merda porque não aguentavam com o peso dos lençóis durante muito tempo. Mas eram tendas anexadas a mais tendas. Lembro-me de nos sentarmos quietas e ansiosas pelo espectáculo de fantoches no beliche dos meus irmãos. Um espectáculo de merda, mas feito com as melhores das intenções do meu irmão Pedro, e que nós adorávamos. Lembro-me de chorar desalmadamente quando o meu irmão Pedro incorporando o papel de cowboy maldito queimava os meus índios, depois de atados a paus e rodados sobre uma fogueira, tal espeto de javali grelhado sobre brasas. E de tu te adorares ver-nos a brincar, sem participares, porque preferias ver do que estragar alguma coisa. Que merda de pensamento, mas sei porque te sentias assim. Davas valor a tudo. Lembro-me de insistir muitas vezes contigo para jogares e podia parecer até para quem estivesse de fora que te estava a fazer uma merda de bullying, cuja palavra agora é muito popular, mas devo dizer que: meus amigos, essa merda sempre existiu. Mas não de mim para ti, isso não. Nem de ti para mim. Éramos boas amigas. Eu gostava e gosto muito de ti, ainda. Lembro-me do meu irmão Bruno me torturar com cócegas quando me ia buscar à escola primária n.º 2 da Pontinha. Lembro-me de teres contado à minha avó que o Marcos me tinha dado um beijinho na boca, e de eu ter sido obrigada a lavar os dentes, os lábios e a língua com sabão azul e branco, quando o beijinho na boca fora na verdade um leve e tímido encostar de lábios muito juntos e esticados. A propósito, que merda foi essa? Era segredo, Susana. Eu não contava os teus segredos. Lembro-me de te contar estórias inventadas à pressão só para te distrair, quando estavas triste. Lembro-me de seres canhota e eu achar a isso muita piada. E de com as nossas mãos termos feito um carro viajar até ao futuro, passando com o carrinho perto da rota de fios de algodão ensopados em álcool, e depois incendiados pelo meu irmão quase pirómano. Lembro-me de querer ser bombeira. E tu polícia. Lembro-me de partilhar todos os meus brinquedos contigo. De andar de bicicleta à volta do quarteirão, por turnos. Primeiro tu. Depois eu. Depois tu. Depois eu. Mesmo quando tinhas receio de cair e estragar a minha bicicleta, eu obrigava-te a andar. Lembras-te do meu Pai e dos meus irmãos correrem atrás de nós para que se caíssemos eles nos agarrassem? Era assim que eles faziam exercício. Lembro-me de tapares a boca com as duas mãos, de ficares vermelha e pareceres que podias explodir a qualquer segundo, e de me implorares que eu parasse de contar piadas porque não conseguias respirar se te risses assim tanto. Lembro-me do dia em que me pediste para parar de te fazer rir, porque senão farias xixi nas pernas, e de eu não ter acreditado. Desculpa estar a partilhar esta merda, se me estiveres a ler, em vez de ficares chateada, manda-me uma merda de uma mensagem. Já vais tarde, Susana. Já vais tarde. Mas antes tarde do que nunca mais. Lembro-me de lavarmos as duas as roupinhas das nossas bonecas no tanque. Em dois tanques pequenos, feitos ao nosso tamanho, e que a minha mãe comprou para nós. Que merda ter saudades. Lembro-me de nos esticarmos para pendurar as roupas nos varais do 1.º C. Lembro-me de ficarmos as duas na varanda do 3.º C a olhar para o prédio alto e cheio de janelas iluminadas que ficava depois do descampado, onde eu costumava colher flores com a minha avó. E eu dizia-te frequentemente que eu ainda havia de morar naquele prédio de reis e rainhas, quando fosse crescida. E que te levava comigo, claro. Lembro-me de te dizer, agora eras a policia e eu era o ladrão e tu tentavas prender-me porque eu tinha roubado as maçãs da mercearia do senhor André e da senhora Odete. Sempre quiseste ser polícia. Eu sempre quis ser ladrão.
Lembro-me de tanta coisa. Que merda de saudades. Lembro-me de te ter convencido a brincar às cabeleireiras na sala da casa da minha avó, onde vivíamos todos. Tu, Susana, com a voz fina e instável de 5 anos, perguntavas-me pela terceira vez, ó Sofia, não vais cortar a sério, pois não? E eu dizia-te, fica descansada que a tesoura é de brincar. Mas vira-te para a frente. Vira-te para a frente senão não brinco mais contigo. Merda de chantagens. As crianças são tramadas. E tu viravas-te para a frente. E eu cortar-te-ia o cabelo pelas orelhas. E tu gostaste. Gostaste da merda do penteado que eu te fiz, e se isso não é prova de que o amor nos torna cegos, não sei que prova mais seria. Sempre tive a certeza de que se eu te dissesse, faz isto, faz aquilo, senão nunca mais sou tua amiga, tu fazias. Uma amizade assim nunca mais tive. Isto soa mal, parece bullying talvez, mas era amizade pura, tanto de ti para mim, quanto de mim para ti. Eras mais do que uma amiga, bem mais do que uma melhor amiga, eras a minha irmã, Susana. E os irmãos discutem, e fazem a vida dos outros num inferno, chateiam-se, fazem as pazes, fazem chantagem uns com os outros, fazem mil e uma merdas, mas amam-se. E nós éramos irmãs de pais diferentes.
Agora moro no 1.º B desse prédio que não tem reis nem rainhas, a senhora Odete morreu com um cancro, a mercearia do senhor André passou a loja de animais onde comprei 7 peixes que acabaram todos por morrer, tu foste morar para Viseu quando ainda andávamos apenas no secundário e uns anos mais tarde ouvi rumores de que trabalhavas numa fábrica. Que merda, queria que fosses polícia. Será que agora já és polícia? Espero que sim, se for isso que ainda queres. A vida dá tantas voltas. Eu tirei jornalismo, trabalhei como redatora criativa em agências de publicidade e depois mandei tudo para o ar para ser assistente de bordo. Já morei em mais de nove outras casas, já vivi em 5 outros países, e estou finalmente de volta a Portugal. Gostava de te rever, mas não sei como te encontrar. Restam-me a merda destas saudades que não me levam a lado nenhum a não ser a escrever mais um texto de merda. E quando vou visitar a minha avó, na casa onde costumávamos todos morar, continuo a olhar da varanda do 3.º C para baixo, e procuro no teu varal as roupas das nossas bonecas penduradas. E por vezes, quando volto para minha casa, engano-me e vou bater ao 1.º C. Mas mesmo que esperasse que abrissem a porta, nunca mais serias tu, nem a tua mãe, nem o teu pai. O prédio já teve outros 3 porteiros. Mas nunca mais fui amiga de nenhuma filha de nenhum outro vizinho. Susana, tenho saudades tuas, merda. Vamos andar de bicicleta. Vamos vestir e pentear as bonecas. Vamos brincar com plasticinas. Vamos cantar ao microfone. Vem brincar comigo, Susana, senão nunca mais sou tua amiga.

Merda de abertura fácil

Agora as garrafas de vinho também com são de abertura rápida. Não são só as garrafas de cerveja. Tudo é abertura rápida. De consumo imediato. Momentâneo. Não sei se sou só eu, mas o vinho está no meu imaginário como um momento lento, de apreciação, cheio de romantismo até. Mas quem é que pode ser romântico se não perder algum tempo a abrir uma garrafa de vinho? Já não basta a invasão na vida dos outros e na nossa, que com a merda do facebook se faz num abrir e fechar de página? Já não basta o acesso rápido a todas as coisas na internet? Não basta as aplicações de encontros que fazem com que a vontade de conhecer alguém acabe com um dedo para a esquerda por causa de uma foto mal tirada? E quando se conhece alguém e a primeira coisa que se faz é fazer google do nome dele ou dela, ou investigar todas as fotos do instagram ou de outra merda de rede social qualquer. Porque não investir tempo a conhecer alguém? O que aconteceu ao fazer-se perguntas sobre o outro? Acabaram-se os momentos românticos, o tempo da descoberta. Agora sabe-se tudo no momento. E já ninguém se conhece devagar. Basta ir ao facebook ou fazer uma procura no google, e sabe-se praticamente a vida toda dessa pessoa. Os miúdos de 10 anos já não querem aprender a tocar guitarra, nem treinam horas e horas a fio. Aos 16 anos já ninguém se junta com os amigos nem tem bandas de garagem. Agora são todos estrelas de rock na Xbox e fazem todos tours mundiais com os amigos de merda virtuais. Tem de ser tudo instantâneo. Para quê perder horas por semana a aprender bateria quando se pode ter mil fãs novos todos os dias no mundo virtual? Aliás, ninguém tem tempo para aprender nada porque o tempo vai todo para as selfies para o instagram, ou o tempo desaparece a ver a vida dos outros passar no ecrã do telemóvel. É o mundo do resultado fácil, da abertura rápida, do final da linha. Já ninguém quer saber do caminho. Do antes, agora salta-se para o depois. Tenho saudades do durante. Já ninguém telefona aos amigos, agora fazem-se posts. Já ninguém pergunta ao pai ou ao amigo onde fica este ou aquele restaurante. Agora pergunta-se ao google. Merda de tempos acelerados. Por favor, tragam-me de volta uma garrafa de vinho com abertura lenta.

Merda de preconceito

A história da violência contra pessoas LGBT no mundo é composta de insultos, preconceitos e agressões a gays, lésbicas, bissexuais e transgéneros, prisões e assassinatos de inocentes, danos aos seus direitos humanos e ódio, entre muitos outros erros. Acredita-se que aqueles que são alvos dessa violência violem regras heteronormativas e protocolos de percepção de papéis de género e papéis sexuais. “Os ataques contra pessoas LGBT giram em torno da idéia de que existe uma maneira normal de viver, que engloba todas as expressões, desejos, comportamentos e papéis associados ao género ao qual cada pessoa foi designada no nascimento”. Esta é apenas a definição, mas podes ver o que tudo isso significa? Que temos de desempenhar o nosso papel e seguir regras atribuídas a nós no nascimento, ou então, estamos fadados a ter uma vida miserável, com ainda mais obstáculos, marcada por preconceito e se nos aceitarmos como somos, corremos o risco de morrer pelas mãos de alguém que acha que devemos ser de uma maneira diferente da nossa. Primeiro: eu não pedi para nascer, e depois com o meu nascimento, a minha mãe também deu à luz um manual inteiro de 300 páginas que eu deveria seguir sem perguntas sobre como eu deveria agir, sentir, pensar e ser? Como é que essa merda é justa? Não deveríamos ser quem nascemos para ser? A violência direcionada às pessoas devido à sua sexualidade percepcionada, pode ser psicológica e física, chegando aos assassinatos. Atos violentos, incluindo abuso doméstico e sexual, contra a comunidade LGBT, e bem, com relação a todas as pessoas, é claro, mas agora estou a falar dessa comunidade, podem levar à depressão, comportamentos suicidas e trauma. Eu não sou lésbica ou trans. Eu sou heterosexual, mas ainda assim digo que estou lutando pela minha causa. Porque eu quero um mundo melhor para mim e para os meus filhos, se eles vierem algum dia. No final, quero um mundo melhor, onde não haja espaço para qualquer tipo de discriminação, para todos nós: um mundo justo, gentil e feliz. Não um mundo de merda, feito de gente de merda, com regras e idéias de merda. Quem quer isso? Porque alguém pode ser envergonhado, perseguido, maltratado, posto de lado, amado menos ou nem um pouco, ignorado, apenas porque essa pessoa ama alguém do mesmo sexo? Também ama e isso é tudo o que devia importar. Todos devemos poder amar alguém, em liberdade e em felicidade. Quem são eles para dizer o que é ou o que não é normal, apenas porque é diferente? Não há diferença entre mim e os meus queridos amigos gays. Existem sim diferenças entre mim e quem os julga e ainda mais diferenças entre mim e aqueles que julgam o suficiente para criar sofrimento em outra pessoa. “A liberdade de uma pessoa termina onde a liberdade de outra pessoa começa.” Porque não começamos a por isto em prática? Não acredito que ninguém tenha ouvido isto antes. Ninguém se deve sentir autorizado a roubar a felicidade de alguém ou o simples direito dessa pessoa de ser. Alguém que rouba ou inflige dano esconde as suas ações porque é criminoso e errado, mas porque é que alguém deveria se esconder se tudo o que está a fazer é estar a ser ele mesmo e amar outra pessoa? Como tu te sentirias, e agora estou a falar apenas com as pessoas heterossexuais como eu, se o teu direito de seres tu mesmo fosse subitamente roubado de ti? Se tu não pudesses apresentar o teu amor à tua família, temendo que ela vos repudiasse, se decepcionasse e até sentisse nojo de ti pelo simples fato de amares alguém do sexo oposto? Como as pessoas heterossexuais pensariam e se sentiriam se a história e o mundo tivessem acontecido ao contrário? Se a homossexualidade fosse a chamada normal, ou a norma, e a heterossexualidade fosse a minoria, a maneira errada de ser, e até, quem sabe, um crime? Se ser heterosexual fosse agora uma razão para tu seres espancado e assassinado por alguém que tu nunca conheceste antes? Como tu te sentirias se não pudesses te casar com o teu amor? Se tu perdesses amigos (que na minha opinião nunca foram verdadeiros amigos ou não te teriam deixado por isto) e a família te abandonasse apenas e só por preconceito? Como tu te sentirias se seres heterossexual de repente fosse o teu segredo obscuro e pervertido? O que te faz sentir que podes não ser normal. Ou que algo estará errado contigo. Ou que estás doente, e precisas de ser corrigido ou curado? Se isso te faria sentir isolado, deprimido e até propenso a pensamentos suicidas? Não porque tu fizeste algo errado, mas apenas porque é assim que tu és. Tu sabes que és heterosexual, sentes que não podes contar a ninguém, e o mundo de repente fica muito mais difícil para ti, só por causa disso? Como tu te sentirias? Pensa melhor da próxima vez se fores dos que sentem algum tipo de preconceito em relação às pessoas não heterossexuais e antes de dizeres algo errado sobre isso, da próxima vez. Não podemos mudar o passado, mas podemos corrigi-lo no presente. Eles também são pessoas. Eles também têm sentimentos. Eles também se magoam. Somos todos iguais, somos seres humanos, e todos devemos igualmente ser autorizados a nos expressarmos completamente, a amar-nos a nós mesmos e a quem amamos. Sê gay, se fores. Sê heterossexual, se fores. Sê um unicórnio, se quiseres. Mas vamos ser gentis.

Prejudice shit

The history of violence against LGBT people in the World is made up of insults, prejudices and assaults on gay men, lesbians, bisexual, and transgender individuals, arrests and murders of innocents, harm on their human rights, and hate crime, among so many other wrongs. Those targeted by such violence are believed to violate heteronormative rules and contravene perceived protocols of gender and sexual roles. “Attacks against LGBT people revolve around the idea that there is a normal way for people to live, which encompasses all expressions, desires, behaviours, and roles associated with the gender each person was assigned to at birth.” This is just the definition, but can you see what all this mean? That we need to perform our birth-given role and rules or else, we are fated to have a miserable life, with even more obstacles and we risk to die by the hands of someone who thinks we should be in a different way that we are. First: I did not ask to be born, and then I am born and with it comes a whole manual that I should follow no questions asked of how I should act, feel, think and be? How is this shit fair? Shouldn’t we be able to be who we were born to be? Violence targeted at people because of their perceived sexuality can be psychological and physical up to and including murder. Violent acts, including domestic and sexual abuse, towards the LGBT community, and well, towards every single person of course but now I am targeting this community, may lead to depression, PTSD, suicidal behaviours, and trauma. I am not a lesbian or a transgender, even if some could think I am and that’s not a problem for me. I am straight, but I still say I am fighting for my cause. Because I want a better world for myself and my children, if they’ll come along some day. In the end, I want a better world where there’s not space for any sort of discrimination, for all of us: a fair, kind, and happy world.  Not a shitty world, made of shitty people, with shitty rules and shitty ideas. Who wants that? Why would you be shamed, persecuted, mistreated, put aside, loved less or not at all, ignored, just because you love someone of your same sex? You love as well. We all should be able to love someone, in freedom and in happiness. Who are them to say what is or isn’t normal, just because it is different? There’s no difference between me and my dear gay friends. There are yes differences between me and anyone who is judgemental and even more differences between me and those who are judgemental enough to create suffering in someone else. “A person’s freedom ends where another person’s freedom begins.” Nobody should feel entitled to steal someone’s happiness or their simple inherent right to be. Someone who steals or inflicts harm hide their actions because it is criminal and wrong, but why should any person to hide themselves if all they are doing is being themselves and loving someone else? How would you feel, and now I am talking solely to the straight people out there, like me, if the right of you to be yourself would be suddenly taken from you? If you couldn’t introduce your loved one to your family fearing they would disown you, be disappointed, be even disgusted at you, for the simple fact you loved someone of the opposite gender? How would straight people think and feel if the history and the world would have happened and act the opposite If homosexuality would be the so called normal, or the norm, and heterosexuality would be the minority, the wrong way to be, a crime? If it would be a reason for you to be beaten and murdered by someone you had even never met before? How would you feel if you couldn’t get married to your love? If you would lose friends (who in my opinion weren’t ever a true friend to you) and family out of prejudice only? How would you feel if you being heterossexual would sudden be your dark and pervert secret? That made you feel you might not be normal. Or that something would be wrong about you. Be ill. In need to be corrected, or cured? If that would make you feel isolated, depressed, and even prone to suicide thoughts? Not because you did anything wrong but just because that’s the way you are. You know you are straight, you feel you can’t tell anyone, and the world suddenly is so much harder for you, just because of that? How would you feel? Think better next time you feel any kind of prejudice towards the non-straight people, and before you say something wrong. They are people too. They have feelings. They hurt. We are all the same, we are humans, and we should all equally be allowed to fully express ourselves, love ourselves and another. Be gay if you want. Be straight if you want. Be a unicorn if you’d like. But let’s all be kind.  

Merda do Murphy

Ou da lei dele

Lei de Murphy é um adágio da cultura ocidental que normalmente é citada como: “Qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível.” Foi com essa frase que Edward Murphy, um captain da Força Aérea Americana, “criou” a Lei universal que assombra até hoje nós os azarados. O Ed não era assim um gajo muito positivo, e por causa dele e da visão de Murphy, toneladas e toneladas de pessoas têm tido merdas a acontecer na vida delas quando menos precisam. Tipo eu. Depois de um processo de recrutamento demorado, eu tinha finalmente entrado no curso de tripulantes de cabine da que seria a minha próxima companhia aérea, quando a merda do Corona resolveu explodir, e suspender-me o curso. Não podia ter acontecido noutra altura? Obrigadinha Murphy. Menos grave mas tão irritante também, é o facto de que sempre que eu deixo cair o pão no chão, e isso acontece mais vezes do que podem pensar, o pão cai sempre com a merda da manteiga para baixo. E a culpa é de quem? Do Murphy. A visão tradicional diz que há uma chance de 50% para cada opção mas isso está errado, porque das 21 vezes que isto me aconteceu só duas vezes é que o pão caiu com a manteiga para cima. Com essa premissa do Murphy (e não minha) em mente, em 1995, quando eu ainda não tinha experimentado merda de pandemia de corona nenhuma, o físico britânico Robert Matthews publicou um tratado sobre o assunto que chamou de “A Torrada em Queda. A Lei de Murphy e as Constantes Fundamentais.” E amparado por complexos cálculos matemáticos e experimentos científicos, esse senhor demonstrou que a torrada tem de facto uma tendência inerente para cair com a manteiga para baixo. Ele verificou que em 9.821 quedas, 6.101 foram com a manteiga para baixo. E por causa da merda do Murphy, o Roberto desperdiçou horas e dias da vida dele a deixar torradas com manteiga cair da mesa e a apontar o resultado das quedas num caderno. Pelo menos que tenha ganho um prémio Nobel por isso. Mas então como posso eu continuar a ser a pessoa positiva, que me caracteriza, quando estas leis de Murphy existem e se verificam? Não são rumores, não são mitos nem lendas, nem conversas de galley, são teorias comprovadas de merdas que realmente acontecem. Quando estamos parados no trânsito, a fila do lado é sempre a que anda mais rápido, ou não é? Quem nunca mudou de fila, só para ficar parado de novo a ver a ex-fila a andar mais depressa? Isso acontece-me nas filas para mostrar o passaporte no aeroporto, nas filas das caixas dos supermercados, nas filas nos ATMs para levantar dinheiro. E sempre que decido fazer um atalho, esse atalho passa a ser a distância mais longa entre dois pontos. Quando estou a pintar um quadro e faço merda, qualquer tentativa de melhorá-lo só piora. Também é fatídico que todas as soluções que arranjo, acabam por me criar um novo problema. E sempre que vou comprar roupa e pego o tamanho S para provar, só me serve o M, mas se tivesse escolhido o M, o S é que teria sido o indicado. E se está escrito “Tamanho único” aposto convosco em como não me vai servir. As poucas vezes que tenho coragem para ir andar de bicicleta, não importa para onde vou, é sempre morro acima e contra o vento. Quando jogo poker e finalmente tenho dois Ases esses perdem sempre para uma merda de mão. Se houver 3 festas às quais eu quero muito ir, vão as três calhar no mesmo dia. Quando não tenho namorado, não há gajo nenhum interessante num raio de 100 km. Mas assim que arranjo um, aparecem outros 3 super interessantes. Enfim, qual lei qual quê. Juro que este Murphy lançou-nos foi a todos uma maldição. No outro dia andava à procura de um número de telefone e encontrei-o finalmente escrito num mapa, mas fiquei na mesma porque o número estava apontado na dobra do mapa, e com a dobra do mapa lá se foram alguns dígitos. Ora, culpa do Murphy. O mesmo acontece com muitas informações importantes nos mapas de uma rota ou destino que se perdem numa dobra ou na margem do mapa. É que a margem de um mapa de apenas um centímetro representa 28% da área total do mesmo. Grande merda, pois. Por esse motivo os bons guias rodoviários e mapas de cidades repetem pelo menos 30% da informação de cada página. Mas isto não interessa nada porque eu devo ser das poucas que ainda sabe o que são mapas de papel. A juventude agora só usa os GPS. Where’s the fun of it? Com os mapas descobríamos caminhos novos, e eu particularmente descobria realmente caminhos muito novos, alguns que não estariam sequer marcados nos mapas, porque me perdia constantemente, but not the point. Com os GPS levamos com ordens da voz irritante da gaja que nos manda 3 vezes virar à esquerda. Vire à esquerda a 300 metros. Vire à esquerda a 200 metros. Vire à esquerda agora. Deve ser divorciada essa gaja, ninguém aguenta isso. É certo que também uso às vezes, mas o meu é homem e só por segurança, é mudo. E as minhas meias, Sr. Murphy, as nossas meias? Tenho perdido dúzias de meias em máquinas de lavar e é um problema comum na minha vida nos 5 países onde já vivi. Por isso, não posso atribuir a culpa nem aos países nem às máquinas de lavar. Elas entram em pares, e saem soltas, livres, e solteiras. Acabam o namoro dentro das máquinas de lavar, e o outro par desaparece sem deixar rastro. Que sonho, se fosse assim tão fácil acabar o namoro com uma pessoa. Entrávamos na máquina como casal e num programa rápido de poucos minutos e frio, eu saia sozinha, e nunca mais ninguém via o gajo. Isso o Murphy não inventa. A título de curiosidade de merda, segundo o Victor Niederhoffer, que foi um senhor que curtia estudar estatísticas, se perdermos mais do que uma meia de uma vez só, o mais provável é que sejam de pares diferentes. E se houver duas ou mais maneiras de fazer algo e uma delas pode resultar numa catástrofe, alguém se decidirá por esta. E esse alguém normalmente sou eu. E tu, e todos nós, por causa da merda do Murphy. E este merdas também provou que levar um guarda-chuva quando há previsão de chuva torna menos provável que chova. Assim como regar as plantas, faz chover. Tinha acabado de regar o quintal inteiro a semana passada, e de enrolar a mangueira toda de volta e colocado no suporte, quando começou a chover. Mas também tenho outro truque para que chova: pendurar roupa. Seja a que horas que eu decida pendurar a roupa, quando estender a última toalha ou a última cueca, ou aquela meia agora solitária no estendal da roupa, é certo que vai começar a chover. Por causa de quem? Do Murphy. O São Pedro já não manda nada. E também é culpa do Murphy só encontrarmos as coisas nos últimos lugares que as procurarmos. Ou encontrarmos essa mesma merda dias depois quando não estamos já mais à procura dela. Basta. Portanto quando perdi no outro dia a chave do carro, o primeiro lugar em que fui procurá-la foi no frigorifico, e encontrei-a logo à primeira, por isso tecnicamente nunca perdi a chave. E agora quando tenho 4 chaves parecidas para um cadeado e não me lembro qual é a chave que o abre, experimento a última que normalmente experimentaria. E abro o cadeado à primeira. Agora quando quero regar as plantas, desenrolo a mangueira e digo para o ar, “Vou ter imenso trabalho agora a regar as plantas todinhas.” E chove. No trânsito digo em voz alta: “Era agora que eu mudava de faixa, estou a preparar-me para mudar de faixa, olha que vou mudar de faixa” e não mudo, mas a minha faixa passa indeed a andar mais depressa. Sim, é verdade que dou ares de maluca e ando a fazer as coisas de maneira diferente do que as faria, e que ando a falar sozinha e a dizer estas merdas para o ar, mas seja como for, creio ter descoberto uma maneira fantástica que contrariar o azar que a lei de Murphy nos impregna há décadas; e porque sou muito fixe, resolvi partilhar agora convosco o meu mais novo método para que tudo corra bem e o Murphy vá finalmente à merda.

Shitty Corona

 

I have taken this quarantine very seriously. I follow all orders and medical advice. I have been in total social isolation and confinement for over a month. But I do miss being free and dirty. Yes, because if now I don’t wash my hands for at least 20 seconds I feel really nasty. This must be what people who experience obsessive-compulsive cleaning disorder feel. In fact, at the end of all of this shit, we will all visit the psychiatrist taking with us some nice disinfected cookies along. I already made an appointment for July, because in the same way that the toilet paper rolls were used up and sold out, the psychiatrists will also be gone. As a shitty curiosity, before this Corona pandemic outbreak, the percentage of the disease in the general population was 3%. I went to find out some more to know if I should worry about myself. In the article they say that a serious sign is that if we find ourselves constantly repeating behaviours or rituals such as cleaning the house, washing hands or organising objects. Now, this was without a slight of a doubt my first 30 days of quarantine. Today is my 44th day of confinement, and I cannot say that I am getting any better, but now I have nothing else to organise. Everything is in their absolutely right place. The days go by well when I have no contact with the outside. I play the piano, sing, read cool books and write some shit, I watch Friends on Netflix, I’m already in the third season of the third round; and finally, I feel safe here walking from the living room to the bedroom, from the bedroom to the bathroom, from the kitchen to the terrace. But I don’t stay there in the terrace if I hear someone coughing on the second floor. I am afraid Corona might experience suicidal thoughts and throw himself out of the window, fall on my hair, I then scratch my head and put my hands in my eyes. And that’s it, tinoni, tinoni, here comes the ambulance. And I wouldn’t even know which bus would have hit me. At home I feel good and secure, but when I have to go downstairs to the door of the building to get the purchases that Continente delivers to the building entrance, my life turns to shit. And in addition to that obsessive-compulsive disorder, we are all already suffering as well from agoraphobia, this shitty disturbance characterised by symptoms of anxiety in response to situations that we perceive as unsafe, and among these are open spaces, shopping centres and in more serious cases, everything that is outside the home. It’s just me? Anyone? Something that was once certain for me and uncomplicated, it is now a scene of terror. First, I wear my waterproof motorcycle jumpsuit, so that afterwards I only have to immediately wash one piece of clothing when I return home, and I must say that that jumpsuit looks great on me, tight and sexy, at least that, only to be spoiled by my ugly winterly beanie hat where I stuff all my hair inside, whether or not it is a sunny day, a surgical mask with two elastics that force and bend my earlobes, and terribly ugly glasses to protect my eyes, which I would have used just to go riding a bike to Monsanto that I never managed to go to, and there I am, totally ready to go and face this shitty enemy of ours that is invisible and silent. I think to myself, as I lock the door of the house, in a repetition mode so as not to lose focus, that I cannot put my hands in my mouth, in my nose, nor in my eyes. I cannot put my hands in my mouth, in my nose, nor in my eyes. I don’t take the elevator because I can be inside and imagine it stops on any floor and some potentially infected human gets in? And then, it’s the thing, some doctors say that the virus hovers in the air inside the elevator for 3 hours, Jornal Expresso says in the same article in different paragraphs, come on at least in different paragraphs, that it lives in metal and plastic for about 3 days, and then a bit ahead it says 5 days. So I tell them all  to go to shit and go down the stairs. I’m going down the steps and thinking, don’t take buggers out of your nose, don’t take buggers out of your nose, the light goes out and there goes my elbow to turn on the light. Do not rub your eyes, do not rub your eyes, and the elbow that until then was of no use except to feel the famous elbow pain at one or another moment of envy, is now the main artist chosen to turn on switches and push doors. Don’t stick your fingers in your mouth, don’t stick your fingers in your mouth, and I finally get downstairs without meeting anyone on the stairs, literally for my health, and I listen to see if whether or not there are people in the lobby. The coast is clear, the little obsessive-compulsive General who lives now in my mind shouts, in a hurry, go go, the coast is clear and I assertively cross my potentially contaminated fingers so that no one appears, and I go in my astronaut mode. And then the insidious transport of goods begins. I arrive at the door of my house, without having put my hands in my mouth or plucking my eyelashes or sticking my fingers through my nose compulsively. A victory, indeed. The bags are all at the entrance door, in my mind visibly contaminated with that shitty virus, I open the door and then two by two, I take the bags to the terrace. At the entrance I take my shoes off and barefoot I walk in the house without touching anything towards the terrace where I start to accumulate my groceries on the floor that will be contaminated of course, and then I go back to the entrance, I put on my shoes to get more bags from the outside,  the red danger zone, and then back in again barefoot and I do this about 10 more times until there are no more shopping bags left outside. I left the house key and shoes logically at the entrance. I go to the bathroom to wash my freaking hands for 40 seconds because at this point 20 seconds is no longer satisfying. And I do as they taught me on TV: first I soak my hands, I leave them very moist, humid, wet, then I take a sufficient amount of soap to wash the entire surface of my hands, I start rubbing my palms against each other and with my lubricated fingers interlaced, I rub the palms and the back of the hands again. I wash the backs of my fingers and clean my thumbs with circular motions, I also make circular motions on the palm of my hand to clean my slippery fingertips, I rub my fists also first one and then the other, then I soak my hands again under running water that splashes everywhere with the fingers intertwined I rub them together and finally dry everything well with a paper towel. And this is all the sex I have had in these quarantine days. And after this shitty sex, I put the sexy jumpsuit in the washing machine and take a shower. The first phase is completed. Then you have to wash the rice, beans, noodles, the canned ones under the tap, with water and soap, and my phone starts ringing and I can’t interrupt because otherwise I will contaminate the phone and then I will have to sanitise it and I don’t think it has done him well so much alcohol gel because it is already starting to go off with no reason, so I continue to clean the fruits and vegetables with a tablespoon of bleach for 1 litre of water. And then I wash my hands well after cleaning the food, before cooking, after cooking and before eating, the palms, the back, the wrists, the tips and between the fingers, and I’m about to go out to the streets looking for the subway handrails to lick them for a long time, I’m about to go looking for bus stops to get many buggers out of my nose and to place them one by one under the seats of the bus stops like a good prep student shall do to keep alive its tradition, and then I will end up rubbing my hands on the floor of the street and stick my fingers in my eyes until it bleeds. All of this just to make sure I get this shitty Corona virus and I can end this shit once and for all.

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